Festival do Rio: “Capitu e o Capítulo”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

Julio Bressane é um vanguardista no retrovisor. Desde Tabu (1982), sua filmografia sofreu uma inflexão no rumo do passado. Um misto de culto e dissecação pós-moderna de cadáveres ilustres como Lamartine Babo, Oswald de Andrade, Machado de Assis, Cleópatra, São Jerônimo, Nietzsche… Como nos  casos anteriores, Capitu e o Capítulo fica longe de qualquer ideia de adaptação literária ou histórica. Trata-se de uma apropriação de Dom Casmurro para um ensaio ficcional com os personagens do romance.

Em quadros/capítulos geralmente estanques e fixos (tableaux vivants), Bentinho (Vladimir Brichta), Capitu (Mariana Ximenes), Escobar (Saulo Rodrigues) e Sancha (Djin Sganzerla) revezam-se em cena, como que evocados por um Bentinho envelhecido, o tal Dom Casmurro (Enrique Diaz), ele próprio cercado de livros e histórias de poetas mortos enquanto jovens.

Mais que o ciúme de Bentinho, expresso de maneira hilária numa cena de concerto, o que prevalece no filme é a pulsão de morte. Não falo da morte de Escobar, escondida numa elipse, nem do quase envenenamento do bebê supostamente bastardo, mas do olhar ambíguo de Bressane para as coisas de outro tempo. O tempo de Machado, naturalmente, mas não só. A pintura antiga e a arte acadêmica, por exemplo, referidas frequentemente na cenografia em quadros, afrescos e na filmagem amadora da decoração de um palácio europeu. A própria fixidez das composições, com poucos e bonitos movimentos de câmera, convoca a ideia de naturezas mortas, ou de um tempo transformado em pura memória.

Bressane beija o passado, ainda, ao incorporar curtos excertos de 11 filmes seus, incluindo a célebre sequência do microfone “ouvindo” as memórias póstumas do esqueleto em Brás Cubas. Quando Bentinho, tropeçando no próprio ciúme, chuta um dispositivo e faz a câmera girar sobre seu eixo, é mais uma vez o narrador Bressane tentando traduzir o que Machado provocou na estrutura do romance brasileiro em 1899. Um retrovisor voltado para a inovação de anteontem propõe algo novo para hoje. Machado talvez gostasse desse desejo de atar as duas pontas do tempo, assim como Dom Casmurro procurava “atar as duas pontas da vida” em sua narração.

P.S. Depois dos primeiros letreiros finais consta ainda um pequeno making of do filme.

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