Colectiv + AmarElo + Soul

Notas sobre COLECTIV, AmarElo – É TUDO PRA ONTEM e SOUL – UMA AVENTURA COM ALMA

Collective' Review: Romanian Exposé Has Universal Resonance - Variety

Só agora pude assistir ao romeno Colectiv, vencedor da competição internacional do É Tudo Verdade e mais um documentário a ser indicado por seu país para disputar a indicação ao Oscar de filme internacional (como o Brasil, com Babenco). A partir de um incidente similar ao incêndio da boate Kiss numa casa de shows de Bucareste em 2015, Colectiv investiga uma rede de corrupção no sistema de saúde que pode ter levado milhares de pacientes à morte por infecção hospitalar nos anos precedentes.

A rigor, o filme não investiga, mas sim acompanha o trabalho de um jornal esportivo de Bucareste na perseverante apuração das suspeitas e dos fatos. Por coincidência, está em cartaz agora no streaming o doc brasileiro Sem Descanso, que enfoca a cobertura pertinaz de um crime policial pelo jornal baiano Correio. O romeno Alexander Nanau monta um aparato documental altamente eficiente para seguir os passos do jornalista Catalin Tolontan. A campanha do jornal mobiliza a opinião pública a ponto de levar o Ministro da Saúde a renunciar do cargo.

A partir daí, o filme muda de eixo e passa a observar de perto as ações do novo ministro, um homem decente, adepto da transparência (a ponto de deixar o filme registrar os trâmites do seu gabinete no melhor estilo do cinema direto), mas impotente para enfrentar a burocracia jurídica, a máfia da indústria farmacêutica e as pressões políticas exercidas sobre a administração dos hospitais. Colectiv parece dizer que, em certas circunstâncias, a imprensa pode ter mais poder que o Executivo.


Theatro Municipal cancela atividades e IMS restringe número de visitantes - 13/03/2020 - Ilustrada - Folha

Até algum tempo atrás, o filme-show-manifesto AmarElo – É Tudo pra Ontem teria sido lançado direto em DVD, como tantos pilotados por astros da música brasileira. Com a hegemonia do streaming, coube à Netflix ancorar o bonito trabalho de Emicida e transformá-lo no buzz do momento. O show de novembro de 2019 no Teatro Municipal de São Paulo foi imbuído de valor histórico. Foi nas escadarias daquele templo da arte branca que nasceu o Movimento Negro Unificado, em 1978. Emicida escolheu o lugar para uma tomada simbólica de território. Queria ocupar um ambiente que foi costumeiramente negado ao povo de pele escura.

O filme amplia o sentido do show mediante uma narração do próprio artista, em que ele inventaria os pontos de afirmação da cultura negra no Brasil – e especialmente em São Paulo – com destaque para o samba, apresentado como uma das raízes do hip hop à brasileira. Nesse tributo figuram desde “Tebas” (Joaquim Pinto de Oliveira), o ex-escravo e arquiteto que deixou sua marca na capital paulista, a Marielle Franco, passando por Pixinguinha, Ismael Silva, Candeia, Abdias Nascimento, Lélia Gonzalez, Leci Brandão, Ruth de Souza e Wilson Simonal (em quem Emicida passa o pano).

A rocinha doméstica que ele mantém em casa serve como metáfora para a mensagem central: é preciso plantar e regar para colher. Mas esse não é o único recado. “Tudo o que nóis tem é nóis”, insiste o artista-pregador. E, como diz numa música: “A vida é partir, voltar e repartir”. Tudo isso é externado num misto de vaidade e indignação que são a marca do cara. Sempre com o galhinho de arruda atrás da orelha, Emicida sabe usar sua fama e influência para defender as pautas inclusivas de raça, classe e gênero. Suas letras são densas e originais. A música é rica e os arranjos, sofisticados

AmarElo, o filme, tem substância e potência, apesar da estrutura um tanto errática. Quanto ao show, pelo que as câmeras captaram, foi assistido por uma plateia composta basicamente por diferentes matizes da elite cultural paulistana. Ao que parece, a galera da quebrada viu tudo pelo telão do lado de fora.

Amar Elo está na Netflix


Estreia do Disney+, Soul traz primeiro protagonista negro da Pixar em narrativa existencial | Viver: Diario de Pernambuco

Soul dá saudade do tempo em que as animações contavam histórias de maneira mais simples e direta, sem apelar para tantas torções espaciais, temporais e existenciais. E sem recorrer a uma dialogação ininterrupta que satura o cérebro e os ouvidos. Lembro-me aqui de Divertida Mente.

O novo filme da Disney-Pixar, dirigido por Pete Docter e Kemp Powers, me encantou sobretudo na dimensão terrena, onde vemos o solitário e frustrado músico Joe Gardner sonhar com o palco enquanto apenas dá aulas como professor não titular de música. A concepção visual e sonora é cativante, riquíssima em detalhes, cheia de uma graça que não se repete nas outras dimensões.

Um súbito acidente de rua leva Joe para um estado de inconsciência, no qual ele visita o “Grande Além”, onde tenta desesperadamente recuperar a vida, e em seguida o “Grande Antes”, paraíso das almas que ainda se preparam para ganhar corpo e existência. O que reina aí é uma grande confusão de portais, mentores, almas perdidas e “nobodies”, com um vai e vem não muito coerente entre o mundo concreto e esses domínios imateriais. Tagarela-se, grita-se, corre-se, rola-se, no padrão um tanto histérico que as animações americanas adotaram de uns anos para cá. O desenho assume aqui as formas etéreas e têm apelo muito menor, apesar de uma aparente inspiração em Miró na figura dos conselheiros.

Quando os avatares de Joe e de sua pupila “22” caem na Terra em corpos trocados (ele num gato e ela no corpo de Joe), o filme se reanima em humor e poder sugestivo. Mesmo aí, o fato de ninguém notar a voz feminina em Joe soa como mais uma incongruência do roteiro. O que resta é a indefectível mensagem à la Frank Capra de que todos têm um propósito na vida e que é preciso saber apreciar as coisas simples do mundo. A veiculação é confusa, sem muita lógica nem inspiração especial, mas ainda assim o filme respira na saborosa figuração de uma Nova York idealizada ao rimto do soul e do free jazz. E marca o primeiro filme da Pixar baseado num protagonista negro. De alma azul.

Soul está na plataforma Disney Plus

3 comentários sobre “Colectiv + AmarElo + Soul

  1. Pingback: Entre lobos e homens | carmattos

  2. Tuna darling, que coisa boa encontrar aqui essas palavras de tanto afeto e encorajamento. Sua luz brilha em vários cenários, e eu sou um felizardo por compartilhar alguns deles. Te desejo um 2021 cheio de saúde, alegria e realizações. Uma das primeiras coisas que quero fazer quando passar esse pesadelo é poder te dar um abraço de verdade. Por enquanto, vai meu beijo virtual e todo o axé desse mundo.

  3. Carlinhos querido muita saúde pra vc e toda a família um 2021 mais delicado e amoroso .Posso dizer que não sucumbi a 2020 e isso significa não se amargurar também, por inúmeras atividades diárias vou enumerar algumas porque me perguntam como transformei as limitações em ação, leituras teatrais online, até um curta metragem à distância( Why don’t you come out to play dirigido pela Júlia Katharine q entrou em Tiradentes!),uma websérie, ensaios de teatro via zoom, filmes, mostras, “lives”, o canal do Youtube Revelando Shakespeare com amigos maravilhosos, projeto de encontros de casa de artistas com alunos de Artes Cênicas da Fac de Belas Artes, seguir falando de Cinema nas rêdes, outras coisas que eu poderia enumerar e tudo nos exigiu a todos força e paciência, mas uma delas certamente por seguir teu blog, ler tuas críticas, resenhas, considerações tão criteriosas, fazer parte da série de fotos que você carinhosamente publicou no início desse desafio planetário, acompanhar o que sem saber, assistíamos juntos e descobrir no blog mais sobre tua percepção e sensibilidade artística.Obrigada pela presença e o carinho de sempre nas redes esperando que em breve retomemos nossas cabines e abraços coletivos.Grande beijo pra você e tua querida família.

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