Ladrões e Bicicletas
novembro 30th, 2011 § 1 Comentário
Não sei se tem a ver com a minha chegada, mas ontem (terça) a chuva se foi e o sol se abriu sobre Belo Horizonte. No Palácio das Artes, a turma boa do Fórum Doc BH ocupava o Cinema Humberto Mauro e o café adjacente. Uma pena que a livraria Letras e Artes esteja desmobilizada. Mas bem em frente, no Conservatório de Música, é possível encontrar as atraentes edições da UFMG com 20% de desconto. Nada mau.
No cinema, tive dois programas principais ontem. Ao ver Bicicletas de Nhanderu, deu até pra entender por que houve certa rejeição dos índios guaranis ao filme, mesmo tendo sido feito por dois deles, Sandro Ariel Ortega e Patrícia Ferreira. O assunto é a perda da espiritualidade por parte dos Mbya-Guarany. Enquanto um líder da tribo coordena a construção de uma “casa de reza”, vemos um painel de comportamentos nada espiritualizados entre os índios: festas, jogo, cerveja, conversas sobre ganhar dinheiro com os filmes, crianças imitando Michael Jackson e pedindo restos de pão em casas de brancos.
O título do filme se refere ao ser humano, que para os Mbya-Guaranys seriam meros veículos dos deuses. Há certo realismo da parte do líder espiritual ao reconhecer que a pureza absoluta é impossível num mundo feito de imperfeições. O cotidiano da aldeia Koenju, no Rio Grande do Sul, revela essa imperfeição numa escala raramente vista por filmes realizados por índios. Mesmo para os padrões não conformistas da Vídeo nas Aldeias, Bicicletas éuma ousada investigação para além dos estereótipos dos indígenas simpáticos, modelares e ciosos de sua herança cultural.
A outra sessão memorável da terça-feira me trouxe de volta a alegria de quando vi pela primeira vez Ladrões de Cinema, de Fernando Coni Campos, nos anos 1970. Contando a história de um grupo de favelados que rouba o equipamento de cinema de uma equipe estrangeira e resolve fazer a sua própria versão de Tiradentes, o filme tira um sarro hilariante do cinema dominante no Brasil à época (1977). A onda do filme histórico-literário, estimulado pela ditadura militar e patrocinado pela Embrafilme, sofre aqui uma espécie de estupro. A estética popular se apossa dos meios de produção, transforma a História oficial em carnaval e a favela em cenário épico. A operação é magistralmente levada a cabo num modelo de espetáculo que bebe nas chanchadas, nos programas humorísticos de TV e nos desfiles das escolas de samba. A antropofagia se faz não somente sobre o estrangeiro, mas também sobre as formas de expressão nacionais, inclusive com Grande Otelo repetindo um pouco seu papel em Rio Zona Norte, mas agora tentando vender um argumento cinematográfico.
Após a sessão, aplaudida com força e gritos, Jean-Claude Bernardet praticamente saiu da tela – do papel do francês Claude Rouch, que fornece negativos para os cineastas-favelados – para comentar o filme diante da plateia. Ele fez sua habitual leitura política, chamando atenção para o “limite ideológico” que levou Coni e o roteirista Sergio Sanz a, de um lado, fazerem os favelados absorver a cultura intelectual dos livros de pesquisa e, de outro, pontuar alguns questionamentos sobre o papel de Tiradentes, um branco rico e de patente, como herói supremo da História do Brasil.
Em tempos de revisão da chanchada e tantas discussões sobre a fusão entre ficção e documentário, cultura de elite e cultura de periferia, um relançamento de Ladrões de Cinema seria uma tacada de mestre.
Ontem foi exibido também Santos Dumont: Pré-Cineasta?, de Carlos Adriano, já bastante comentado aqui no blog. O “mineiro pra lá de bom” deu o recado em sua terra natal. Adriano está acertando direitos de músicas e imagens para finalmente lançar seu premiado ensaio nos cinemas.
Os faróis de Neville D’Almeida
novembro 30th, 2011 § Deixe um comentário
“Genet, que não era cineasta, foi capaz de fazer um dos filmes mais mitológicos da história do cinema.A coragem, a liberdade, a sensibilidade deste filme feito em 1950 tiveram um impacto brutal. Foi interditado, proibido e ameaçado de ter os negativos queimados. Genial”.
Neville D’Almeida refere-se a Un Chant d’Amour, de Jean Genet, apontado como um de seus filmes-faróis. Veja os outros seis no blog Faróis do Cinema.
Três dias no Fórum
novembro 29th, 2011 § Deixe um comentário
Atendendo ao gentil convite de Aline Ferreira, vou enfim conhecer in loco o Fórum Doc BH – Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte. Eles estão em festa de 15 anos – o tempo em que eu os acompanho à distância, por exiguidade de agenda e falta de oportunidade. Minha estada vai ser curta – três dias a partir de hoje (terça) – mas acho que é um bom período para sentir a força do evento.
Hoje à noite, por exemplo, vai ser ótimo rever Ladrões de Cinema em sessão comentada por Jean-Claude Bernardet. Fernando Coni Campos (1933-1988) é homenageado com uma retrospectiva, que pretende contribuir para tornar esse realizador um pouco menos “objeto estranho” na cinematografia brasileira. Amanhã à tarde, todos os olhos estarão voltados para a sessão especial do novíssimo A Voir Absolument (Si Possible) – Dix Années aux Cahiers du Cinéma, 1963-1973, de Ginette Lavigne, Jean Narboni e Jean-Louis Comolli (este, um verdadeiro ídolo do Fórum). Na quinta, se me deixarem entrar como ouvinte, vou assistir à primeira aula do curso de Eduardo Escorel, intitulado Dilemas da Observação.
Basta folhear o catálogo do Fórum 2011 (online aqui) para perceber que este é um dos festivais de cinema mais cultos do país. Organizado por gente saída da academia e ligada aos Estudos de Cinema, tem como meta não só exibir filmes, mas também aprofundar questões caras ao cinema não puramente ficcional. Assim, além da mostra competitiva com os filmes da temporada, há outros segmentos de caráter mais especulativo. A mostra/seminário deste ano é dedicada às relações entre homens e animais através do cinema. Outra mostra, igualmente acompanhada de debates, está apresentando o cinema dos povos originários da Bolívia e do México.
Cada um dos setores do Fórum mereceu um ou mais textos no catálogo, que tem corpo e densidade de um bom livro. O texto de apresentação, assinado por nada menos que 26 pessoas, reflete a postura de um evento descentralizado, fruto não de um projeto de empreendimento, mas de uma reunião de amigos dispostos a exercer a paixão e o zelo pelo cinema e as ideias em torno dele. Sintomaticamente, essa apresentação conclui referindo-se a “uma pequena comunidade, leve e dispersa – e isso confere um mistério a esse festival – que se materializa nas primeiras filas da sala Humberto Mauro, em um período de breves e densos dias do ano para assistir e conversar sobre filmes, que certamente nunca teríamos chance de ver e compartilhar se não os projetássemos nós mesmos. Foi por isso que fizemos”.
Nos três dias em que me juntarei a essa comunidade, pretendo passar minhas impressões pelo Twitter e Facebook. Se houver tempo, volto aqui ao blog.
Os faróis de Malu De Martino
novembro 28th, 2011 § Deixe um comentário
“Das posições de câmera inusitadas à narração super bem aplicada, O Escafandro e a Borboleta é um quadro pintado por aquele que considero um artista plástico dos melhores e que não se contenta com uma ou outra tela, e sim com todas as possíveis.”
Este filme de Julian Schanbel é um dos faróis da diretora brasileira Malu De Martino (Mulheres do Brasil, Como Esquecer). Confira a lista completa no blog Faróis do Cinema.
A revista do Gustavo
novembro 26th, 2011 § 2 Comentários
Saiu finalmente do forno a edição 55 da revista Filme Cultura. Na capa, como se vê abaixo, a fina estampa de Gustavo Dahl. Não podia ser diferente. A Filme Cultura foi um dos últimos projetos por que Gustavo se apaixonou. Dirigir a revista juntava nele o apetite de gestor com a gana de criador. Seu desaparecimento, em junho último, deixou claro para a equipe de redação que ele próprio deveria ser o tema do número seguinte.
Embora a Petrobras ainda não tenha se definido quanto à renovação do projeto que viabilizou as edições 50 a54 (veja update abaixo), equipe e CTAv se mobilizaram para fazer essa edição com menos recursos, mas com o mesmo nível de qualidade que Gustavo impôs aos números anteriores. Como a tiragem é menor, de apenas 1.000 exemplares, não haverá venda massiva da FC55. Adistribuição será dirigida pelo CTAv e apenas alguns pontos de venda serão oportunamente divulgados.
Aqui vai, em primeira mão, a lista de matérias da revista. O site já está atualizado com a edição completa e mais alguns materiais exclusivos.
Editorial – Equipe Filme Cultura
Ensaio de uma Autobiografia – Sheila Schvarzman
Depoimentos sobre Gustavo Dahl
Gustavo: Ação, reflexão e a busca da linguagem – José Carlos Avellar
Dobrar, cortar, costurar – Ricardo Miranda
Gustavo Dahl: um avatar no cinema brasileiro – André Gatti
Cinemateca de textos 1 – Gustavo Dahl
Carta a Paulo Emilio
Frases e fotos
Cinemateca de textos 2 – Gustavo Dahl
Um Filme / O bravo guerreiro – Daniel Caetano
Um Filme / Uirá, um Índio em Busca de Deus – Carlos Alberto Mattos
Um Filme / Tensão no Rio – João Carlos Rodrigues
Curtas de Gustavo Dahl – Joana Nin
Outro olhar / A promessa, de Gustavo Dahl – João Carlos Rodrigues
A consciencia do olho, da disposição e da cena – Daniel Caetano
Cultura, mercado, dias atuais – Alfredo Manevy
Livros / O Brasil imaginado na America Latina – Carlos Alberto Mattos
E agora, Ana Luiza Azevedo?
E agora, Karim Aïnouz?
Busca avançada / A gente quer saúde e arte – Carlos Alberto Mattos
Peneira digital – Carlos Alberto Mattos
Cinemabilia
Update: Liana Correa, Gerente do CTAv, esclarece que a Petrobras já assegurou o apoio necessário à continuidade da revista no ano que vem.
Crônicas do fim do mundo
novembro 24th, 2011 § Deixe um comentário
Apesar do sobrenome, o doc-artista catalão Carlos Casas não parece muito enamorado pela ideia de ficar em casa. Longe disso, ele escolheu lugares extremos do mundo para fazer seus filmes bastante peculiares. Sejam madeireiros da Patagônia argentina, sejam pescadores do Mar do Aral ou caçadores da Sibéria profunda, seus personagens são figuras desgarradas em paisagens imensas, pessoas convivendo quase que só consigo mesmas e com uma natureza inóspita e esmagadora.
Carlos Casas estará amanhã (sexta) no Instituto Cervantes (Rua Visconde de Ouro Preto, 62, Botafogo), a partir das 19 horas, num evento do Festival Multiplicidade. Vai abrir a exposição End, de fotos tiradas durante as expedições que geraram a trilogia homônima de filmes. Na ocasião, será exibido o terceiro tomo da trilogia, Hunters Since the Beginning of Time, sua odisseia siberiana. Em seguida, ele fará um bate-papo público com o documentarista Bebeto Abrantes e comigo.
Hunters (foto acima) é a coroação de uma maneira toda própria de filmar lugares e homens. Se quisermos fazer aproximações indicativas, podemos imaginar Robert Flaherty menos a dramatização e Werner Herzog menos a retórica. Casas faz uma espécie de observação radical da rotina de seus personagens. Articula uma dimensão épica – a árdua extração vegetal ou animal nos imensos cenários naturais – e uma visão intimista das pessoas dentro de casa, em suas refeições e hábitos domésticos. Combina também o desejo etnográfico de informar, ainda que sem entrevistas e quase nenhuma narração, com a busca da beleza, sempre impactante nessas geladas bordas do planeta.
A câmera, manipulada pelo próprio diretor, raramente se atrela ao movimento dos objetos filmados, mas mantém-se em escolhas impassíveis, ora fixa, ora em lentas panorâmicas laterais que lembram as de Jia Zhang-Ke. Ou seja, o estilo subjuga a realidade filmada, traduzindo não a procura de um decalque, mas a criação de um terceiro objeto a partir da soma realidade+cinema.
A Trilogia End foi iniciada há dez anos com Solitude at the End of the World, na Patagônia (foto à esquerda). Ali já se impunham os personagens solitários em cenários ermos, os solilóquios de gente ensimesmada, a trilha atmosférica mais baseada em pulsões sonoras que em música e uma certa tendência à contemplação, na medida em que o tempo das tomadas absorve algo da temporalidade esgarçada daquelas lonjuras.
Em seguida veio Fishing in an Invisible Sea (foto à direita), rodado entre pescadores nos 20% que sobraram do Mar de Aral (na verdade um grande lago), no Caracalpaquistão (ex-URSS). Ali os moradores remanescentes esperam o mar e os peixes “voltarem” num mítico ciclo de 40 ou 50 anos após a desertificação quase total. Dos três, este é o único filme que possui alguma narração, repartida entre os representantes das três gerações enfocadas. E também o único que contém uma sequência de diálogo efetivo entre personagens.
Por fim, Hunters me parece a obra-prima de Carlos Casas. Ao concentrar-se na dualidade básica da sobrevivência, caçar e comer, ele chega ao âmago de sua proposta. O tempo do filme é o tempo das tocaias na divisa entre neve e mar. A beleza congelada do lugar sugere às vezes cenários de ficção científica, enquanto as lentes captam cromatismos indefiníveis, mágicas refrações de luz e composições fascinantes. As cenas da caça à baleia, filmadas no interior de um barco, são igualmente de tirar o fôlego.
No encontro do Instituto Cervantes, vamos conversar sobre isso e muito mais. Carlos Casas vai falar das diversas formas como vem apresentando a Trilogia End ao redor do mundo, inclusive em instalações. No Rio de Janeiro, ele já produziu com Batman Zavareze, diretor do Multiplicidade, o vídeo Rocinha – Daylight of a Favela.
Se quiser saber mais sobre Casas e ver alguns de seus trabalhos, use os links abaixo:
Site do artista
Carlos Casas no blog Multiplicidade
Videos de Carlos Casas no Vimeo
Filme da Patagonia
Filme do Aral
Os faróis de Vinícius Reis
novembro 23rd, 2011 § Deixe um comentário
“Paulo José e Dina Sfat se amando numa garagem ao som de “Essa garota é papo firme”, do Roberto Carlos, é uma cena que faz você desejar o cinema. Descobri a antropofagia em uma tarde de 1987, no Estação Botafogo!”
Isso é Vinícius Reis (A Cobra Fumou, Praça Saens Peña) falando de Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, um de seus filmes-faróis. Veja a lista completa no blog Faróis do Cinema.
Vida de antropólogo
novembro 21st, 2011 § 2 Comentários
Ao olho seco da teoria, biografia e filme etnográfico não têm muito em comum. A biografia é uma construção voltada para o tempo, uma ordenação mais ou menos cronológica de fatos da vida de alguém. Na imensa maioria das vezes, enfoca indivíduos isoladamente. O filme etnográfico, por sua vez, é coisa que se faz no espaço, na presença viva da câmera, no registro direto. Geralmente se interessa por grupos sociais e práticas culturais que transcendem o indivíduo.
É claro que, na prática, nada disso é rígido, dada a liberdade crescente no reino tanto das biografias quanto dos filmes etnográficos. Mas a discussão certamente vai passar por aí na mesa redonda que integrarei amanhã, na Mostra Internacional do Filme Etnográfico (terça, 18h, no Museu da República). Comigo estarão os cineastas Rolf Husmann, Nora Bateson e Joel Pizzini, além do diretor da mostra, José Inácio Parente.
A composição da mesa traz uma curiosa particularidade: os três cineastas estão exibindo na mostra perfis biográficos de antropólogos e/ou diretores ligados à antropologia visual. Husmann tratou de Asen Balikci, um expoente e inovador do filme etnográfico por décadas. Nora fez um retrato de seu pai, Gregory Bateson (1904-1980), grande pensador da antropolgia e da comunicação. Pizzini recolheu ecos da passagem do sueco Arne Sucksdorff pelo Pantanal matogrossense nos anos 1970. De alguma forma, meus três colegas de mesa enfrentaram o desafio de tratar da vida de alguém cujo trabalho foi sempre tratar de vidas alheias. Certamente vamos conversar sobre isso.
Um ponto de partida possível serão as diferenças de tratamento que encontramos nesses três filmes, marcadas pelas distintas relações entre cada realizador e seu personagem.
Dos três, The Professional Foreigner: Asen Balikci e a Antropologia Visual talvez seja o mais próximo de uma biografia tradicional. Com o veterano mas ainda vivo Asen Balikci, o diretor Rolf Husmann ocupa o lugar do colega de profissão e admirador. O filme se organiza, então, como uma série de encontros entre os dois nos diversos cenários em que Balikci viveu, filmou e ensinou a fazer filmes etnográficos. Em caminhadas e conversas por Istambul, Londres, Bulgária e nos Himalaias, Husmann entrevista Balikci sobre os diversos momentos de sua vida e carreira, assim como o interroga sobre questões específicas da antropologia visual. Temos, então, uma biografia quase sempre em primeira pessoa. Balikci mostra casas onde viveu ou trabalhou, descreve situações, reencontra um personagem de antigo filme seu e confessa que foi movido pela culpa e a vontade de retribuir que ele passou a instruir nativos na documentação de seus ambientes. Outra revelação interessante faz eco aos métodos de Flaherty em Nanook: Ao filmar os esquimós do norte do Canadá, na década de 1960, Balikci optou por reconstituir a caçada com caiaques que já tinha sido abandonada há tempos.
Nesse filme, o contato direto, o aspecto nômade, o tom de camaradagem e a curiosidade profissional de Rolf Husmann aproximam de certa forma a empreitada biográfica de um modelo de abordagem etnográfica. Veja o trailer.
Já o filme que Nora Bateson fez sobre seu pai, o multipensador Gregory Bateson (1904-1980), leva a circunstância familiar até ao slogan do cartaz: “A daughter’s portrait”. Nora assume diversas “funções” no filme: relembra os ensinamentos do pai desde sua infância, ajuda a explicar algumas ideias dele e ainda protagoniza pequenos ensaios ilustrativos chegados à videoarte. An Ecology of Mind lança mão ainda de gravações de palestras de Gregory, depoimentos de outros cientistas, animações e textos na tela. Poucos dados biográficos são espargidos aqui e ali, mas o foco está no pensamento do ex-marido de Margaret Mead. Ele explorou incansavelmente as fronteiras da nossa percepção a respeito do mundo. Ressaltou sempre que não existem definições estáticas para tudo o que se refere aos seres vivos, mas tão somente interrelações, interdependência, conexões e mudança incessante. No filme, palavras e imagens se juntam para clarificar conceitos como “a diferença que faz a diferença”, “duplo vínculo” e a própria expressão que dá título ao filme.
An Ecology of Mind é um esforço de compreensão de sistemas de pensamento complexos. Assim como Gregory Bateson fazia em suas palestras, usando desenhos e ilustrações prosaicas, Nora também tenta traduzir as ideias do pai para o campo das imagens. Apesar da trilha um tanto chill out, é um filme intelectualmente denso, que não cede às facilidades do elogio nem da celebração. Conheça o site oficial.
Por fim, o ensaio de Joel Pizzini sobre Arne Sucksdorff (1917-2001) recorre a expedientes de natureza mais poética que retórica. Em Elogio da Graça, ele evoca o trabalho do cineasta sueco no Mato Grosso através das lembranças de sua viúva brasileira, Maria da Graça Sucksdorff, que Arne conheceu quando preparava as filmagens da série Mundo à Parte, em 1970. Se essa série de História Natural (produzida pelo IBDF) incorporava seu próprio making of e tematizava a vida do casal, Elogio da Graça quer ser uma espécie de eco. Joel é outro cineasta que chega ao Pantanal e pede a Maria da Graça que não apenas conte a sua história, mas também repita gestos e olhares que foram plasmados quase 40 anos antes pela câmera de Arne. A montagem cuida de criar belíssimas conexões entre os dois tempos, como a frisar que ambos pertencem a um só fluxo, o do cinema.
Longe de ser um perfil do cineasta de Ritmos da Cidade, Fábula e vários filmes sobre o Brasil, Elogio da Graça pode ser visto como uma biografia mínima do casal Sucksdorff. Juntos, Arne e Graça geraram dois filhos, alguns filmes, um livro e uma memória que o Brasil ainda precisa conhecer melhor. Veja o trailer.
Viagens na garupa do cinema
novembro 19th, 2011 § Deixe um comentário
Pequenos comentários sobre alguns filmes vistos na 15ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico, que continua até quinta-feira no Museu da República:
O MANUSCRITO PERDIDO, de José Barahona
Cartas portuguesas. A correspondência está no cerne desse doc em co-produção luso-brasileira, exibido na noite de abertura da mostra. Tudo começou quando José Eduardo Agualusa publicou as cartas de Fradique Mendes, poeta e aventureiro português que andou pelo Brasil no século XIX e libertou seus escravos antes da abolição, contestando os padrões da época. O documentarista português José Barahona veio recentemente ao Brasil em busca de um certo manuscrito deixado por Fradique. Ele narra sua viagem em forma de carta a Agualusa, ao mesmo tempo em que resgata trechos da Carta de Pero Vaz de Caminha. De certa maneira, Barahona incorpora o viajante português de sempre, mas agora interessado em procurar aspectos atuais da herança colonizadora de seus conterrâneos, especialmente no capítulo das contradições.
O que ele recolhe, num trajeto pelo interior da Bahia e no Rio de Janeiro, é um pequeno tratado de antropologia popular. Feirantes, monges, índios, sem-terras dão sua versão sobre a História e a atualidade. Muita coisa ali é mais novidade para ouvidos portugueses do que para os nossos, mas ainda assim alguns personagens se destacam. Como Noêmia, uma sem-terra feliz e vaidosa que parece ter saído de um dos melhores momentos de Eduardo Coutinho. A busca do manuscrito é pouco mais que um efeito retórico. Mais valem as reflexões do caminho, sejam as de Barahona, sejam as de alguns de seus interlocutores.
MORADA, de Joana Oliveira
Doçura mineira. Esse filme é uma prova de que o comum pode perfeitamente não ser banal. Joana Oliveira encontrou na sua própria família o material de um primeiro longa. Durante 56 anos, sua avó esperou pela desapropriação de sua casa, em área de Belo Horizonte progressivamente devassada pela ampliação de uma grande avenida. Enquanto a demolição não chegava, o sobrado virou um misto de museu da família e depósito de quinquilharias. Joana filmou Dona Virgínia nos três últimos anos dessa longa espera. Mais que um retrato daquele tipo de avó que todos queríamos ter, ela fez uma meditação sobre os sentimentos que nos prendem e nos afastam de um determinado lugar.
Impossível determinar quanto Dona Virgínia rejeitava e quanto desejava a ideia de sair de sua longeva morada. Mas quando chega enfim a hora, a emoção atravessa a soleira da porta. Pela lente da relação carinhosa entre avó e neta passam observações sutis sobre a tradicional família mineira: a empregada de mil e uma utilidades, o espaço do canto e das comidas na vida das pessoas, a mania dos guardados. Apesar de alguns trechos um pouco alongados, uma doçura e uma sinceridade muito grandes atravessam a tela e nos encantam.
DJENEBA, de Bata Diallo
Passa segunda-feira, às 20h
Mulher maravilha. Numa pequena comunidade rural do Sul do Mali, Dejeneba é a típica mulher que assume o papel de chefe da família na estação das secas, enquanto o marido trabalha longe em busca de salário. Djeneba tem muito do que cuidar: da terra, do estudo dos filhos, da cozinha, da venda de sopa de cabeça de bode para ajudar nas finanças da casa. Através desse perfil intimista, a diretora malinesa Bata Diallo (que estuda na Noruega) descreve o funcionamento de toda a comunidade. Especialmente o destino das mulheres, que, depois de casadas, só saem do lugar com o marido ou com o divórcio. O velho Nono, enfraquecido e experiente, é uma espécie de reserva de consciência tradicional. A possibilidade de ruptura com aquela ordem é tão remota quanto a lua das noites claras.
Mesmo sem grandes descobertas ou revelações, o filme cumpre sua função etnográfica com certa graça e bons insights. Durante as filmagens, Djeneba se desincumbiu com louvor de uma tarefa a mais: conduzir conversas diante da câmera para plasmar o tom e as questões da vida na comunidade. Uma bela mulher, sem dúvida.
VER O PESO, de Gavin Andrews
Inventário burocrático. Já apreciei mais outros trabalhos desse diretor canadense radicado há oito anos no Norte brasileiro. Seu inventário de personagens e histórias do mercado Ver o Peso, de Belém, soa burocrático e repetitivo. A inclusão de tímidos depoimentos de antropólogas e uma funcionária do Iphan trai o caráter institucional do filme e falha em aprofundar os valores simbólicos e culturais apenas ventilados aqui e ali. O Ver o Peso passou por reformas sanitizadoras nos últimos tempos, mas parece não ter perdido o sabor que conheci há muitos anos. O roteiro errático e os problemas de exposição na fotografia é que não ajudam muito a contar essa história.
E alguns que eu já havia visto antes:
CINEMATÓGRAFO BRASILEIRO EM DRESDEN, de Eduardo Thielen e Stella Oswaldo Cruz Penido
Passa domingo, às 15h
Pérolas de arquivo. Há exatos 100 anos, três filmes científicos pioneiros foram exibidos com grande repercussão no Pavilhão Brasileiro da Exposição Internacional de Higiene de Dresden, Alemanha. O próprio Oswaldo Cruz os apresentou. Dois deles mostravam as medidas preventivas contra a febre amarela levadas a cabo na cidade do Rio de Janeiro (com cenas épicas de casas sendo cobertas com imensos lençóis para a fumigação). Outro exibia crianças portadoras do Mal de Chagas. Com um formato bastante clássico, o curta se destaca sobretudo pelo interesse histórico do material resgatado. Essas pérolas de arquivo são contextualizadas por depoimentos de especialistas.
BABÁS, de Consuelo Lins
Passa segunda-feira, às 18h
Um hábito colonial. Um curta já antológico, super-premiado, que parte de uma história pessoal para levantar a cortina de sobre o hábito colonial brasileiro de famílias brancas contratarem babás negras. Consuelo não disfarça uma certa influência de Santiago, de João Moreira Salles, o que só beneficia seu doc, meditativo e ao mesmo tempo incisivo.
WALACHAI, de Rejane Zilles
Passa quarta-feira, às 16h
Nos limites da identidade. Depois de fazer um curta a respeito de um velho imigrante que escrevia a história de sua região gaúcha em cadernos pautados, Rejane partiu para este longa sobre o Walachai. Ali se fala um dialeto já em desuso até na Alemanha, e o Brasil parece num dos limites de sua identidade. A diretora, nascida lá, tem a sensibilidade e o talento suficientes para nos fazer mergulhar naquele lugar.
SOLDADOS DA BORRACHA, de Cesar Garcia Lima
A História pela boca de quem viveu. Uma proposta simples, mas eficaz: encontrar antigos seringueiros da Amazônia que trabalharam no esforço para ajudar os aliados na II Guerra. Embora o tema não seja novo em documentários mais ou menos recentes, a força deste curta está em concentrar-se nos personagens e daí extrair seu carisma. São eles que dimensionam humanamente uma história cheia de aventuras, ilusões e decepções. Roteiro, edição e fotografia de ótima qualidade completam o serviço.
Seres híbridos em filme híbrido
novembro 18th, 2011 § 2 Comentários
Certos filmes me deixam num estado de perplexidade quando os vejo pela primeira vez. Saio com a certeza de que preciso revê-los, quando então tudo pode acontecer: da rejeição frontal à apreciação apaixonada, passando por todos os estágios intermediários. Foi o que aconteceu quando assisti pela primeira vez a O Céu Sobre os Ombros. Cheguei a comentar com o diretor Sérgio Borges: “Não sei o que pensar do seu filme, preciso ver de novo”. Pois bem, foi na segunda visita que percebi a profunda originalidade desse estranho objeto cinematográfico.
São três personagens que se alternam diante de nós, sem nenhuma relação entre si. Três núcleos dramáticos independentes. A uni-los apenas o fato de serem apresentados dentro de ônibus nas sequências iniciais e – mais importante – o fato de serem personagens plurais, que conciliam condições muito distintas na sua maneira de estar no mundo (ou no filme, pelo menos). Um deles trabalha numa padaria e num call center, é entusiasmado torcedor de futebol e devoto do Hare Krishna. Outro é um poeta imigrante de supostas tendências suicidas, que tem dificuldade para se integrar ao meio literário e cuida de um filho com características especiais. O terceiro é um travesti que se prostitui nas ruas de Belo Horizonte enquanto não está fazendo palestras sobre sexualidade, citando Foucault e Ovídio ou escrevendo requintadas cartas de amor para um amante imaginário.
Nada nos assegura o quanto de documentário ou de ficção existe em cada uma das situações vividas ou mencionadas por eles. Nas entrevistas e debates, o diretor dribla toda pergunta nesse sentido, fazendo questão de deixar a decisão de “acreditar” ou não para o foro íntimo de cada espectador. É justamente nessa ambiguidade que reside o encanto do filme, como em muitos de Abbas Kiarostami. Mas, ao contrário da maioria dos filmes de aspecto documental, Sérgio Borges usa uma linguagem muito peculiar para construir suas cenas. Nada é exposto ao “olho natural” do acaso. Tudo é composto com uma sucessão de fragmentos, a montagem deslocando nosso olhar frequentemente para detalhes inesperados. Da mesma forma, a câmera de Ivo Lopes Araújo (o Walter Carvalho do jovem cinema brasileiro) raramente aponta para o enquadramento esperado, a “melhor posição”. Há uma preferência por ângulos subsidiários, em que nem sempre o centro da atenção está no centro do quadro ou mesmo dentro dele, criando com isso uma espécie de expansão do campo visual e sonoro para além do que se vê na tela.
Ao mesmo tempo, há um naturalismo quase blasé nas atuações, uma espontaneidade que às vezes leva a cena aos limites da não-representação. A surpresa vem desse misto de naturalismo de enunciação e sofisticação de estilo. No entanto, há também uma luz tosca, cortes bruscos e secos, tudo contribuindo para a hibridez intrigante do filme. A banalidade é constantemente transcendida por uma poética que nasce da ambivalência fundamental daqueles seres meio marginais, meio improváveis, meio admiráveis em sua singularidade.
Tal é a força dos dois outros personagens que o jovem Hare Krishna fica em desvantagem, a ponto de alguns espectadores até o esquecerem ao final do filme (já percebi isso em dois deles). Quando sobem os créditos finais, a sensação de surpresa é inevitável, uma vez que nos é retirado todo o amparo dramatúrgico de um final. Mas se lembrarmos do início igualmente súbito e “despreparado”, vamos compreender que este não é um filme acabado no sentido convencional. Ele apenas nos franqueia um relance, uma visão passageira, na vida de três criaturas que não sabemos se existem, mas que são fortes na maneira única como nos é dado conhecê-las.
Buffet etnográfico
novembro 16th, 2011 § Deixe um comentário
O calendário de festivais de cinema no Rio ficou com uma lacuna irreparável no ano passado. Por dificuldades na busca de patrocínio, Patrícia Monte-Mór e José Inácio Parente não puderam realizar a Mostra Internacional do Filme Etnográfico. Este ano, felizmente, a mostra volta em sua 15ª edição com toda força e patrocínio da Eletrobrás, Secretaria de Cultura do Estado do RJ e Prefeitura/Riofilme. Na abertura hoje à noite para convidados, será exibida a co-produção luso-brasileira O Manuscrito Perdido, de José Barahona.
A partir de amanhã (quinta) e até o dia 24, o Museu da República vai abrigar exibições na sala de cinema, nos jardins e nas quatro cabines de visionamento. Nestas últimas, o espectador faz seu próprio programa com todos os filmes da mostra e mais a coleção completa do Etnodoc. Dos 350 filmes inscritos, a programação vai reunir mais de 100, realizados no Brasil e em outros 16 países. José Inácio Parente destaca não só a quantidade de trabalhos, mas a liberdade crescente na linguagem dos filmes, muitos dos quais se desprendem do modelo tradicional de entrevistas + material de arquivo.
Além do habitual Laboratório do Filme Etnográfico – este ano com Angela Torresan, professora brasileira da Universidade de Manchester/Granada Centre, já com inscrições encerradas –, haverá um fórum de debates envolvendo diretores brasileiros e estrangeiros com filmes na mostra. Vários desses filmes são perfis biográficos de antropólogos: An Ecology of Mind foi dirigido por Nora Bateson e versa sobre as ideias de seu pai, o antropólogo Gregory Bateson, casado com Margaret Mead; The Professional Foreigner: Asen Balikci and Visual Ethnography, de Rolf Husmann, discute o fazer do filme etnográfico a partir da trajetória de um de seus expoentes; Elogio da Graça, de Joel Pizzini, é um carinhoso retrato do cineasta Arne Sucksdorff a partir das lembranças de sua esposa brasileira, Maria da Graça Sucksdorff. É interessante notar que esse foco temático coincide com um momento do cinema brasileiro em que estão prestes a entrar em cartaz Paralelo 10, de Silvio Da-Rin (sobre o sertanista José Carlos Meirelles) e Xingu, de Cao Hamburger (ficção sobre os Irmãos Villas-Boas).
Eu vou mediar uma das mesas do fórum, sobre Biografia no Filme Etnográfico, com participações de Nora Bateson, Rolf Husmann e Joel Pizzini. Outras mesas terão os realizadores de As Hiper Mulheres e o francês Emmanuel Grimaud, cujos trabalhos de antropologia visual podem enfocar tanto o gestual dos cineastas de Bollywood como os movimentos de máquinas e robôs.
A mostra vai ser uma boa chance para quem ainda não viu filmes brasileiros recentemente elogiados e premiados. É o caso de Marcelo Yuka no Caminho das Setas, Angeli 24 Horas, Cinematógrafo Brasileiro em Dresden, Terra Deu Terra Come, Copa Vidigal, Babás, Avenida Brasília Formosa, Walachai, Terras, As Batidas do Samba, A Falta que me Faz, Acercadacana, Icandomblé, Soldados da Borracha e Formas do Afeto: Ensaio sobre Mário Pedrosa. Emilio Domingos vai estrear o seu Quando Xangô Apitar, mais um doc ambientado no inesgotável samba da Mangueira.
Entre os filmes internacionais, uma atração que reputo imperdível é Pink Saris, de Kim Longinotto. Folheando o catálogo on line, já agendei conhecer os seguintes: Awareness, o último rebento do inefável casal David e Judith MacDougall, de quem será exibido também o clássico Lorang’s Way; The Lover and the Beloved: a Journey into Tantra; Cooking up Dreams (sobre o papel social da gastronomia no Peru), Djeneba (retrato intimista de uma família do Mali) e Kings of the Beetles (uma competição de besouros-rinocerontes na Tailândia filmada pelo convidado Emmanuel Grimaud).
As homenagens do evento este ano se dirigem ao cineasta Adrian Cowell, que muito e bem filmou a Amazônia brasileira, e à escritora e pesquisadora Lélia Coelho Frota, uma grande amiga da Mostra.
Recine: o júri popular
novembro 15th, 2011 § Deixe um comentário
Envolvido que estava até o pescoço com os afazeres do júri oficial, deixei de publicar aqui os premiados pelo júri popular no Recine 2011, que terminou domingo passado. Peço desculpas pela omissão.
MELHOR LONGA PELO JÚRI POPULAR – Clementina de Jesus – Rainha Quelé, de Werinton Kermes
Não me agradou particularmente esta hagiografia da grande Clementina, que me pareceu convencional, redundante e superficial. Curiosamente, tem pouco de Clementina cantando, que é onde aparece de fato a sua força.
MELHOR CURTA PELO JÚRI POPULAR – Cinematógrafo Brasileiro em Dresden, de Eduardo Thielen e Stella Oswaldo Cruz Penido
Com um formato bastante clássico, o curta se destaca sobretudo pelo interesse histórico do material resgatado: três pequenos filmes apresentados por Oswaldo Cruz no Pavilhão Brasileiro da Exposição Internacional de Higiene de Dresden, na Alemanha, em 1911. Dois deles mostram as medidas preventivas contra a febre amarela levadas a cabo na cidade do Rio de Janeiro (com cenas épicas de casas sendo cobertas com imensos lençóis para a fumigação). Outro exibe crianças portadoras do Mal de Chagas num nível de “inocência documental” que só se justifica no campo do filme científico. Essas pérolas de arquivo são contextualizadas por depoimentos de especialistas. O filme vai passar na Mostra Internacional do Filme Etnográfico, esta semana no Rio.
Substantivo concreto
novembro 14th, 2011 § 1 Comentário
Nos primeiros minutos de Reidy, a Construção da Utopia, a gente tem a impressão (desanimadora) de que vai assistir a mais uma biografia ilustrada pelo audiovisual. Felizmente, isso é passageiro. Ana Maria Magalhães, sobrinha do personagem, usa as sequências iniciais para se desvencilhar rapidamente de alguns dados biográficos e passar logo ao que lhe interessa de fato: recensear as ideias de Affonso Eduardo Reidy sobre arquitetura e urbanismo, assim como investigar sua permanência hoje em dia.
Ao caminho do didatismo ou do biografismo puro e simples, Ana Maria preferiu o do debate de conceitos. A conversa principal – e alguma polarização – se dá entre o arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha e o francês Roland Castro. Rio de Janeiro e Paris (cidade natal de Reidy) servem de “campos” para projetar um pensamento contemporâneo sobre o desenho das cidades, a função social da arquitetura e o conteúdo (utópico?) de um urbanismo voltado mais para o bem-estar das pessoas do que para o apetite do mercado ou o desejo de controle do estado. Reidy, portanto, mais que um objeto em torno do qual o filme se fecha, é uma porta para discutir História, arte, técnica e perspectivas de um devir do homem na cidade.
A leitura de manuscritos de Reidy em primeira pessoa o inclui nessa conversa, fazendo a terceira ponta do triângulo de ouro. Enquanto as ideias fluem quase sem trégua, a câmera de Dib Lutfi passeia entre os pilares ou sobrevoa as principais obras do Rio de Reidy. Nesse aspecto, Ana Maria também optou pela concentração em quatro efemérides: os curvilíneos conjuntos habitacionais do Pedregulho (em São Cristóvão) e da Gávea, o Museu de Arte Moderna e o Parque do Flamengo. A engenheira Carmen Portinho, parceira de Reidy no Pedregulho e no MAM, ajuda a trazer lembranças históricas, ilustradas por um precioso material de arquivo sobre a derrubada do Morro do Castelo e a construção do Aterro.
Se a escolha de um formato próximo da palestra vai atender a uma demanda mais reflexiva e talvez frustrar alguma curiosidade biográfica, é em outro aspecto que localizo o maior problema do filme. Compreendo a intenção de fugir a uma ordenação mais óbvia das imagens, mas não creio que a montagem tenha sido a mais feliz. Há planos curtos demais para que se apreenda seu sentido. Como o material filmado privilegiou quase sempre o movimento, a concatenação de panorâmicas e zooms resulta muitas vezes brusca e incongruente, deixando de valorizar a elegância e a ousadia dos objetos arquitetônicos. Uma bela exceção é a sequência “musical” do MAM, quando fica evidente o prazer de um encontro harmonioso entre a câmera e as formas. Apesar do arrojo dos planos aéreos e dos deslocamentos terrestres, a qualidade final da imagem de vídeo na tela grande não faz jus ao padrão do grande Dib Lutfi, aqui em um de seus últimos trabalhos antes de se afastar por problemas de saúde.
Descontados esses senões técnicos, é preciso reconhecer a distinção dessa abordagem de uma figura célebre com elogios substantivos concretos, distantes da louvação oba-oba de outros filmes do gênero. Reidy foi eleito pelo júri o melhor documentário do Festival do Rio 2009. Cabe, aliás, destacar o sabor carioca trazido pela junção de paisagens, obras e música. Eu jamais pensei que sairia assobiando de um doc sobre arquitetura.
Visite o blog do filme.
Premiados do Recine 2011
novembro 12th, 2011 § 9 Comentários
Não foi um chá-das-cinco a reunião final do júri da mostra competitiva do Recine 2011. Houve muito debate e algumas divergências frontais antes de chegarmos a uma lista de premiados que atendesse às distintas exigências dos componentes (Eduardo Escorel, Lúcia Murat, Mauricio Lissovsky, Vladimir Carvalho e eu). Mas, no fim das contas, essas escolhas espelham bem a diversidade de abordagens, dispositivos narrativos e modos de utilização de materiais de arquivo que encontramos no conjunto dos filmes.
MELHOR LONGA-METRAGEM – No Lixo do Canal 4, de Yanko del Pino
O filme compila de maneira criativa o acervo da TV Iguaçu, do Paraná, nos anos 1970, que por pouco não foi jogado no lixo. Exemplifica como um acervo do gênero pode ser apresentado sem linearidade ou didatismo, mas antes usando o material para compor um ensaio sobre memória e esquecimento, seleção e descarte. O turbilhão de imagens ganha uma leitura metafórica, às vezes irônica, mas sempre inteligente. Um belo roteiro, uma montagem arrojada e uma concepção sonora também interessante formaram um conjunto de qualidades que justificam o prêmio de melhor longa.
MELHOR CURTA-METRAGEM e MELHOR ROTEIRO – Formas do Afeto – Ensaio sobre Mário Pedrosa, de Nina Galanternick
Enfocando Lygia Clark em igual ou maior escala que o próprio Mário Pedrosa, este curta trabalha poeticamente velhos filmes de arte, fotos e cartas. É um filme delicado e incompleto, mas que encantou alguns jurados.
MELHOR DIREÇÃO DE LONGA – Carlos Adriano, por Santos Dumont: Pré-Cineasta?
Pensando a própria condição da “imagem encontrada” (found footage) no cinema, Carlos Adriano reuniu descoberta, reflexão, teoria, prática e tributo pessoal num filme singular, como aliás todos os seus. Leia aqui minha resenha já publicada.
MELHOR DIREÇÃO DE CURTA e MELHOR EDIÇÃO – Beth Formaggini e Joana Collier/Thaís Blank, por Angeli 24 Horas
Um curta que já se impõe nas antologias sobre artes visuais no Brasil. O trabalho do cartunista Angeli é visto pelo prisma pessoal do artista, pelo ângulo da cidade que o inspira e por uma diretora disposta a captar a essência do seu objeto. Leia aqui minha resenha.

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI – La Febbre del Fare (A Febre do Fazer), longa de Michele Melara e Alessandro Rossi
Este concorrente italiano se destacou pelo apetite de arquivo e a forma como organiza uma história das esquerdas na cidade de Bolonha entre 1945 e 1980. O prêmio vale também como um cumprimento à Cinemateca de Bolonha, uma das mais ativas na preservação e restauração de materiais cinematográficos.
MELHOR PESQUISA – Hollywood no Cerrado, longa de Armando Bulcão e Tania Montoro – pesquisa e roteiro de Paulo Bertram, Nena Leonardi, Victor Leonardi, Thereza Negrão, Márcia Tinholim, Jairo Alves Leite
A história da “vida brasileira” das atrizes americanas Janet Gaynor, Mary Martin e Joan Lowell serve de mote para os diretores examinarem a chegada da modernidade em Goiás, o mito da Terra Prometida nos trópicos e ainda fazerem um divertido paralelo entre o Velho Oeste deles e o nosso Centro-Oeste. Um raro exemplar de doc-comédia, um tanto exagerado no uso de efeitos de edição, mas que apresenta uma pesquisa de fato impressionante.
MELHOR CONCEPÇÃO SONORA – Programa Casé, longa de Estevão Ciavatta
Numa das categorias mais discutidas no júri, o prêmio ficou para o peso do áudio no filme sobre o radialista Ademar Casé. O doc traz boas soluções nesse setor, ainda que o tema as faça parecer meramente funcionais. Aqui está minha resenha.
MELHOR CONTRIBUIÇÃO À LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA – Santoscópio = Dumontagem, curta de Carlos Adriano
Neste curta experimental, Adriano sintetiza os temas do seu longa sobre Santos Dumont usando a manipulação extensiva do pequeno filme de mutoscópio que trouxe à luz. As ideias formais do caleidoscópio, do voo, do giro e do movimento, tematizadas intelectualmente no longa, aqui ressurgem materializadas na edição do fragmento essencial. Um filme inspirador sobre o mergulho nas potencialidades estéticas e semânticas de um material de arquivo.
MENÇÃO HONROSA PELA ORIGINALIDADE – Vó Maria, curta de Tomás von der Osten
Uma única foto e três depoimentos em off tentam recompor a imagem de uma mulher do passado. A simplicidade deste curta é enganosa, pois a composição progressiva da imagem de Vó Maria contrapõe-se a um esmaecimento gradual das reminiscências humanas de três gerações a respeito dela. O efeito é intrigante e revelador quanto aos mecanismos de retenção e exposição da memória.
MELHOR FILME DA OFICINA – Coturnos e Bicicletas, da “Equipe Nelson Pereira dos Santos” (Bárbara Morais, Julia Barreto, Lívia Uchôa, Luisa Pitanga e Rodrigo Dutra)
Entre os 10 curtas produzidos pelos alunos da oficina de Luiz Carlos Lacerda, todos voltados para o lema “Dov’è l’Italia?”, este se destacou pela força do argumento e o empenho da realização. Num paralelo vertiginoso entre o neorrealismo italiano e o cinema brasileiro, a ditadura militar e a Itália de Mussolini, História e atualidade, coturnos e bicicletas se articulam numa pequena trama urbana (ficcional) cheia de ressonâncias bem calibradas. Enquanto comentário sobre o próprio tema do festival (a Itália e o cinema brasileiro), nada pareceu mais adequado e eficaz.
Caminhos de Selton
novembro 10th, 2011 § 3 Comentários
Pensando aqui com meus botões: o que levou Selton Mello a dirigir dois filmes tão diferentes como Feliz Natal e O Palhaço? Indagando aos meus botões: o que fez Feliz Natal fechar carreira com minguados 28.759 espectadores, enquanto O Palhaço vai rompendo a faixa dos 600.000 em sua segunda semana de exibição? Especulando com meus botões: o que acontece quando um artista procura afastar-se de si mesmo e quando retorna a si mesmo?
Não li nenhuma entrevista de Selton falando sobre essas questões. Estou refletindo por minha conta e tentando criar um entendimento comigo mesmo. Lembro que Selton andou questionando-se, há poucos anos, sobre a persona que estava criando no cinema e a frequência com que vinha aparecendo nas telas. Chegou a passar um tempo recluso. Quando dirigiu Feliz Natal, certamente procurou um tema e um tom que nada tivessem a ver com a imagem de garoto meio esperto, meio bobo, com que o público o identificava. Algo que ficasse a léguas de distância de Chicós, Leléus e Johnnys.
Pois bem, Feliz Natal era um antípoda disso tudo. Lúgubre, áspero, angustiado, tratava de um acerto de contas pessoal e familiar em chave de drama pesado. Em matéria de estilo, buscava uma aproximação com o cinema de arte dos anos 2000, especialmente O Pântano, de Lucrécia Martel, e Lavoura Arcaica, no qual atuou esplendidamente, mas em padrão distinto do habitual. Selton não participava do elenco, o que era uma forma explícita de afastar-se de si próprio. Almejava talvez reinventar-se como cineasta “sério” e artisticamente ambicioso. O filme agradou a muitos críticos (eu fui exceção), mas não dialogou nem com o público de Selton, nem com o do filme de arte.
Não chego a afirmar que O Palhaço seja uma correção de rumo na carreira do cineasta. Mas é evidente que o caminho do novo filme passa por paisagens radicalmente distintas. A começar pela presença do Selton ator, voltando ao tipo de personagem que inicialmente o consagrou: o meninão meio caipira, meio desengonçado e sonso, mas cheio de carisma. Depois, pelo ambiente rural ou provinciano, conivente com uma proposta de espetáculo mais popular, assim como o circo. A ideia de um grupo em dissolução (a família disfuncional) é trocada pela de sobrevivência e renovação do grupo (a família circense). A comédia básica e a amabilidade entre os personagens substituem o drama depressivo e as relações ríspidas. Veteranos astros da comédia popular tomam o lugar de um elenco “cult”. A palheta de cores é mais colorida e quente. A música varia entre o nino-rotiano e o brega brasileirinho.
O Palhaço sugere uma volta de Selton Mello a um lugar conhecido e aquecido. De alguma forma, um regresso a si mesmo – ou ao que dele se espera. Não faltam pequenas ousadias nem pequenas concessões em mais esse conto do palhaço triste. Embalado agora por uma reconciliação do diretor com o público, quem sabe Selton poderá caminhar para o que realmente quer fazer por trás das câmeras. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, quero crer que o meninão ainda vai fazer o seu grande filme muito em breve.
(Obrigado, Pedro Butcher e Filme B)
Nostra Itália
novembro 7th, 2011 § Deixe um comentário
Começa hoje (segunda) à noite no Arquivo Nacional a densa programação do Recine – Festival Internacional de Cinema de Arquivo (veja o site). Em sua décima edição, o Recine festeja as relações cinematográficas entre Brasil e Itália. Por conta disso haverá uma retrospectiva com quase 200 filmes (brasileiros e italianos), um ciclo de debates e o lançamento de uma revista temática. E ainda a mostra competitiva para filmes recentes que tenham utilização considerável de material de arquivo. Da competição participam também os dez curtas realizados pelos alunos da oficina ministrada por Luiz Carlos Lacerda, todos motivados pelo lema “Dov’è l’Italia?”. O júri será integrado por Lucia Murat, Eduardo Escorel, Vladimir Carvalho, Mauricio Lissovsky e eu.
Como jurado, vou deixar para me manifestar mais tarde sobre os filmes da competição. Por ora, e a propósito do tema desta edição, cabe lembrar que os italianos tiveram grande influência no cinema brasileiro em três momentos. O primeiro foi o primeiro mesmo, quando imigrantes envolvidos com o comércio de entretenimento dominaram a implantação do cinema no país. Os Irmãos Segreto continuam reverenciados como pioneiros na filmagem em terras brasileiras. Depois vieram produtores/realizadores como Vittorio Capellaro (autor das primeiras adaptações literárias no Brasil), Paolo Benedetti, Gilberto Rossi (pioneiro dos cinejornais)e Pedro Comelo (que montou um laboratório em Cataguases e favoreceu o surgimento de Humberto Mauro).
Um segundo momento dessa liga Brasil-Itália se deu à época de ouro dos estúdios paulistas, nos anos 1940. A Vera Cruz de Zampari e dos Matarazzo importou diversos realizadores e técnicos com o objetivo de dar um upgrade na qualidade do filme brasileiro. Entre eles, Adolfo Celli, Luciano Salce, Ruggero Jacobi, Flaminio Bollini Cerri e Ugo Lombardi. Na mesma época, Mario Civelli veio ao Brasil e por aqui ficou, fundando a produtora Maristela.
A onda mais recente rolou entre os anos 1950 e 60. As influências neorrealistas de Rosselini, De Sica e Zavattini mexeram com a cabeça dos cineastas brasileiros e geraram clássicos como Rio 40 Graus e O Grande Momento. Pouco depois, diretores como Paulo César Saraceni, Gustavo Dahl, Trigueirinho Neto e Glauber Rocha estudaram no Centro Sperimentale della Cinematografia, em Roma, e formaram uma rede de amizade e colaboração com Bertolucci, Bellocchio, Gianni Amico e críticos italianos.
Leia mais sobre o assunto no depoimento do pesquisador Jurandyr Noronha, colhido por Clóvis Molinari para o site do Recine.
Ultimamente, as relações entre os dois países na área do audiovisual são muito tênues. O próprio cinema italiano está longe de ocupar o espaço cultural que teve em décadas passadas. Os laços se diluíram bastante. Desde os anos 1970 existe um acordo de co-produção entre os dois países, renegociado em 2008. Por conta disso, houve algumas co-produções como Estômago, do brasileiro Marcos Jorge, Birdwatchers, do italiano Marco Bechis, e haverá o próximo filme de Vicente Ferraz, A Montanha, que terá participações de Brasil, Itália e Portugal. De resto, ficamos com as telenovelas italianadas como Terra Nostra e pouco mais.
Numa chave mais festiva que de fomento, os governos brasileiro e italiano estão empenhados em estreitar os laços entre os dois países através do Momento Itália-Brasil, uma série de mais de 200 eventos previstos para ocorrer até junho do ano que vem em 11 cidades brasileiras. O calendário inclui exposições, espetáculos de teatro e dança, shows musicais e mostras de cinema. O Recine 2011, por exemplo.
Águas de Mauro
novembro 6th, 2011 § 6 Comentários
Para deixar na memória aqui do blog, publico a paródia de Águas de Março que fiz para a coluna “O Que é Cinema Brasileiro” da Revista Zingu!. Nesta versão, fiz duas ou três pequenas alterações. É para ser cantada com a melodia e a métrica da canção de Tom Jobim.
É sol, é terra, é o Glauber falando
É o dinheiro pouco, é o Dib filmando
É o riso da Leila, é a praia, é o sal
É a noite, o espantalho, Aruanda, Arraial
É a velha a fiar, é a terra estrangeira
Uirá, Candeias, é o Nelson Pereira
É A Ostra e o Vento, Denoy de Oliveira
É O Segredo da Múmia e também Grande Feira
É o Limite do Mário, é o Tarcísio Meira
É a Ganga, é O Grão, é o Tonico Pereira
É a Carmen posando, Edgard caprichando
Nas águas de Mauro, é Oscarito brincando
É Otelo, é Lewgoy, é a chanchada matreira
Camerinha na mão, filme na cachoeira
É A Grande Cidade, é Cidade de Deus
É o Cabra Marcado, é Fernanda, é Matheus
É o Bandido Rogério, é o Anjo Bressane
A mão do Barreto, Total ou Gullane
É um Grito, é uma Greve, é uma luta, é um luto
É a Jordana editando, é o Cosme e o charuto
É a Tropa, é trepada, é a Dira atuando
É o palhaço Didi, é Eliana cantando
É a Ilha das Flores, é o Porto das Caixas
É a garrafa de cana, Estrada da Cachaça
É o projeto no pitching, é a luz na favela
É a equipe formada, é a tela, é a tela
Força nesse edital, verba da Petrobras
Fundo setorial, quem dá mais, quem dá mais?
São as águas de Mauro inundando o sertão
É Pereio comendo a Dama do Lotação
É um saci, Curumim, é Bigode, é Lulu
É a Bete Balanço, Cacá, Lerfa Mu
São as águas de Mauro inundando o sertão
É a gentil Dona Flor semeando tesão
É sol, é terra, é O Fim do sem Fim
É o close na Xuxa, é o Satã do Karim
É um padre, é uma moça, é um Bravo Guerreiro
É O Canto do Mar, é o punhal cangaceiro
São as águas de Mauro inundando o sertão
É o céu se abrindo pro Moleque Tião
sol, terra, fim, carrinho
corta, monta, lança, jeitinho
Cao, Walter, Tata, Joel,
Manga, Silvio, Brant, Escorel
São as águas de Mauro inundando o sertão
É Iracema posando no meu coração
Corpo sem alma
novembro 4th, 2011 § Deixe um comentário
(Texto publicado originalmente durante o Festival do Rio)
A Pele que Habito me dá a nítida impressão de que Almodóvar realmente mudou de pele com o passar dos anos. Depois da fase transgressora e “suja” dos anos 1980, a partir de Carne Trêmula ele se transmutou num elegante contador de histórias absurdas, mas ainda trabalhando o kitsch do melodrama a seu favor. Ultimamente, daquilo tudo parece ter ficado apenas um formalismo cada vez mais pomposo, enquanto o kitsch passa a controlar o diretor, ao invés do contrário.
Vejo Almodóvar como o cirurgião plástico vivido por Antonio Banderas. Preocupado sobretudo com a excelência das formas, acaba perdendo o pulso do que vai na psique de sua criatura. Na maior parte das cenas, tive a impressão de estar vendo uma série de anúncios publicitários longinquamente inspirados em Almodóvar. A exceção é quando a ênfase no requinte formal dá lugar à franca vulgaridade, como em todas as estranhas referências ao Brasil e à língua portuguesa.
Quanto à trama, prefiro não me estender, deixando para o espectador (e meus colegas críticos) a tarefa de deslindá-la. Só não posso concordar com quem já enxergou profundidades filosóficas a respeito de identidade, gênero e reinvenção do amor. Nem me venham falar de Hitchcock ou Mary Shelley. Para mim, aquilo é apenas a paródia de velhos filmes B a Z, que misturavam na mesma coqueteleira barata a ficção científica, o terror e o romance truncado. Basta levantar um pouco a pele bem iluminada e maquiada do filme para ver o corpo cansado de um cineasta que não tem conseguido provocar entusiasmo.
Os faróis de Ricardo Miranda
novembro 3rd, 2011 § Deixe um comentário
“Uma das tarefas é achar imagens que não bloqueiem a imaginação do espectador”. Jean-Marie Straub citado por Ricardo Miranda a propósito de um de seus filmes-faróis.
Veja as 10 escolhas de Ricardo no blog Faróis do Cinema.
O homem diluído na História
novembro 1st, 2011 § Deixe um comentário
(Parte de um texto publicado por ocasião do Festival É Tudo Verdade)
Tancredo, a Travessia é mais um dos tours-de-force de Silvio Tendler na área da recompilação histórica baseada em vasta coleta de material de arquivo, depoimentos um tanto oficiais e um texto de narração onisciente – tudo organizado segundo uma estrita cronologia linear. O didatismo, apreciado por uns e execrado por outros, cobra um preço alto quando faz todas as particularidades se diluírem em benefício de um relato genérico e excessivamente codificado. Sem contar que o texto da narração não tem a mesma qualidade de sugestão e envolvimento dos filmes sobre JK e Jango.
Durante mais da metade inicial, Tancredo Neves parece confinado ao papel de “figurante com fala” na roda viva da política nacional. Mesmo que tivesse sido assim mesmo, parece-me lícito esperar de uma biografia que vá buscar, em cada momento e contexto, onde o personagem foi protagonista. O doc informa muito pouco sobre sua ascensão na política mineira e a formação de sua personalidade conciliadora e aparentemente bonachona. Somente quando ele é guindado à condição de candidato à presidência, ocupando o centro das atenções do país, é que Tancredo de fato ocupa o centro do filme. Em lugar de procurar o grande no pequeno, Tendler espera o grande ficar grande para organizar nossa atenção em torno dele.
O desejo sempre presente de montar painéis históricos o leva a abrir generosos espaços para eventos grandiosos sem ressaltar na mesma proporção aquilo em que Tancredo contribuiu ou participou. O episódio das Diretas-Já é um exemplo de concessão à emoção política e perda de objetividade – a ponto de incluir um depoimento totalmente descontextualizado de Maitê Proença.
É claro que sempre há boas declarações e boas histórias em torno dos conchavos, das atitudes e das posições de Tancredo. A razão de ele não ter sido cassado por Castelo Branco é uma delas. A eleição no Colégio Eleitoral em 1985, o choque da doença e a morte são os episódios de narrativa mais sólida, embora nada se mencione das teorias conspiratórias que surgiram na época a respeito de um possível atentado político. Mas o que mais senti falta foi de uma interpretação menos superficial do que Tancredo representou para o país, em sua longa carreira de eminência parda e personificação de uma certa mediania bem brasileira.






