Coração de estudante

Há exatos 35 anos, entrava em cartaz o hoje clássico JANGO, de Silvio Tendler. Este crítico festejava a estreia como um ato cívico.

Este texto foi publicado originalmente no jornal Tribuna da Imprensa há exatos 35 anos, em 30 de março de 1984, quando alguns golpistas empedernidos lustravam as botas para comemorar os 20 anos da “Redentora” no dia seguinte. JANGO entrava em cartaz no dia 31. Era a irrupção da verdade contra a narrativa da ditadura.

Jango é o verdadeiro ato cívico deste 31 de março, a que você deve comparecer na certeza de reencontrar o elo perdido da nação. Vá mergulhar de cabeça e coração nas imagens e sons vivos de uma História cheia de esperanças e ilusões, dores e emoções.

Jango é um filme genuinamente independente. Tem a coragem de ser opinativo, parcial, tão apaixonado quanto era Os Anos JK, com que Silvio Tendler estreou no documentário de longa metragem há quatro anos. Não tem o cabotinismo da falsa objetividade, pois é impossível ser imparcial diante de fatos como esses. A constelação de artistas e intelectuais que se dispuseram a participar do filme, os técnicos que trabalharam em regime de cooperativa, a presença de Denise Goulart (filha do biografado) como produtora e pesquisadora, as dedicatórias à filha do diretor, aos documentaristas Joris Ivens e Chris Marker e à memória do cineasta Olney São Paulo e do líder comunista Gregório Bezerra – muita coisa denota a carga de afetividade colocada na realização.

Goulart (1918-1976), como muitos alegam, talvez não tenha sido o grande estadista sem poder que o filme procura mostrar. Mas isto se justifica por um certo estado de espírito que animou toda a equipe e anima qualquer cidadão neste país em frangalhos. As reações, naturalmente, não são muito homogêneas. Após uma exibição especial, o general Antonio Carlos Muricy, membro ativo da conspiração contra Goulart e responsável por importante depoimento contido no filme, recusou-se rispidamente a opinar sobre a obra para a Tribuna da Imprensa.

Afinal, depois de 20 anos, tudo ainda parece tão perto. Jango é raridade – um documentário com suspense. Ao contrário de Os Anos JK, em que a narrativa era mais ou menos linear, aqui o interesse se acumula passo a passo, desde a eleição de Jango para deputado estadual (RS) em 1947, rumo ao “imprevisível”, ou seja, ao espectro de 1964 – e daí até sua morte na Argentina, em 6.12.1976. Tendler sabe como intensificar o compasso de tragédia política, combinando uma sólida massa de informações com as delícias da ironia e o apelo da emoção.

Não deixe esta data passar em branco. Faça seu ato de civismo diante do memorável discurso de Jango no comício da Central do Brasil (e preste atenção na montagem de Francisco Sérgio Moreira). Vá ver como Tendler e Moreira explicam, na montagem, o papel de O Encouraçado Potemkin, de Eisenstein (1905), no levante dos marinheiros cariocas em 1964. E rever a face do traidor Cabo Anselmo, em triste evidência esta semana. Veja também o peito crivado de balas de Che Guevara e daí, sem escalas, ao enterro do estudante Edson Luís, o “Menino” cantado por Milton Nascimento (e não se importe se as lágrimas despencarem). O fragor da luta ideológica tomando as ruas, violência e ternura nos estertores da nossa democracia.

Foram dois anos e meio de pesquisa em cinematecas, arquivos particulares (inclusive os da família Goulart), quilômetros de telejornal e muitos quilos de material impresso. Na exumação, voltaram à luz joias como os cinejornais sobre as visitas de Jango à China e à URSS, ou um filminho apócrifo de propaganda contra o regime, produzido pelo IPES com dinheiro americano e sob a batuta do bruxo Golbery. No afã de conter as reformas sociais, o IPES inventava uma reforma ortográfica e escrevia “moralisação”, assim mesmo com “s”.

Jango foi feito para olhos e ouvidos famintos. Velhas cenas da vida brasileira ressurgem com uma habilidosa sonoplastia toda nova (de Geraldo Ribeiro); as canções satíricas reunidas por pesquisadores competentes como Jairo Severiano dão a coloração adequada às batalhas eleitorais; enquanto os sons de Wagner Tiso envolvem tudo num clima de cerimônia civil e evocação comovida. Os depoimentos atuais são marcadamente sóbrios. Num deles, Magalhães Pinto quase pede desculpas por ter ajudado a derrubar um presidente legitimamente constituído. Em outro, o general Muricy explica como o comício de 13 de março foi útil para o Exército. Brizola fala da tese dos dois golpes. Em calorosas imagens da época, você vai ver San Tiago Dantas supor que o Brasil jamais se endividaria além da conta. Ou Fidel Castro, emocionado, anunciar na TV cubana a morte do companheiro Che. Na costura geral, narrado por José Wilker, o texto enxuto, vivo e sem papas na língua de Maurício Dias.

De tudo isso emerge a figura quase bonachona de João Goulart – às voltas com frágeis alianças políticas, posições incômodas como a de presidente rico de um país pobre, ideais reformistas incompatíveis com os interesses das oligarquias nacionais e internacionais. “Machista sutil”, na definição de sua filha. Infeliz no exílio até morrer “como um peão perdido no caminho de volta ao seu galpão”, na comparação de Carlos Castello Branco. Nem tanto um homem comum, nem tanto um mito.

Silvio Tendler, cabeça de professor e coração de estudante, dá mais uma prova de amor ao binômio Cinema-História. Com humildade e inteligência, fervor e paciência, ele construiu um dos mais belos documentos sobre a nossa História recente. E mostrou mais uma vez que o cinema documentário admite produtos de massa capazes de magnetizar qualquer plateia. Principalmente aquelas que não descansarão enquanto não voltarem a eleger diretamente seu Presidente da República.

Tribuna da Imprensa, 30.3.1984

4 comentários sobre “Coração de estudante

  1. Grande rememoração. Brilhante resenha. Bastante atual. Só uma pequena correção. O comício da Central foi em 13 de março, 19 dias antes do golpe.

  2. So pra reireirar que o acompanho e que admiro a sua coragem de publicar este testemnuho emocionado do filme do Tendler, um exemplo de documentario militante e altamente persuasivo da personalidade afavel de Jango e da efervescencia politica na America Latina na decada de 60 do seculo passado. Uma licao de Historia sem tanto revisionismo como pode parecer, atentando ao pessoal e intransferivel dos acertos e monumentais excessos de otimismo de uma era node a realidade das “forcas ocultas” imperou. 

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