O Brasil visto do alto

O segundo lançamento da Sessão Vitrine traz ao Cine Joia, no Rio, um dos documentários mais polêmicos das últimas safras. Um Lugar ao Sol não é aquele velho clássico de George Stevens sobre ascensão social, mas um filme sobre assunto análogo. Retrata oito pessoas ou famílias que moram em coberturas de luxo no Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. As coberturas, para o diretor Gabriel Mascaro, foram um caminho (um dispositivo) para chegar ao pensamento de um estamento social pouco visitado pelos docs brasileiros.

O filme foi muito discutido em festivais por conta do retrato pouco lisonjeiro que faz de alguns personagens e pela ética duvidosa com que Mascaro deles se aproximou. A produção contatou os entrevistados através de um folheto que apresentava Gabriel como um famoso diretor de publicidade internacional, interessado em conversar sobre a moradia em coberturas. No curso de algumas entrevistas, o tema acabava deslizando para os preconceitos e sentimentos de superioridade e segurança que alimentam o apartheid social nas grandes cidades brasileiras. Sentindo-se num contexto publicitário, as pessoas deram vazão a uma franqueza que talvez não tivessem em outra situação.

Nem tudo no filme é exaltação da diferença. Há também considerações sobre espaço, liberdade, conforto, verticalização urbana etc. Há personagens relativamente matizados. Mas dificilmente o doc não será lembrado pelas cenas explícitas de arrogância social. Um dos personagens elogia a direção por finalmente fazer um documentário sobre “uma coisa positiva”. Não intuía o quadro geral que o filme acabaria por descortinar: o de uma elite dominada pelo medo e o complexo de superioridade.

A ausência de informações sobre o processo de abordagem das pessoas e dos assuntos provoca mal-estar em parte dos espectadores, entre os quais me incluo. Embora admire a força do filme e a originalidade do tema, sinto-me presenciando o efeito de um ardil. Teria o diretor “traído” seus personagens ao estimular neles a demagogia e o preconceito? Deve-se ter com os ricos a mesma ética que se costuma ter ao filmar os pobres, ou seja, protegê-los de suas próprias palavras? São questões que vêm à cabeça depois de vermos o filme. Há mesmo um momento em que uma senhora parece cair em si a respeito do intuito da entrevista, pede para interrompê-la e sai da sala para não mais voltar.

Outros, porém, veem o resultado com naturalidade. Lembro-me de conversas que tive no Festival de Tiradentes em 2010. “Essas pessoas são cultas e informadas o suficiente para saberem o que estavam falando”, dizia Sylvie Debs, então adida cultural da França em Belo Horizonte. Para o ensaísta e professor Cezar Migliorin, havia até certa justiça poética na conduta dos realizadores: “Às vezes a gente tem mesmo que escolher o inimigo e, dependendo do inimigo, partir para a violência”.

É, pode ser.

>>> Um Lugar ao Sol passa diariamente às 19h30 no Cine Joia até a quinta-feira próxima.

5 comentários sobre “O Brasil visto do alto

  1. Pingback: Tomando o pulso do mundo | carmattos

  2. Ótima reflexão, da questão da ética… mas sinto-me mais inclinado a concordar com a reflexão do Migliorin. Sinto falta de mais filmes políticos de embate, de tese que gere polêmica e grande discussão, vejo poucos nesse estilo. É um serviço a sociedade escancarar as diferenças sociais e os abismos, de pensamento e condição. Escandaloso saber que certas pessoas tem acesso a aviões para verem ‘acima das nuvens’ as conjecturas planetárias ou que podem ver os ‘fogos’ de balas perdidas e se deliciar como se estivessem num espetáculo.
    Acho que o Gabriel Mascaro fez muito bem em armar a ‘armadilha’, uma tremenda ironia que acaba por facilitar a este grupo em mostrar sua opinião sem censura.
    E aí ficam as perguntas: será que temos que protegê-los de suas palavras, se as condições do status-quo já não os protegem com educação, moradia e etc? E para além, não seria o discurso demagógico do medo e do complexo de superioridade um dos maiores expoentes da vida da classe super-abastada?

    • Oi Luís, estou há dias pra te responder, mas sem tempo. Vamos lá:
      O assassinato é liberado quando se está em guerra, mas não fora dela. Será que estamos mesmo vivendo uma guerra de classes no Brasil? Não vejo sinais palpáveis. Só no contexto de uma guerra se tolera usar armadilhas, ciladas etc para eliminar o “inimigo”. Fora disso, é sempre bom que os termos da luta sejam claros para todos.
      Além disso, fico pensando como definir a “classe super-abastada”. Quais os limites entre dominantes e dominados numa sociedade como a nossa? Quem estaria no direito de ser respeitado e quem não? Como se definiriam essas diferenças para efeito de uma ética? Quantos pobres são algozes de outros pobres? Quantos de nós não falamos barbaridades quando acreditamos estar na redoma de certa intimidade ou identificação, em tom de camaradagem e humor?
      Admiro os documentários de embate, mas desde que esse embate seja claro, franco e destemido.

  3. Não conhecia esse lado pré-filme. Tenho mais curiosidade no pós-filme. Todas as pessoas que aparecem no filme assistiram a versão editada? Alguma delas caiu em si sobre o que ficou dito naquele contexto e tentou impedir o diretor de usar sua imagem/voz no corte final? Sempre fico pensando se algum amigo ou parente assistiu o filme e depois foi comentar com eles (na hipótese de alguns desses personagens talvez nem terem conhecimento do título da obra). Posso estar elocubrando demais, e talvez até tecendo conspirações banais, mas tenho interesse nesse feedback de quem participa de um filme.

    • Soube que alguns personagens (entre os “piores”, digamos) viram o filme e acharam tudo perfeitamente normal. Ou seja, são aquilo mesmo. Mas não tenho informações mais precisas do que isso.

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