Vida de antropólogo

Ao olho seco da teoria, biografia e filme etnográfico não têm muito em comum. A biografia é uma construção voltada para o tempo, uma ordenação mais ou menos cronológica de fatos da vida de alguém. Na imensa maioria das vezes, enfoca indivíduos isoladamente. O filme etnográfico, por sua vez, é coisa que se faz no espaço, na presença viva da câmera, no registro direto. Geralmente se interessa por grupos sociais e práticas culturais que transcendem o indivíduo.

É claro que, na prática, nada disso é rígido, dada a liberdade crescente no reino tanto das biografias quanto dos filmes etnográficos. Mas a discussão certamente vai passar por aí na mesa redonda que integrarei amanhã, na Mostra Internacional do Filme Etnográfico (terça, 18h, no Museu da República). Comigo estarão os cineastas Rolf Husmann, Nora Bateson e Joel Pizzini, além do diretor da mostra, José Inácio Parente.

A composição da mesa traz uma curiosa particularidade: os três cineastas estão exibindo na mostra perfis biográficos de antropólogos e/ou diretores ligados à antropologia visual. Husmann tratou de Asen Balikci, um expoente e inovador do filme etnográfico por décadas. Nora fez um retrato de seu pai, Gregory Bateson (1904-1980), grande pensador da antropolgia e da comunicação. Pizzini recolheu ecos da passagem do sueco Arne Sucksdorff pelo Pantanal matogrossense nos anos 1970. De alguma forma, meus três colegas de mesa enfrentaram o desafio de tratar da vida de alguém cujo trabalho foi sempre tratar de vidas alheias. Certamente vamos conversar sobre isso.

Um ponto de partida possível serão as diferenças de tratamento que encontramos nesses três filmes, marcadas pelas distintas relações entre cada realizador e seu personagem.

Dos três, The Professional Foreigner: Asen Balikci e a Antropologia Visual talvez seja o mais próximo de uma biografia tradicional. Com o veterano mas ainda vivo Asen Balikci, o diretor Rolf Husmann ocupa o lugar do colega de profissão e admirador. O filme se organiza, então, como uma série de encontros entre os dois nos diversos cenários em que Balikci viveu, filmou e ensinou a fazer filmes etnográficos. Em caminhadas e conversas por Istambul, Londres, Bulgária e nos Himalaias, Husmann entrevista Balikci sobre os diversos momentos de sua vida e carreira, assim como o interroga sobre questões específicas da antropologia visual. Temos, então, uma biografia quase sempre em primeira pessoa. Balikci mostra casas onde viveu ou trabalhou, descreve situações, reencontra um personagem de antigo filme seu e confessa que foi movido pela culpa e a vontade de retribuir que ele passou a instruir nativos na documentação de seus ambientes. Outra revelação interessante faz eco aos métodos de Flaherty em Nanook: Ao filmar os esquimós do norte do Canadá, na década de 1960, Balikci optou por reconstituir a caçada com caiaques que já tinha sido abandonada há tempos.

Nesse filme, o contato direto, o aspecto nômade, o tom de camaradagem e a curiosidade profissional de Rolf Husmann aproximam de certa forma a empreitada biográfica de um modelo de abordagem etnográfica. Veja o trailer.

Já o filme que Nora Bateson fez sobre seu pai, o multipensador Gregory Bateson (1904-1980), leva a circunstância familiar até ao slogan do cartaz: “A daughter’s portrait”. Nora assume diversas “funções” no filme: relembra os ensinamentos do pai desde sua infância, ajuda a explicar algumas ideias dele e ainda protagoniza pequenos ensaios ilustrativos chegados à videoarte. An Ecology of Mind lança mão ainda de gravações de palestras de Gregory, depoimentos de outros cientistas, animações e textos na tela. Poucos dados biográficos são espargidos aqui e ali, mas o foco está no pensamento do ex-marido de Margaret Mead. Ele explorou incansavelmente as fronteiras da nossa percepção a respeito do mundo. Ressaltou sempre que não existem definições estáticas para tudo o que se refere aos seres vivos, mas tão somente interrelações, interdependência, conexões e mudança incessante. No filme, palavras e imagens se juntam para clarificar conceitos como “a diferença que faz a diferença”, “duplo vínculo” e a própria expressão que dá título ao filme.

An Ecology of Mind é um esforço de compreensão de sistemas de pensamento complexos. Assim como Gregory Bateson fazia em suas palestras, usando desenhos e ilustrações prosaicas, Nora também tenta traduzir as ideias do pai para o campo das imagens. Apesar da trilha um tanto chill out, é um filme intelectualmente denso, que não cede às facilidades do elogio nem da celebração. Conheça o site oficial.  

Por fim, o ensaio de Joel Pizzini sobre Arne Sucksdorff (1917-2001) recorre a expedientes de natureza mais poética que retórica. Em Elogio da Graça, ele evoca o trabalho do cineasta sueco no Mato Grosso através das lembranças de sua viúva brasileira, Maria da Graça Sucksdorff, que Arne conheceu quando preparava as filmagens da série Mundo à Parte, em 1970. Se essa série de História Natural (produzida pelo IBDF) incorporava seu próprio making of e tematizava a vida do casal, Elogio da Graça quer ser uma espécie de eco. Joel é outro cineasta que chega ao Pantanal e pede a Maria da Graça que não apenas conte a sua história, mas também repita gestos e olhares que foram plasmados quase 40 anos antes pela câmera de Arne. A montagem cuida de criar belíssimas conexões entre os dois tempos, como a frisar que ambos pertencem a um só fluxo, o do cinema.

Longe de ser um perfil do cineasta de Ritmos da Cidade, Fábula e vários filmes sobre o Brasil, Elogio da Graça pode ser visto como uma biografia mínima do casal Sucksdorff. Juntos, Arne e Graça geraram dois filhos, alguns filmes, um livro e uma memória que o Brasil ainda precisa conhecer melhor. Veja o trailer.

2 comentários sobre “Vida de antropólogo

  1. Um belo trabalho de comentário crítico, histórico – verdadeiro documento da nossa esquecida produção cinematográfica. Sobretudo, admiramos o tocante ao cineasta sueco Arne Sucksdorff que palmilhou o Pantanal mato-grossense realizando ali o mais importante documentário produzido até aqui.

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