Nos subúrbios de Tóquio

Sobre os filmes DEPOIS DA TEMPESTADE e CREEPY 

Comentários casuais e informações do rádio situam o contexto em que se passa DEPOIS DA TEMPESTADE. Pessoas desaparecem no bairro, velhos morrem sozinhos e só são encontrados semanas depois, um tufão se aproxima de Tóquio. O medo da solidão e da desagregação familiar faz o subtexto de vários filmes de Hirokazu Kore-eda (“Ninguém Pode Saber”, “Pais e Filhos”). Esse mais recente gira em torno de um escritor que já teve seus melhores dias e agora ganha (ou perde) a vida como detetive particular, trabalhando com chantagens conjugais, extorsões e animais de estimação desaparecidos. Viciado em jogo, Ryota não consegue pagar a pensão do filho e é visto com desdém pelos parentes. As suas tentativas de se reaproximar do filho e da ex-mulher, com a cumplicidade da mãe, colocam Kore-eda mais uma vez no coração da vida média japonesa, como faziam Ozu e Naruse.

Nada demais acontece, nem mesmo quando chega o tão anunciado tufão. Cada dupla de personagens tem uma conversa central, que define a relação, a maioria delas durante refeições. O filme seduz pelo tom de crônica despretensiosa e pelas insinuações de comicidade dentro do drama. Ryota usa o aparato de detetive para bisbilhotar as atividades da ex-mulher. Ele é um personagem no limite da comédia, objeto de referências jocosas em diálogos familiares, sobretudo nos contatos com a mãe pragmática e divertida (a irresistível Kirin Kiki, uma habituê dos filmes de Kore-eda).

Como contribuição para uma etnografia ficcional, vale destacar a diferença entre o temperamento mais prático e objetivo das mulheres e o caráter vacilante, tapeador e infantilizado dos homens, como demonstra a linhagem de Ryota com seu pai e seu filho. “Custa muito a um homem ser aquilo que queria ser”, diz o escritor-detetive em dado momento. DEPOIS DA TEMPESTADE mostra com serenidade e humor essa dificuldade fundamental do macho, pelo menos o japonês.



A cordialidade japonesa entre vizinhos é duramente posta à prova no thriller CREEPY, do especialista Kiyoshi Kurosawa. Um ex-detetive, agora professor de Psicologia Criminal, e sua mulher se mudam para uma nova residência e tentam socializar com os novos vizinhos. Um deles parece especialmente enigmático, até mesmo para a própria filha. Ao mesmo tempo, mordido pelo vício profissional, o professor reabre investigação sobre um antigo caso de família desaparecida. Na longa introdução dos personagens, que ocupa toda a primeira metade das 2h10 de projeção, não demoramos muito a perceber que as duas linhas do argumento vão fatalmente se encontrar.

A filmografia de Kiyoshi Kurosawa tem duas vertentes dominantes: detetives apurando crimes em série, como é o caso de CREEPY, e histórias sobrenaturais como a do recente “Para o Outro Lado”. CREEPY tem de positivo o senso de atmosfera característico do diretor, com um cenário sereno e atitudes comedidas que deixam entrever a existência de camadas ocultas. De negativo, tem uma trama mirabolante e cheia de incongruências que só os fiéis admiradores da lógica do policial japonês podem tolerar. Se não fosse levada a sério, poderia ser uma sátira da estupidez dos detetives nipônicos. Se fosse menos esdrúxulo, poderia ser uma paráfrase oriental de “O Silêncio dos Inocentes”, com direito a um uso particularmente macabro da embalagem a vácuo. Do jeito que está, CREEPY deve agradar mais a adolescentes condescendentes e fãs incondicionais do gênero.

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