SOBREVIVENTES
José Barahona (1969-2024) foi um cineasta português de forte ligação com o Brasil. Casado com a brasileira Carolina Dias, produtora de seus filmes mais recentes, José fez um cinema de trânsito entre os dois países. Estive em Lisboa e Lembrei de Você navegou entre Cataguases e a capital portuguesa com base num romance de Luiz Ruffato. Em Nheengatu – A Língua da Amazônia, o diretor embrenhou-se na Amazônia para recolher vestígios do idioma que serviu de ferramenta de colonização e catequização dos indígenas brasileiros. Alma Clandestina, por sua vez, evoca com emoção a figura de Maria Auxiliadora Lara Barcellos e sua bela e trágica história de resistência à ditadura de 1964.
Barahona faleceu precocemente aos 55 anos em novembro do ano passado. Deixou pronto mais um filme marcante como reflexão sobre nossa história colonial. De certa maneira, o tema de Sobreviventes já havia sido tangenciado no documentário O Manuscrito Perdido, que o diretor lançou em 2010. Ali, Barahona vinha ao Brasil em busca de um certo manuscrito do poeta e aventureiro português Fradique Mendes, personagem fictício criado por Eça de Queiroz e retomado pelo angolano José Eduardo Agualusa. Fradique teria andado por essas terras no século XIX e libertado seus escravizados antes da abolição. Agualusa publicou as supostas cartas de Fradique e acabou se associando a Barahona na escrita do roteiro de Sobreviventes.
O filme imagina o naufrágio de um navio negreiro no século XIX e a difícil convivência dos sobreviventes num litoral despovoado da costa do Atlântico. Fradique (Miguel Damião) é um deles, junto com a senhora de engenho portuguesa Dona Emília (Anabela Moreira) e sua filha brasileira Inês (Kim Ostrowskij), o padre Angelim (Paulo Azevedo), o marujo brasileiro Gregório da Mata (Roberto Bomtempo) e o “escravo-mordomo” negro João Salvador (Alex Miranda).
Embora sem os estereótipos que comprometiam a fábula Triângulo da Tristeza, do sueco Ruben Östlund, Sobreviventes também especula sobre a inversão da ordem social quando as diferenças de classe, raça e gênero se dissolvem na luta comum pela sobrevivência. Isolado numa terra virgem e com pouquíssimos recursos, o grupo passa a depender da perícia de João, não à toa sobrenomeado Salvador. Para complicar as coisas, Inês mantém um romance com João e está grávida dele.
O roteiro de Barahona e Agualusa desfia cada etapa e cada particularidade dessa coexistência como se fosse num jogo de xadrez. A metáfora é evidenciada com um tabuleiro salvo do naufrágio e usado por Fradique e João para debaterem suas posições no tabuleiro social. Não escapa uma citação a O Sétimo Selo de Bergman.
Eles se salvaram do naufrágio mas não de suas contradições. Fradique se coloca ao lado dos negros e tacha os brancos brasileiros de canalhas, mas se morde com a culpa do colonizador. O marujo branco encarna o pior dos seus patrões. O padre tem menos virtudes que um crápula qualquer. Inês só se serve de João até seus interesses se chocarem com os dele. Quando outros negros são encontrados no território e o jogo do poder volta a se modificar, o impulso de vingança toma a forma da escravização reversa.
Há espaço até mesmo para uma anotação curiosa sobre o matriarcado africano. A princesa Vissolela (Zia Soares) decreta que as mulheres não mais trabalharão no campo enquanto os homens ficavam em casa, como era de costume. Que isso ocorra num quadro de exceção como o naufrágio é mais um aspecto da excepcionalidade reinante naquele pedaço de mundo fora do mundo.
Outra ironia interessante diz respeito à oscilação dos ânimos de acordo com cada situação. O risco de morte intensifica as disputas, rivalidades e discriminações, ao passo que a fartura e uma relativa segurança promovem um ensaio de utopia conciliatória. Nesse sentido, Sobreviventes extrapola o contexto histórico para dizer algo sobre a espécie humana de maneira geral.
Ainda que incorra vez por outra em alguns monólogos discursivos para pontuar questões coloniais, o filme se resolve quase sempre pela ação e pela constante instabilidade das relações entre as pessoas. O elenco mantém uma relação visceral com a paisagem nua das regiões de Sezimbra e Aljezur, belamente fotografada em preto e branco pelo português Hugo Azevedo.
Sobreviventes é o testamento vistoso de um realizador que ainda tinha muito a oferecer. Mas sua obra é forte o suficiente para nos fazer pensar sobre os destinos cruzados do Brasil e de Portugal. E também serve de exemplo para a colaboração cinematográfica entre os dois países.
>> Sobreviventes está nos cinemas.


