Acordei hoje sob o abalo da notícia da morte do meu amigo Toni Venturi. Uma morte súbita, inexplicável. Ele nadava numa praia do litoral de São Paulo quando passou mal e não resistiu. Tinha apenas 68 anos. Ainda não sei mais detalhes, mas foi o suficiente para me deixar sem chão.
Toni era um ser humano caloroso, traço que transbordava na voz, nos gestos e na afabilidade. Ali estava alguém com quem eu contava para compartilhar o amor pelo cinema e pelas boas causas. Seu engajamento em favor da democracia e das pautas progressistas também nos unia. Meus encontros com ele e com sua linda esposa, a esplêndida atriz Débora Duboc, eram sempre amorosos e entusiasmados. Faziam um casal especial, ligados pela arte e por um afeto profundo.
Já éramos amigos quando fomos parceiros na série de programas Tirando do Baú, do Canal Brasil, em 2008. Toni assinava a direção geral, Jorge Furtado era o apresentador e eu fazia comentários críticos a respeito de filmes clássicos brasileiros. Rascunhamos outros projetos juntos, que infelizmente não saíram do papel.
Documentários brasileiríssimos
O cinema de Toni Venturi era tão afetuoso quanto ele. Logo com seu primeiro longa, venceu a competição brasileira do É Tudo Verdade. Era O Velho: A História de Luís Carlos Prestes, documentário definitivo sobre o líder comunista. A trajetória de vida do Cavaleiro da Esperança é revista desde o movimento tenentista, quando se deu o surgimento do mito nos idos de 1920, até sua participação na redemocratização do país. A abertura dos arquivos de Moscou lançou luz sobre fatos da nossa História que sempre estiveram envoltos nas brumas da dúvida e do desconhecimento. Leia aqui uma resenha do filme que publiquei no DVD da Programadora Brasil.
A questão da moradia em São Paulo ganhou de Venturi um documentário movido pelo engajamento e a solidariedade. Dia de Festa (2006), dirigido juntamente com Pablo Georgieff, acompanha os dias que antecederam e sucederam as sete ocupações simultâneas de prédios abandonados ocorridas em outubro de 2004 em São Paulo. São cenas de uma cidade em guerra, ocupada pela polícia e vista através do olhar sensível de quatro mulheres negras, coordenadoras do MSTC, movimento dos Sem-Teto.
Ainda no campo dos documentários, o cineasta se voltou para o seu próprio passado em Vocacional, uma Aventura Humana (2011). Como ex-aluno do Ginásio Vocacional Oswaldo Aranha, ele reconta a história dessa experiência revolucionária no ensino em São Paulo. Confira minha resenha do filme. Já em Rita Cadillac, a Lady do Povo, Venturi fez um retrato afetuoso e respeitoso da chacrete mais popular do Brasil. Aqui uma pequena nota sobre o doc.
O documentário No Olho do Furacão, realizado com Renato Tapajós sobre a vida privada dos guerrilheiros ativos durante a ditadura, serviu como preparação para a ficção Cabra-cega.
Mais recentemente ele lançou Dentro da Minha Pele, realizado em conjunto com a socióloga Val Gomes. O documentário investiga em profundidade o racismo estrutural brasileiro através de três eixos: as experiências vividas, o pensamento articulado e a arte produzida por negros. Trata, ainda, do lugar de um diretor branco como ele perante o assunto. Leia mais sobre o filme. A parceria com Val Gomes se estendeu para a Coleção Antirracista, série de oito episódios curtos que ele produziu e ela dirigiu.
No âmbito das séries documentais, Toni ainda dirigiu Cena Inquieta, 26 programas sobre teatro de grupo periférico. A série faz a cartografia de uma produção cultural e artística que muitos não conhecem, num total de 48 grupos e 10 espetáculos independentes de cinco estados brasileiros. Para a televisão, dirigiu documentários sobre Paulo Freire e o superatleta João Gonçalves Filho.
Toni na ficção
A ficção de Toni Venturi costuma apresentar dramaturgia sofisticada, capricho técnico e uma mão certeira na direção de atores. Débora Duboc é presença frequente com sua capacidade de elevar as personagens a dimensões ao mesmo tempo humanas e épicas. Latitude Zero, que participou da seleção oficial dos festivais de Berlim e Toronto em 2001, traz Débora e Claudio Jaborandy numa história de amor visceral ambientada no coração do Mato Grosso. O filme chama atenção pela intensidade do huis clos e pela extraordinária performance da atriz, premiada em festivais de Kiev e Miami.
Outro filme passado em espaço restrito é Cabra-cega (2004). A vivência da clandestinidade é mostrada pela perspectiva de uma história de amor entre Tiago (Leonardo Medeiros), ex-líder estudantil que optou pela luta armada, e Rosa (Débora Duboc), enfermeira e filha de operário comunista do interior de São Paulo. O filme revela um país amordaçado, vivendo um período de censura, imposições e provações. Cabra-cega levou os prêmios de melhor direção, ator, roteiro, direção de arte e filme do júri popular no Festival de Brasília.
O drama Estamos Juntos (2011) é estrelado por Leandra Leal, Cauã Raymond, Lee Taylor, Dira Paes e Débora Duboc, além do ator argentino Nazareno Casero. O filme se apresenta como “um passeio pelo universo do acaso, que reinventa e desdobra as possibilidades da vida”. Para a jovem médica-residente Carmen, o mundo começava a moldar-se conforme seus planos. Uma vida independente na agitada São Paulo, ao lado de seu amigo gay DJ, uma aventura amorosa com um impetuoso músico argentino e uma relação de intimidade com um homem enigmático. A aparição de sintomas de uma doença grave faz a vida de Carmem se transformar para sempre.
O mais recente lançamento de Toni Venturi na ficção foi A Comédia Divina (2017). A expansão das igrejas evangélicas, a aliança da mídia televisiva com o grande capital e a maleabilidade da chamada opinião pública são alguns alvos que ele mira ao se basear livremente no conto A Igreja do Diabo, de Machado de Assis. Leia aqui a resenha.
Toni era um abnegado defensor da classe cinematográfica, sempre presente nas lutas do setor. Ultimamente, integrava a direção da Associação Paulista de Cineastas.
Acompanhei a maior parte da sua carreira com meus textos e uma admiração profunda pela sua pessoa. Gostaria agora de estar perto da Débora (nossa querida “Dé”) e dos seus filhos Otto e Theo para abraçá-los bem forte e garantir que o guerreiro continua vivo dentro de nós.
O velório será amanhã (segunda, 20/5), das 13 às 20h, na Cinemateca Brasileira, Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino, São Paulo.




Lindo seu texto, querido. Notícia muito triste mesmo. Beijos.
Obrigada, Carlos Alberto Mattos, por essa linda homenagem. Também me sinto arrasada com essa notícia. Perda IMENSA para a cultura brasileira.
Adorava Toni…
Adorávamos
Belo texto e homenagem, Carlinhos.
Abração, amigo