Notas sobre os filmes A MÚSICA NATUREZA DE LÉA FREIRE e DIVERTIMENTO
Léa Freire, prazer em conhecê-la
Uma das poucas virtudes da ignorância é o prazer de fazermos novas descobertas ao longo de toda a vida. Só aos 70 anos vim conhecer a genial compositora e instrumentista Léa Freire. Chego a envergonhar-me por nunca sequer ter ouvido falar dela. Por sorte, fui apresentado por esse filme encantador de Lucas Weglinski.
A Música Natureza de Léa Freire é um misto de filme-concerto e documentário biográfico, onde as duas vertentes se mesclam num roteiro e numa montagem das mais interessantes. Das origens da flautista prodígio que aprendeu música com a mãe pianista à mulher madura que hoje inspira jovens músicos, a história de Léa Freire é contada sem que a música seja quase nunca interrompida para as cabeças falantes.
Gente como a cantora Alaíde Costa (que a “adotou” como filha em certa fase), os músicos Amilton Godoy, Filó Machado, Aurismar do Espírito Santo, Silvia Góes e Keith Underwood estão lá para performar e ajudar a dizer quem é essa gigante da música brasileira. Num ambiente tradicionalmente masculino como o da música instrumental, a presença de Léa Freire é uma belíssima exceção. Isso talvez explique por que alguém como eu não a conhecesse até agora.
As composições de Léa passeiam com liberdade e beleza entre o clássico, o jazz e os ritmos populares brasileiros. É uma música que soa natural e ao mesmo tempo complexa, como bem define uma de suas discípulas no documentário. Ouvi-la me fez pensar em Villa-Lobos, Gismonti, Jobim, Pixinguinha, Hermeto, Keith Jarrett… Há quem cite também Debussy e Bach numa busca inútil de situá-la. Eu saí direto do filme para seus álbuns no Spotify.
Depois de um início marcado pela Bossa Nova, a formação de um famoso duo com Guilherme Vergueiro, muitas apresentações para internos da Febem e uma longa estada nos EUA, onde frequentava o Village Vanguard, Léa afastou-se do palco por 12 anos. Virou mãe e administradora de empresas. Voltou aos instrumentos em 1996 para se consagrar como compositora e produtora através do selo Maritaca. A consciência social a induz, ainda, a trabalhar com o Projeto Guri de inclusão de crianças e adolescentes através da educação musical. O filme registra suas apresentações recentes com músicos de vários países em Nova York e, no Brasil, com o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo e a Orquestra Sinfônica da Unicamp.
Lucas Weglinski, seu parceiro principal Joaquim Castro e a equipe fizeram um trabalho criativo na estruturação do filme, deixando que a musicalidade exuberante de Léa fluísse gostosamente, com um respeitoso pudor para interrompê-la. Algumas performances dão margem a exercícios de videoarte que adensam os sentidos das composições. Recomendo não abandonar o filme antes do fim dos créditos, pois o derradeiro clipe de montagem, ao som de Turbulenta, é um vibrante cumprimento à bravura de Léa Freire.
>> A Musica Natureza de Léa Freire estará nos cinemas do Rio a partir de quinta, 25/7.
Ensaio de orquestra
A maestrina francesa Zahia Ziouani e sua irmã gêmea, a violoncelista Fettouma Ziouani, fundaram em 1998 a Orquestra Sinfônica Divertimento num gesto de ousadia para dar curso a sua carreira contra a misoginia e os rigores acadêmicos excessivos. A história delas chegou ao cinema pelas mãos da diretora Marie-Castille Mention-Schaar num filme encharcado de música clássica.
Divertimento abusa um pouco dos clichês, mas tem lá seu charme. É uma pena que o protagonismo de Zahia, em sua cruzada para se estabelecer como regente, obscureça o papel de Fettouma, a irmã devotada que se contenta em desaparecer entre os outros músicos. Até porque a performance de Lina El Arabi, quando aparece, é particularmente cativante. Ela aprendeu violino e toca de fato o violoncelo no filme. Já Oulaya Amamra, como Zahia, embora defenda com sensibilidade a personagem, não convence muito no gestual do pódio.
O filme sintetiza sua conturbada ascensão do conservatório de subúrbio à escola de música parisiense e às aulas com o célebre maestro Sergiu Celibidache (Niels Arestrup, perfeito). São anos de luta para se impor contra o bullying incessante dos colegas da elite e as tentativas de desencorajá-la para um posto que costuma ser reservado aos homens.
Zahia sabe tudo o que existe por trás das músicas e vê o mundo em padrões musicais. O pai argelino apaixonado pelos clássicos e a torcida da irmã foram seu principal estímulo até que o meio aceitasse sua perseverança. O trabalho das irmãs com educação musical num centro comunitário e a relação de Zahia com o clarinetista que tem o pai preso são mais uns tijolinhos na construção de personagens positivos e inspiradores. A mensagem central é que não basta a técnica se o músico (ou o maestro) não tem o que exprimir.
Dentro dos moldes um tanto previsíveis do roteiro, a direção cênica faz uma ótima parceria com a direção musical, o que se reflete na boa dinâmica das cenas de ensaio e de apresentações. O grand finale ao som do Bolero de Ravel, bastante formulaico, trai o desejo de colocar o romanesco acima da realidade. Não chega a ser um Tár, mas é um bom divertimento.
>> Divertimento está nos cinemas.



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