Bem antes do Wikileaks

SEYMOUR HERSH: EM BUSCA DA VERDADE

Em dado momento do documentário, o veterano jornalista investigativo Seymour Hersh se aborrece com os diretores e ameaça desistir do filme porque não quer ver reveladas suas fontes. “Como isso foi parar nas mãos de vocês?!”, esbraveja. É curiosa a inversão momentânea de papéis. Ele, que construiu uma carreira brilhante explorando vazamentos e enfrentando a fúria de autoridades, fica indignado com a possível revelação de seus segredos.

Foi inevitável vir à lembrança o episódio das denúncias recentes de Malu Gaspar sobre supostas interferências de Alexandre de Moraes no caso Master. Proteger o sigilo das fontes é um dever do jornalista, mas qual o limite desse direito quando o assunto se torna questão jurídica? Há um limite?

Seymour Myron Hersh lidou com esse dilema desde que denunciou o massacre de civis, incluindo bebês, na guerra do Vietnã. Seymour Hersh: Em Busca da Verdade (Cover-Up)  faz um perfil competente do repórter e escritor que revelou muitos horrores da máquina de guerra e informação estadunidense. “É um filho da puta, um provável agente comunista”, eis como Kissinger o classifica no áudio de um telefonema com Nixon.

Bem antes de Julian Assange criar o Wikileaks, Hersh já expunha os podres do poder. Com informantes dentro do Pentágono e da CIA, levou às páginas da imprensa, entre outras coisas, o uso de gases tóxicos em testes na área rural, a intervenção de Kissinger em apoio ao golpe contra Allende no Chile, a espionagem e violação de correspondência de cidadãos e estudantes pela CIA, os acobertamentos (cover-ups) que se seguiram ao Watergate, as torturas e violências sexuais perpetradas pelo Exército de Bush no presídio de Abu Ghraib, no Iraque.

Cada uma dessas façanhas é comentada pelo próprio Seymour, do alto dos seus 80 e poucos anos, com sua fala vívida e ainda manipulando velhas anotações em folhas de papel amarelo e uma pasta de couro vetusta que deve lhe servir desde a era Kennedy. “Somos uma cultura de enorme violência”, é como resume seu diagnóstico dos EUA. E olha que Trump ainda não tinha invadido a Venezuela.

Laura Poitras tentava fazer um filme com ele desde 2005. Pretendia segui-lo enquanto ele apurava matérias, mas Hersh se recusava, temeroso por expor suas fontes. Só recentemente obteve sua concordância, dirigindo então em parceria com Mark Obenhaus. Não se trata de um filme investigativo como Citizen Four ou Risk, também de Laura, mas de uma reportagem privilegiada sobre a trajetória de Hersh.

Entre muitos materiais de arquivo e poucos testemunhos de terceiros, temos um flash do trabalho atual do jornalista, quando ele recebe telefonemas de uma fonte anônima denunciando a chacina de crianças por Israel em Gaza. Seu veículo, na época da filmagem, não era o The New York Times nem outro grande jornal onde já trabalhou, mas a newsletter Substack.

Alguns aspectos menos louváveis do trabalho de Hersh não deixam de ser mencionados. Entre seus vários livros, um sobre John F. Kennedy despertou suspeitas de informações falsas sobre o relacionamento do presidente com Marilyn Monroe. Laura chega a questioná-lo on camera sobre os riscos de usar fontes únicas. Mas Hersh sempre preferiu confiar no desejo das pessoas de lhe contar o que viam de errado no poder, mesmo com o risco de se darem mal.

>> Seymour Hersh: Em Busca da Verdade está na Netflix.

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