Na pandemia – voo e mergulho

O subgênero “cinema da pandemia” comparece com dois filmes no É Tudo Verdade: o ensaístico argentino RETRATOS DO FUTURO e o registro cru brasileiro QUANDO FALTA O AR.

Virna Molina, diretora de Retratos do Futuro (Retratos del Futuro), é uma cineasta empenhada nos temas do trabalho, da mulher e da política argentina. Os três assuntos estão magistralmente envelopados nesse seu último filme, que me pareceu influenciado por Chris Marker e seus ensaios retro-futurísticos como La Jetée e Level Five.

Um filme de família, realizado por Virna com o marido, Ernesto Ardito, na produção e suas filhas Nikka e Isa no som e outras funções técnicas. Em 2020 eles foram surpreendidos pelo lockdown enquanto faziam um filme sobre o papel das delegadas sindicais do metrô de Buenos Aires na luta por direitos das mulheres trabalhadoras. A classe se desmobiliza, o mundo entra num limbo, o projeto muda de feição, o universo do filme se expande. Virna passa, então, a especular sobre o passado e o presente de sua geração, das mulheres e de seu país.

Não abandona o metrô, que segue sendo a metáfora central do ensaio. Mas para onde nos leva o túnel simbólico do tempo? Como uma ditadura sangrenta pode ser sucedida por neoliberalismo e privatismo, traduções econômicas do darwinismo social? Se o vírus sustou os movimentos populares na Argentina, será a morte a perspectiva de futuro? Como rever imagens do passado pensando no porvir que elas anunciavam? O que fazer quando o futuro distópico previsto na ficção científica se torna o presente real?

Virna e sua família fazem cinema. Filme-ensaio da melhor qualidade: subjetivo, alusivo, exploratório, violentamente poético. Um pouco longo, talvez, mas sempre sugestivo. Abarca os muitos tópicos numa relação livre, mas coerente, mantendo sempre a perspectiva de um filme que estava/está sendo feito. Metrô, Metropolis, Marker, Marielle Franco, Raymundo Gleyzer (o cineasta-ativista sobre quem Virna já realizou um documentário) dialogam entre si na montagem pulsante e na faixa sonora inquietante.

Entre uma visão apocalíptica e uma firmeza de intenções transferida das ruas para a ilha de edição, Retratos do Futuro alarga o espectro do “cinema da pandemia”. Não se rende à força centrípeta da calamidade.

Foto: Tarso Sarraf

No pólo oposto, o brasileiro Quando Falta o Ar mergulha no coração da dupla desgraça que se abateu sobre o nosso país com o combo Covid-Bolsonaro. O documentário de Ana Petta e Helena Petta foi patrocinado pelo grupo Todos pela Saúde, um consórcio de especialistas sustentado pelo Itaú-Unibanco que já bancou o documentário SARS-CoV-2 / O Tempo da Pandemia.

Entre outubro de 2020 e janeiro de 2021, ainda sem vacinação disponível, a dupla de diretoras registrou uma série de atendimentos e procedimentos do SUS (Sistema Único de Saúde) em cinco estados: Amazonas, Pará, Bahia, Pernambuco e São Paulo. Se nenhum filme de pandemia pode ser classificado como “agradável”, este é um dos menos. As câmeras de Leo Bittencourt, coladas em enfermeires e agentes de saúde, circulam por UTIs, palafitas, rios, favela e penitenciária. Testemunham cenas difíceis de testes em presidiários enjaulados, socorro a idosos entubados, retirada de corpos mortos, escavação de sepulturas. A face dura da pandemia se dá a ver sem subterfúgios.

Segundo o filme, cerca de 160 milhões de pessoas dependem unicamente do SUS para sobreviver no Brasil. Quando Falta o Ar vai demonstrar isso na ponta da cadeia sanitária e mostrar que tipo de gente compõe o SUS. Alguns profissionais são ouvidos sobre seu cotidiano, a conjuntura da pandemia em seu auge e a desigualdade que só aumentou no país desde que o ar começou a faltar. Como diz uma agente de saúde: “Os pobres têm que escolher entre ficar em casa e morrer de fome ou sair de casa e morrer de peste”.

Quando passa pela questão dos negros, Ana e Helena se permitem uma cena de sentido figurado: o corpo preto de um paciente é escaneado pela câmera ao som de Strange Fruit com Billie Holiday. Essa cena destoa do restante do filme, que é denotativo, básico e às vezes excruciante.

Faço questão de reproduzir o letreiro que aparece ao final do documentário e consiste numa acusação criminal:

Peço licença agora para compartilhar um poema que fiz recentemente e o filme me trouxe à lembrança. Era uma modesta paródia de letra de Caetano Veloso homenageando o pessoal do SUS:

ANJOS DO SUS

Bandos de anjos com banjos
Subindo as favelas
É um banho de luz
Becos, escadas, vielas,
Seus jalecos brancos
Os anjos do SUS
Curam, vacinam, ensinam
São drauzios varelas
São Oswaldo Cruz
Contra o horror governante
Um cuidado de amante
A galera do SUS

É voar!
Véu de voile
Evoé
Alto astral

Passos de paz, mãos de fada
Seringas de seda
Ave-mãe, andaluz
Em cada esquina ou vereda
A passagem alada
Dos anjos do SUS
Combo de alívio e cuidado
Erva doce, Ayurveda
Marés de alcaçuz
Quero que os deuses do fado
A todos conceda
As graças do SUS

Salve o sol!
SUSpirar
Salvação
Pra cantar.

2 comentários sobre “Na pandemia – voo e mergulho

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