Só a vontade de soar jovem e vigoroso pode justificar a bad trip de Scorsese em O LOBO DE WALL STREET. Em seu pior filme desde “O Aviador”, ele patina numa saga espalhafatosa e aborrecida, cujos personagens me entediaram na maior parte do tempo. A típica história do self made man, vista por um viés moralista, tem aqui um apelo bem pequeno. Como seu concorrente “12 Anos de Escravidão”, é um desses casos baseados em história real que não trazem qualquer novidade ao gênero, a não ser Scorsese se aproximando do estilo Frank Tashlin e Leonardo DiCaprio encostando no overacting de Jack Nicholson. De resto, o LOBO é uma monótona sucessão de ejaculações cinematográficas com um permanente substrato de pieguice corporativa e uma admiração incontornável pela conjunção drogas-testosterona. Filme de machinhos sobre machinhos para machinhos. Vacuidade ostentatória, vaidade de garotões americanos autossatisfeitos. Scorsese fez concessão a um roteiro insustentável que não suporta o seu amoralismo fundamental e tenta aplacá-lo com os desfechos mais vergonhosamente conciliadores. Até entendo que ele tenha pretendido fazer um buddy-film bem escrachado, mas o fato é que o roteiro não sustenta tanta bobagem por três longuíssimas horas. A safra do Oscar este ano me parece especialmente desanimadora.
Vai ser duro enfrentar a avalanche de loas a 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO, mas devo dizer que achei o filme mais cafona já feito sobre a escravidão americana. O século 19 chega à tela com garbo audiovisual semelhante ao de dramas abolicionistas do século 20. A diferença fundamental é que Steve McQueen adota uma narrativa econômica e um tom compassado, chegado ao blues, procurando privilegiar a intensidade de alguns momentos em lugar da dimensão de espetáculo. Mesmo assim, fez um filme que me bateu frio, óbvio, pouco sutil, com situações que se repetem monocórdicas: o protagonista passa de dono a dono nas lavouras da Louisiana, sofre feito um cachorro, vê outros escravos sofrerem, toca seu violino quando é chamado, esconde sua condição de alfabetizado e inteligente, tenta provar que não é escravo, mas foi apenas sequestrado de uma vida livre. Os brancos são os carrascos de sempre: sórdidos, sádicos, sedentos de sangue. Se houvesse uma Vera Cruz em Hollywood, esse seria o seu “Sinhá Moça” (com Brad Pitt posando de abolicionista de última hora). Mas eu sei que essa minha apreciação vai contra a corrente que o filme já criou por aí, a ponto de ganhar o Globo de Ouro e chegar firme no páreo do Oscar. MCQueen é o queridinho da vez. A indústria o engoliu e agora, em troca, conspira a seu favor.
O GEBO E A SOMBRA, mais recente filme de Manoel de Oliveira, entra em cartaz amanhã exclusivamente no Cinesesc de São Paulo. Baseado em três dos quatro atos da peça homônima de Raul Brandão, é um mínimo ensaio filosófico sobre as virtudes limitadas da pobreza honesta e rotineira, e as potencialidades poéticas da transgressão e do crime. Produção francesa, traz Michel Lonsdale como um contador decente e medíocre, Gebo, que aos olhos do filho ladrão parece apenas mesquinho. Claudia Cardinale, Leonor Silveira, Ricardo Trèpa, Jeanne Moreau e Luís Miguel Cintra completam o elenco inesperado. Cada personagem da pequena família vê a realidade somente até algum ponto específico, o que desenha as várias camadas trágicas da história. A ação (se existe alguma) se passa na Lisboa do início do século passado, sempre numa sala exígua iluminada por lamparinas, em planos fixos e longos que só reforçam a origem teatral. Os diálogos partem do dia-a-dia e se inclinam para a abstração conceitual, deixando no ar um sabor gorkiano ou dostoievskiano. O tema do duplo se projeta na ideia de sombra, a inevitável contraparte da luz. Uma não existe sem a outra, e só a arte pode consolar a desgraça da vida. Oliveira fez aqui um de seus filmes mais mansos e cruéis – e também um dos formalmente mais radicais.
Que me perdoe o Globo de Ouro, mas chamar ÁLBUM DE FAMÍLIA de comédia é como dizer que “Ghost” era um filme de terror. Os muitos ingredientes de humor são “escadas” para o drama amargo que afeta os doze personagens do filme. Gêneros à parte, o que prevalece é a sensação de teatro enlatado, reeditando lugares-comuns da dramaturgia dos palcos americanos. A peça de Tracy Letts ganhou o Pulitzer, mas, adaptada pelo próprio autor para as telas, não chega a demonstrar o eventual brilho original. A estrutura parece um tanto mecânica, montada para abrir espaços para os solos carismáticos de Meryl Streep. Ela está no piloto automático, o que, no seu caso, já é um espanto de performance em voz, rosto e corpo. O resto do elenco aproveita bem cada chance de dar sua palhinha, fazendo o deleite de quem aprecia uma boa escalação. No mais, é uma teia de ressentimentos, revelações e bate-bocas que quer concentrar numa só família quase todas as purgações da vida em comum. Se diverte, é porque na vida o que faz chorar também pode fazer rir.
NOSSA SUNHI, de Hong Sang-soo (inédito no Brasil), é um filme-irmão-gêmeo de “Filha de Ninguém”. Ambos foram realizados no ano de 2013 e compartilham uma personagem que estuda cinema e tem questões afetivas por resolver. Sunhi precisa de uma carta de recomendação de seu professor, que sempre teve uma queda por ela; quer explicar melhor por que se separou de um antigo namorado; e também promove uma aproximação amorosa com outro ex-professor. Enfim, Sunhi pode ser vista como uma jovem manipuladora, que usa sua beleza para fisgar e descartar homens. Mas o que dizer da inocência com que tudo é feito, como se Sunhi apenas colhesse o resultado de atos muito naturais? Esse parece ser um dos segredos do cinema de Sang-soo: despir as disputas amorosas de qualquer crueldade ou cinismo, ainda que o preço seja uma certa infantilização dos personagens. NOSSA SUNHI é uma sucessão de conversas regadas a cerveja, frango frito e cigarros, com as usuais repetições/variações de frases e situações típicas do diretor, que lembram composições musicais. Tudo é tão simples que pode ser tomado como um cinema amador, muito embora nessa simplicidade esteja a profunda identificação entre tema e estilo, pensamento e tratamento. Este filme não é dos seus melhores, mas destila um encanto suave e despretensioso.
“Mas eu sei que essa minha apreciação vai contra a corrente que o filme já criou por aí, a ponto de ganhar o Globo de Ouro e chegar firme no páreo do Oscar”…
Oh, não importa — não importa MESMO essa grosseria inculta das opiniões enlatadas por aí, Carlos Alberto. O que importa é que as tuas quatro opiniões põem o dedo na(s) ferida(s) de três dos cinco filmes, com razão e franqueza desassombradas, o pá. {Por falar nisso, como é que o Manoel de Oliveira faz, pra permanecer tão radicalmente interessado em fazer experiências de liberdade cinematográfica?)…
Ora, o cinema está mais para os três, agora, do que para qualquer Manoel ou qualquer outro de talento resistente, nesta hora crepuscular. Ou seja, está de fogo baixo — e tem que ter alguém, como vosmicê, pra se recusar a ver altas fogueiras nos filmes que o pessoal [entre outros] dos feicebuques “adora”, “ama-de-paixão” etc.
Estás afinadíssimo, nos últimos tempos! Se não fosse pela vossa deletéria admiração de Woody Allien, eu trataria de inaugurar um “Fã-clube CAM” em qualquer lugar…
Fernando, é mesmo uma pena que entre mim e você se levante apenas essa barreira chamada Woody Allen. Não fosse isso, seríamos felizes para sempre. Se bem que tenho sido bem parcimonioso na minha admiração pelos WA recentes.