As ricas, as pobres, as heroicas

Um único festival não é suficiente para propiciar grandes conclusões, mas pode fornecer algumas pistas sobre como um tema ou personagem está sendo tratado no cinema atual. Durante o 12º Mumbai International Film Festival eu focalizei minha atenção nas imagens de mulher indiana que emergiam dos documentários exibidos em várias seções do festival.

Uma variedade de personagens e approachs cobria desde uma princesa do Rajastão filmada por uma cineasta belga até meninas lutadoras de boxe de Uttar Pradesh documentadas por uma jovem diretora recém-saída de uma escola de cinema de Calcutá, passando por mães de aluguel numa “babies farm” do Gujarat. E incluía heroínas contemporâneas envolvidas com a assistência a moças vilipendiadas e com protestos políticos anti-castas. Um vasto espectro da sociedade indiana e seus problemas passava pelos sáris e jeans dessas mulheres.

Memórias de uma Princesa Hindu põe em contraste imagens do fausto da era dos marajás com a ruína atual de seu patrimônio através das reminiscências e cenas de arquivo de Gayatri Devi, a última Maharani (esposa de marajá) da Índia. Ainda uma mulher bonita e elegante quando filmada por Françoise Levi em 1996, Gayatri em seus dias de maior glória foi amiga de reis e presidentes, chegou a ser comparada com Jacqueline Onassis, fundou o primeiro colégio para moças do Rajastão e liderou um partido de oposição a Indira Gandhi. Morreu em 2010, como sempre reverenciada por todas as castas – sobretudo pelas humildes mulheres “intocáveis” que então habitavam seu antigo e imenso palácio em Jaipur. As imagens de Gayatri revisitando seus palácios em ruínas estão entre as mais potentes do filme. Boa parte da história da Índia moderna está representada por sua história particular: a perda de poder e privilégios pelos marajás e, ainda assim, a manutenção de certo grandeur, quase ficcional, nas atitudes e nos ideais. “Nada me influencia”, é como ela responde a uma pergunta da cineasta sobre sua formação.

Se Gayatri Devi, em seus últimos anos, praticava a caridade como elo com seu passado de opulência, a protagonista de Pink Saris, Sampat Devi, é uma mulher do povo que devota sua vida a ajudar outras mulheres. Ela lidera uma certa Gangue Cor-de-Rosa, teoricamente dedicada a defender e acolher mulheres vítimas de violência e abandono numa paupérrima região do norte da Índia. Digo teoricamente por que não vemos a ação da gangue – o que pode ser uma deficiência do filme ou a insinuação de um artifício político da líder. Testemunhamos apenas o empenho individual de Sampat ao afrontar maridos irresponsáveis e sogros violentos, proteger meninas em fuga de casamentos arranjados e advogar por namorados de castas diferentes que desejam concretizar seu romance.

A relação maternal de Sampat com uma dessas meninas forma o núcleo emocional do filme, onde repercute a própria história pregressa daquela mulher forte e aparentemente invulnerável. Mas o conjunto de situações, envolvendo também familiares de Sampat, mostra a complexidade dessa personagem megalomaníaca, contraditória e, no fundo, uma grande farsante do bem. Os “processos” informais abraçados por Sampat desnudam na prática as convenções mais retrógradas da sociedade indiana. Nesse bojo há lugar para o espanto, o humor e instantes de tamanha comoção que poderiam ter saído da criação de Ingmar Bergman. Pink Saris foi exibido no É Tudo Verdade de 2011.

Atuando em esfera diferente de Sampat Devi, mas em front ainda mais arriscado, está Sheetal Sathe, a jovem cantora de protesto que domina os momentos finais de Jai Bhim Comrade, do veterano Anand Patwardhan, um dos mestres do doc político na Índia. Um grande painel da luta contra a discriminação dos “intocáveis”, esse longo e detalhado libelo revela nas entrelinhas a crescente participação das mulheres nos Ambedkarite Dalits. Esse movimento inspira-se no legado antissegregacionista de B.R. Ambedkar, um raro dalit bem-sucedido a quem Gandhi chamou para redigir a Constituição da Índia independente. A cantora, vivendo atualmente na clandestinidade depois que companheiros do seu grupo musical foram presos sob acusação de “maoísmo”, pode rapidamente vir a ser uma heroína na luta dos dalits contra os tabus religiosos e sociais que mantêm em vigor o hediondo sistema de castas. Mais interessante que ela, porém, é a tomada de consciência de sua mãe, flagrada em processo no próprio filme. Uma mulher a princípio devota e temerosa pelas atividades da filha, converte-se numa das cenas finais em mãe gorkiana, pregando abertamente pela mesma causa.

Um dos aspectos mais dramáticos das relações globais Norte-Sul é o fornecimento de recursos corporais das mulheres indianas para o mercado de aquisições europeu e norte-americano. Outros documentários já enfocaram o comércio internacional de transplante de órgãos e de cabelos. Womb of the World, de Rajendra Srivathsa Kondapalli, aborda a contratação de mães de aluguel (surrogates) para atender à demanda de casais de países mais ricos. O filme se concentra numa clínica de Anand, cidade do estado do Gujarat, onde as surrogates se internam pelos nove meses em que carregam no ventre o ovário e o sêmen alheios. Para essas indianas, o contrato representa a possibilidade de saldar dívidas, comprar uma casa e pagar a educação dos seus próprios filhos. Para os pais contratantes, é a chance de realizar um sonho impossível.

Womb of the World sublinha seu tema com ênfases de um estilo por demais televisivo e às vezes pode soar como um institucional da clínica, na medida em que rapidamente descarta os argumentos contrários a essa prática bastante discutida. Mas não se pode negar a eficácia com que acompanha o processo de um casal canadense em sua relação emocionada com a gravidez vendida por uma humilde surrogate indiana. Um estudo de caso como esse, mesmo se conduzido de maneira um tanto parcial e excessivamente dramatizada, pode ser mais elucidativo que um painel genérico cheio de estatísticas e depoimentos “especializados”.

No outro extremo da submissão representada pelos ventres de aluguel estão o fairplay e a autoconfiança das três irmãs retratadas em The Boxing Ladies. Recém-saídas da adolescência numa favela de Calcutá, as irmãs Fatma desafiam convenções de gênero e do comportamento muçulmano ao abraçarem o boxe como diversão e posteriormente profissão. O curta da também jovem Anusha Nandakumar consegue, a par de um grande poder de síntese, evidenciar o que há de semelhante e de diferente entre Zainab, Bushra e Sughra. Cada uma tem suas particularidades no que julga ser feminino, mas todas se igualam na forma lúdica e resoluta com que enfrentam socos e preconceitos.

Nesses cinco filmes muito distintos, alguns dirigidos por cineastas estrangeiras, pulsam retratos capazes de pontuar as dinâmicas do feminino num país onde essa ainda é uma questão crucial. O cruzamento de tradições religiosas, culturais, sociais e econômicas faz hoje da mulher indiana um laboratório onde se passa de tudo: da nobreza à vilipendiação; da precariedade ao heroísmo.

2 comentários sobre “As ricas, as pobres, as heroicas

  1. Um tema e tanto, Carlos. Muito bem observado. Nunca ouvi falar dessa babies farm. Assunto digno de uma grande reportagem. Abraço, Paulo

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