Livro de garagem
fevereiro 28th, 2011 § 3 Comentários
“Cinema de Garagem” foi o título de uma mostra de filmes organizada por Dellani Lima em Belo Horizonte. Acabou virando título também do livro que ele e Marcelo Ikeda lançaram recentemente, com o subtítulo de “Inventário afetivo sobre o jovem cinema brasileiro do século XXI”.
Para esses observadores, carinhosos mais que críticos, o que define um certo tipo de cinema que pode ser chamado “de garagem”? Isso passaria tanto pelo modelo de produção quanto pelo processo de criação. Muitos desses filmes, mesmo de longa metragem, são feitos sem dinheiro de editais ou de grandes patrocinadores. Respondem a um desejo mais de expressão que de reconhecimento. Em alguns casos, o propósito de viver “no” cinema supera o de viver “do” cinema, refletindo uma linha de continuidade entre o profissional e o vivencial. A assinatura do autor é diluída entre vários signatários, que ora se agrupam em conjuntos (Alumbramento, Teia etc.), ora se permutam em redes através de vários estados.
Se de um lado a postura crítica de Marcelo e Dellani soa cautelosa ao recuar sempre de hierarquias e totalizações, de outro assume preferências de maneira explícita e às vezes retumbante. Como quando Ikeda, ao analisar o documentário de Cao Guimarães e Pablo Lobato, conclui peremptório: “acredito que o cinema deva ser como Acidente”. Ikeda, aliás, insere no livro seu sonoro manifesto por uma crítica que seja não um porto seguro, mas “um barco à deriva”, que prefira a dúvida às certezas de especialistas. No entanto, suas próprias notas críticas sobre filmes alheios estão repletas de afirmacões convictas e adjetivos policromáticos.
Se a contradição pode ser tomada aqui como uma virtude, isso se deve ao caráter “de garagem” do livro em si. Ele foi editado pelos próprios autores, e nesse sentido tem muito a ver com o modelo de cinema que eles procuram iluminar. O livro nasceu do desejo de oferecer, de bate-pronto, um pacote de reações aos filmes, muitas vezes no ato mesmo de sua primeira exibição. Em vez de reflexão distanciada, Cinema de garagem é, em sua maior parte, uma coletânea de textos publicados em catálogos de mostras e blogs frequentados pelos autores, que acompanham a cena desde seu alvorecer. Daí vêm uma certa descontinuidade, algumas repetições e principalmente o sentido de urgência que norteou aqueles artigos.
Vou publicar uma resenha mais completa do livro no número 54 da revista Filme Cultura, a ser lançado em maio. Mas Cinema de Garagem chega bem antes aos leitores do Rio e São Paulo. Será lançado na Mostra do Filme Livre em março, nos dias 13 (Rio) e 24 (SP).
Doc + fic: a era do híbrido
fevereiro 25th, 2011 § Deixe um comentário
Publico hoje o meu primeiro texto para o relançamento da revista Filme Cultura, o número 50, que saiu em abril de 2010. Era um análise das interações entre ficção e documentário no cinema brasileiro contemporâneo.
Um dia desses Dualdino e Indiferêncio sentaram-se juntos para ver Jogo de cena, o já clássico documentário de Eduardo Coutinho. Tão logo Andrea Beltrão e Gisele Moura começaram a revezar suas falas como se fossem uma só pessoa contando uma mesma história, a discussão não tardou a começar. E prosseguiu durante todo o filme. Para Dualdino, aquilo era uma grande confusão, capaz de desnortear o mais atento espectador. Não era um documentário, nem era totalmente ficção. De sua parte, Indiferêncio sorria um sorriso irônico enquanto sustentava que tudo no cinema agora era assim mesmo. Não fazia mais sentido buscar diferenças entre realidade e representação. O mundo todo, aliás, estava assim mesmo, como ele vive dizendo.
Dualdino é aquele tipo de pessoa que vê o mundo através de dualidades bem marcadas: o bem e o mal, a verdade e a mentira, o masculino e o feminino – e por aí afora. Indiferêncio, ao contrário, é o relativista militante. Tudo para ele se equivale. Arte e realidade se enquadram na sua mesma descrença, tendente ao niilismo. Dualdino e Indiferêncio são aqui personagens extremos – e caricatos – de uma discussão que se instalou, há algum tempo, no senso comum a respeito do cinema. E do cinema brasileiro em particular. Continue lendo
Os Faróis de Geraldo Sarno
fevereiro 23rd, 2011 § Deixe um comentário
“Acossado, de Jean-Luc Godard, é o filme-ruptura que dá início à aventura mais extraordinária e trágica de um cineasta em busca de uma renovação da linguagem do cinema”.
A observação é de Geraldo Sarno, que abre hoje a nova série do blog Faróis do Cinema. Clique aqui para visitá-lo.
Depois de sua temporada inicial no antigo DocBlog e de inspirar um ciclo de filmes e encontros no ano passado, na Caixa Cultural RJ e no Oi Futuro Ipanema, os Faróis estão de volta. Vamos retomar a consulta a outros cineastas, assim como republicar os posts do DocBlog. Em foco, sempre, as admirações e eventuais influências que ajudaram a construir o olhar cinematográfico de cada cineasta brasileiro.
A porta giratória
fevereiro 19th, 2011 § Deixe um comentário
Por mais que a crise americana de 2008 nos tenha afetado com a “marolinha”, e por mais que estejamos iniciados em swaps, subprimes, rating agencies, derivatives, Lehman Brothers & Cia., existe algo que nos escapa completamente em Trabalho Interno. É o potencial catártico de ver tantos vilões gaguejarem mais que Colin Firth em O Discurso do Rei. Ou ficarem a nu em seu cinismo diante da câmera e das perguntas incisivas de Charles Ferguson. Para os americanos que conviveram por tanto tempo com aquelas autoridades e megaexecutivos nos telejornais diários, o efeito é especialmente forte – e sem dúvida contribuiu para a estima crítica que leva Inside Job ao favoritismo no Oscar de melhor longa documentário.
As cenas de abertura sugerem o estilo de Oliver Stone: Wall Street goes pop. Mas não vai muito longe a impressão. Logo em seguida somos assoberbados por uma pletora de cabeças falantes, gráficos, fac-símiles de jornais e documentos, créditos de identificação – e ainda as legendas da tradução, muitas vezes impressas em branco sobre fundo branco, ou seja, null. É árdua a tarefa de ver Inside Job. Por vezes você vai sentir saudade dos alívios cômicos e da escala “humana” de Michael Moore. Mas Ferguson não quer entreter nem fazer cinema criativo. Cientista político, matemático e especialista em tecnologia da informação, tendo prestado consultoria à Casa Branca e a empresas como Apple, Xerox e Motorola, sua carreira no cinema começou em 2008 com No End in Sight, doc sobre o envolvimento dos EUA na guerra do Iraque. Seus dois filmes, portanto, são dossiês destinados a “fechar” capítulos da história americana. Por isso são pesados, sóbrios e detalhistas.
Trabalho Interno tem uma pegada didática. Pretende explicar as raízes da crise, lá no governo Reagan, e a rede de interesses que se armou ao longo dos governos Clinton e Bush, unindo o sistema financeiro com as esferas governamentais. A escalada da especulação, a bolha dos empréstimos imobiliários, o jogo das grandes corporações financeiras com o dinheiro dos clientes, o enriquecimento estapafúrdio dos altos executivos, tudo é dissecado em flashes, falas editadas no essencial e pequenos blocos de narração. Mas acompanhar o ritmo das informações e a trama das relações é um desafio para o espectador que desconheça os personagens e o idioma economês. Ferguson não facilita as coisas em prejuízo da fidelidade aos pormenores.
Os personagens são muitos – e muito mais seriam se todos os figurões tivessem concordado em dar entrevista para o filme. A sucessão de cartelas informando quem não topou participar funciona como acusações implícitas: quem se omite tem culpa no cartório. Na virtual impossibilidade de seguir o fluxo de tantas acusações e defesas vacilantes, resta-nos aceitar a argumentação indignada do diretor e sua câmera-dedo apontada para os vilões. No fundo, é mais uma questão de confiar no cineasta que de entender e posicionar-se.
Boa parte dos fatos já haviam sido abordados, com igual apetite e um pouco menos de aridez, em Capitalismo: uma História de Amor, de Michael Moore. Mas há pelo menos dois pontos de vantagem para Ferguson. Um deles é a inclusão da academia na rede de falsificações e consultorias forjadas. Segundo o filme, professores das universidades de Harvard e Columbia contribuíram decisivamente para sustentar as mistificações da bolha e o status quo do neoliberalismo predatório. O outro ponto é a decepção com o governo Obama, que não implementou as reformas prometidas e cedeu cargos públicos às velhas raposas do sistema anterior. A nota de esperança que encerrou vários docs americanos recentes, o de Moore inclusive, é severamente desmentida em Trabalho Interno. Houve mesmo quem interpretasse a narração de Matt Damon (um eleitor Democrata) como um sinal de que Hollywood estaria abandonando Obama.
A boa causa e o caráter direto do filme não lhe garantem, porém, uma qualidade cinematográfica distintiva. A retórica de Ferguson baseia-se em falas, dados e imagens-padrão de reportagens sobre corporações. Planos aéreos de Nova York indicam a amplitude da abordagem, torres simbolizam poder e cobiça, fachadas envidraçadas sugerem impessoalidade. E ainda um elemento dramático que se impõe a cada dez minutos: a porta giratória. Ela representa o movimento contínuo, a roda da fortuna que acolhe como expulsa, o equipamento que engole e expele seres humanos das entranhas do dragão financeiro. Tudo bem. Mas depois da quinta ou sexta porta giratória, você começa a achar que sobra razão mas falta cinema em Inside Job.
A experimentação baiana
fevereiro 18th, 2011 § Deixe um comentário
(Texto de Rubens Machado Jr.*, publicado na caixa de DVDs Bahia, 100 Anos de Cinema)
Forasteiros, podemos ter às vezes a impressão de que o cinema baiano traz sempre um caráter inventivo ao longo de sua história. Algo como uma inquietação própria, não só a de vanguarda, ou experimental. Se não nos enganamos, ainda quando não se pretende uma criação original, restaria disseminada pelos filmes alguma sugestão remota de jogo, em ponta de ironia, ou qualquer resíduo inquieto de expressão que não quer calar por sobre as convenções pesadas que se fizeram impor.
Ilusão de ótica? Viagem metafísica? Contágio de uma decantada verve discursiva que distingue o emblemático falar baiano? Imposição urbana da antiga capital do país, velhas persuasões da sua arquitetura barroca balizando exigências do nosso olhar? Mesmo os habitantes mais fugazes da cidade de Salvador parecem captar esse complexo feitiço. Como talvez o que veio se fixar no magnetizante Nada levarei quando morrer aqueles que mim deve cobrarei no inferno (1981) de Miguel Rio Branco, nessa exata condição de morador pouco demorado. Nele, o bairro do Maciel nos fala de um país protelado e fascinante, violento e generoso. Uma Baixa do Sapateiro medonha e bela que tantos filmes de antes e de depois adotaram como uma coordenada inspiradora, matriz visual com uma densa experiência de tradição, base documentária de pulsações decisivas da sociedade – registros de Vito Diniz, Tuna Espinheira e tantos outros; ficções incontáveis do Pelourinho, epicentro de dores e risos, vibrações cinematográficas baianas. Reflete-se este cataclismo nas lonjuras do sertão, do litoral baiano? ‑ ou ao contrário, esse tremor seria deles um consequente reflexo tectônico? Em todo caso, domar convulsões, ou sublimá-las apenas, é algo que também acontece, basta ver a serenidade do centro histórico em Gato/Capoeira (1979), de Mario Cravo Neto; a busca plácida de harmonias na Arembepe de José Agrippino de Paula, em Céu sobre água (1978).
O certo é que o convívio de tanta diferença vai desafiar uma visão conjunta, um esforço de totalizar que ganhou no cinema pelo menos dois precoces filmes de reflexão sobre o próprio cinema baiano, o coletivo superoitista Na Bahia ninguém fica em pé (1980), de Araripe Jr., Pola Ribeiro e Edgard Navarro e, desse último, Talento demais (1994), um cineasta cuja percepção das diferenças produzira o “cult” Superoutro (1989). Este viés do diferente, aliás, já teria estruturado o magnífico surto de experimentalismo superoitista nos anos 70, precedido de pouco pelas experiências de André Luiz Oliveira, Álvaro Guimarães e José Umberto. Mas a sensibilidade das diferenças nos levaria mais longe, às origens da modernidade e do cinema experimental na vanguardista década de 50 baiana.
Já anunciam muito do que se verá mais tarde os filmes Um dia na rampa (1955-1960), de Luiz Paulino, e O pátio (1957-1959), de Glauber, como bem intuiu na época o atento crítico paraibano Wills Leal, com mínima inclinação para o primeiro. O contraponto dos dois estreantes já nos traz uma configuração lapidar de Povo e Elite, fundamento básico da imagem movente baiana. No primeiro filme, um novo escandir rítmico de imagens populares do trabalho diário em montagem singular no seu humor e riqueza de associações. No segundo, mudam atores sociais e coreografia no construir abstrato de uma tensa melancolia de mirantes tropicais privilegiados. Como numa esplanada de fortificações, podemos ali esquadrinhar o horizonte oceânico da boca da Baía de todos os Santos, por onde uma elite vislumbraria vínculos seguros com outros portos, do país e d’além-mar. Já no filme de Paulino, como num contracampo voltado para a terra do Recôncavo, em ponto de vista do mar ondulante, encontraremos a vibração do centro popular, mercados de sobrevivência e de vitalidade baiana.
* Rubens Machado Jr. é pesquisador, curador e professor titular de Teoria e História do Cinema da ECA-USP. É vice-presidente do Conselho de Orientação Artística do MIS-SP e integra a editoria das revistas Cine-Olho, Infos Brésil, Praga, Sinopse e Significação.
2 X 50 anos de cinema na Bahia
fevereiro 17th, 2011 § Deixe um comentário
(Texto de Maria do Socorro Carvalho* publicado na caixa de DVDs Bahia, 100 Anos de Cinema)
100 anos de cinema na Bahia. Ou, à maneira de Godard, 2 x 50 anos de cinema na Bahia. Os primeiros cinqüenta anos dos pioneiros – com Diomedes Gramacho e José Dias da Costa inaugurando a tomada de pequenas fitas, em 1910, e culminando com os filmes de Alexandre Robatto Filho, entre 1930 e 1960. Os cinqüenta anos seguintes, que ainda são nossos contemporâneos, têm início com o Ciclo do Cinema Baiano (1959–1964), para logo testemunharem o experimentalismo dos anos 1970 e certo vazio da época posterior até a retomada da produção em meados da década de 1990, batizada “a novíssima onda baiana”.
Se os registros centenários estão perdidos para sempre no fundo da baía de Todos os Santos, onde foram jogados como prevenção contra os temidos incêndios do celuloide, parte da obra pioneira de Alexandre Robatto Filho, aquele que primeiro filmou de maneira sistemática na Bahia, encontra-se em processo de restauração na Cinemateca Brasileira. Seus documentários curtos constroem um rico panorama de aspectos diversos da cultura baiana, como se pode ver em Vadiação, um olhar sobre a capoeira em 1954, portanto o filme mais antigo desta coletânea.
Essa produção documental será referência para os jovens cineastas ao iniciarem a realização de filmes, sobretudo de ficção, no fim da década de 1950. É desse momento o primeiro longa-metragem baiano, filmado entre 1957 e 1958, Redenção, de Roberto Pires – um semipolicial melodramático, segundo o crítico Glauber Rocha. E os curtas-metragens Um dia na Rampa, documentário de Luís Paulino dos Santos sobre um dia de trabalho na então famosa rampa do Mercado Modelo, e o filme-poema Pátio, o ensaio cinematográfico que marca a estreia de Glauber Rocha na direção. Todos três exibidos pela primeira vez, em Salvador, em março de 1959.
Além dos filmes fundadores, esse importante surto apresenta-se aqui com sua “trilogia da fome”: Bahia de Todos os Santos (Trigueirinho Neto, 1960), Barravento (Glauber Rocha, 1960-62) e A grande feira (Roberto Pires, 1961). Embora com concepções distintas, eles se ligam pela discussão em torno da fome e suas formas de representação, revelando preocupações comuns dos realizadores e indicando propostas estéticas que anteciparão o cinema da fome e da violência que explodirá com o Cinema Novo ao longo dos anos 1960. Frutos do “desenvolvimentismo” local, os filmes tratam da fome em meio ao mundo do abastecimento – o transporte, a produção e a distribuição de alimentos – a partir de personagens famintos que devem matar a fome da cidade.
A “nova onda baiana”, na qual se destaca o cineasta Glauber Rocha, constituiu-se um marco dessa cinematografia hoje centenária. É notável que em um lugar sem história de produção fílmica surja um movimento não apenas realizador de filmes, mas antes de crítica, com formação de técnicos, produtores, atores e diretores, que permanecerá como referência ou inspiração para a multiplicidade de temas, abordagens e formatos da produção que se seguiu. Assim, da experiência “marginal” de Meteorango Kid – Herói intergalático (André Luiz Oliveira, 1969) ao balanço geracional de Eu me lembro (Edgard Navarro, 2005); ou do sertão de Sob o ditame de Rude Almajesto: sinais de chuva (Olney São Paulo, 1976) à crônica da cidade de Dez centavos (César Fernando Oliveira, 2008), esboça-se um complexo (embora necessariamente parcial) painel da memória audiovisual baiana para celebrar o primeiro século do cinema na Bahia.
* Maria do Socorro Carvalho é professora e pesquisadora do cinema brasileiro, autora dos livros A Nova Onda Baiana (Edufba, 2003) e Imagens de um Tempo em Movimento (Edufba, 1999).
Documentários, por exemplo
fevereiro 16th, 2011 § Deixe um comentário
(Texto publicado na coletânea de DVDs Bahia, 100 Anos de Cinema)
Dadas as limitações técnicas, jurídicas, de preservação e de prazo que se impuseram à composição desse recorte dos 100 anos do cinema baiano, os filmes aqui reunidos cobrem um período (1954 a 2008) na verdade pouco maior que 50 anos. Trata-se de uma fase que corresponde à modernização e afirmação de identidade do cinema brasileiro. Nesse processo, o documentário teve papel importante também na Bahia – o que se reflete na presença significativa de 12 filmes com características documentais evidentes entre os 30 títulos incorporados.
Com sua exposição frontal (e teatral) da capoeira dos Mestres Waldemar e Bimba, Vadiação representa o documentário tradicional, de feições didáticas, mas inspiradoras para quem viria depois. Barravento, aliás, foi um dos vários filmes que beberiam nas águas dos documentários sobre pesca realizados pelo mesmo Alexandre Robatto Filho, tido como o primeiro grande cineasta local.
O berço baiano do Cinema Novo foi construído também pela visão fluente e poética que Luiz Paulino dos Santos nos deu do ancoradouro do Mercado Modelo em fins dos anos 1950. Um Dia na Rampa, filme que contou com a colaboração de Glauber Rocha, cria uma coreografia conjugando o trabalho dos homens e o movimento dos barcos num cenário extremamente sugestivo. É um desses filmes que estão a um passo de exalar o cheiro forte de Salvador e ajudaram a criar uma certa imagem da cidade.
Tomem-se o curta O Capeta Carybé, de Agnaldo “Siri” Azevedo, e o longa Samba Riachão, de Jorge Alfredo, para melhor entender essa formulação da Bahia através do cinema. Os perfis desses dois artistas carregam, cada um a sua maneira, as cores, as sinestesias todas e uma maneira de estar no mundo que, sem medo dos estereótipos, fixou-se como uma ideia de baianidade. Não mais a Bahia coletiva da capoeira e dos portuários, mas a do indivíduo peculiar que – mesmo vindo de fora, como o argentino Carybé – acaba personificando traços da terra.
O mito do baiano bem sucedido que retorna à terrinha, cristalizado na Tieta de Jorge Amado, foi revisitado por Orlando Senna no seu Diamante Bruto, história da volta de um ator famoso a Lençóis. Esse filme foi um dos marcos da miscigenação entre documentário e ficção que germinou no cinema brasileiro dos anos 70, no rastro de Iracema, uma Transa Amazônica, que Senna codirigiu com Jorge Bodanzky em 1974.
Numa vertente mais etnográfica, estimulada pela Caravana Farkas, situam-se os filmes de Guido Araújo (A Morte das Velas do Recôncavo), Olney São Paulo (Sob o Ditame de Rude Almajesto) e mesmo o “Siri” de Adeus, Rodelas. Perda e permanência jogam dialeticamente nesses filmes, que tratam das vicissitudes do clima e do progresso quando afetam a paisagem do sertão e do litoral baianos.
Por fim, dois documentários dessa coletânea assumem caráter de reflexividade, tematizando o próprio cinema da Bahia. O Guarani faz um inventário da cinefilia e do pensamento cinematográfico em torno da mítica sala da Praça Castro Alves. Na Bahia Ninguém Fica em Pé, integrante do movimento superoitista, flagra uma discussão antológica, porque bem-humorada, sobre vida nada fácil dos cineastas baianos na virada dos anos 80.
Outros tantos documentários mereceriam lugar nesse conjunto de filmes, fossem eles de produção local ou frutos do interesse de documentaristas vindos de fora. Desde que a Bahia faz cinema, é num balanço fértil entre realidade e imaginação que vem temperando a sua imagem.
Cenas baianas
fevereiro 15th, 2011 § Deixe um comentário
Elas não sabiam que eu sou baiano quando me chamaram para integrar o grupo curador. Sofia Frederico, então na Secretaria de Cultura da Bahia, e Moema Müller, pela Cinemateca Brasileira e a Programadora Brasil, foram as locomotivas que puxaram a criação da caixa de 12 DVDs Bahia, 100 Anos de Cinema. Da curadoria participaram ainda o cineasta Joel de Almeida e os pesquisadores Maria do Socorro Carvalho e Rubens Machado Jr.
O projeto foi tocado em ritmo veloz no segundo semestre do ano passado, uma vez que o lançamento deveria ocorrer até o fim de dezembro, a tempo de se comemorar o centenário do cinema baiano. Na lista final de 30 filmes, entre curtas, longas e médias-metragens, sempre haverá quem aponte lacunas imperdoáveis – a começar por nós mesmos. Mas nossa missão foi escolher o melhor possível dentro de certos parâmetros, entre eles: existência de matrizes em bom estado; concordância dos produtores; cobertura dos principais nomes do cinema do estado; filmes autenticamente baianos e não meras utilizações dos cenários da Bahia.
Por estarem perdidos, não foi possível ressuscitar os primeiros títulos locais, filmados pelos pioneiros Diomedes Gramacho e José Dias da Costa em 1910. O filme mais antigo na coletânea é Vadiação, raro doc do prolífico Alexandre Robatto Filho, o primeiro grande documentarista baiano. Outras boas raridades são o primeiro longa de Roberto Pires, Redenção (1958), o longa de animação Boi Aruá, de Chico Liberato, o mítico marginal Caveira My Friend, de Álvaro Guimarães, além de diversos curtas de importância histórica e há muito fora das telas. Entre esses, Comunidade do Maciel, de Tuna Espinheira, Um Dia na Rampa, de Luiz Paulino dos Santos, Sob o Ditame de Rude Almajesto, de Olney São Paulo, Adeus Rodelas, de Agnaldo “Siri” Azevedo, e Gato/Capoeira, de Mário Cravo Neto.
A caixa repõe em circulação, por enquanto restrita, um conjunto expressivo de filmes. É claro que há Glauberes, Navarros e Meteorango Kid. Docs, fics, animações e experimentais. O título mais recente é o curta O Guarani (2008), de Cláudio Marques e Marília Hughes, filme-celebração em torno do célebre cinema Guarani da Praça Castro Alves (hoje Espaço Glauber Rocha).
As escolhas dos curadores estão justificadas em pequenos textos de um livreto que acompanha os DVDs. Amanhã publico aqui o meu, sobre a tradição documental baiana.
As coletâneas estão sendo distribuídas a videotecas, universidades e centros de cultura. Os interessados em pleitear uma doação podem se informar no site da Dimas/Funceb/Secult.
Peneira Digital: Mulheres do Cinema Brasileiro
fevereiro 13th, 2011 § 3 Comentários
http://www.mulheresdocinemabrasileiro.com/
Este é um site de fã, mas reuniu tantas informações úteis que passou a ser interessante não só para outros fãs, como para qualquer pesquisador. Adilson Marcelino começou a brincadeira em 2003 com um fotolog dedicado a atrizes brasileiras. Já no ano seguinte o fotolog virou site e o acervo foi ampliado. Hoje, quem visita o Mulheres do Cinema Brasileiro tem várias “salas” à sua disposição.
Na Sala Isabel Ribeiro estão as fichas de atrizes, com pequenos comentários biográficos e filmografia. Na Sala Ana Carolina moram as cineastas. Na Sala Betty Faria ficam produtoras, fotógrafas, roteiristas, diretoras de arte, etc. A Sala Dina Sfat abriga entrevistas. A Sala Lilian Lemmertz contém textos de homens sobre mulheres do cinema brasileiro. E por aí afora.
A navegação não é das mais funcionais, nem o design é especialmente atraente. Ainda assim, o trabalho de Adilson Marcelino ganha relevância por sua especificidade e pela dedicação e carinho com que trata aquele universo. Afinal, não é bom ter um lugar onde encontrar rapidamente informações sobre mulheres tão diferentes quanto Léa Garcia, Maria Augusta Ramos ou Karen Harley?
Longe e perto da favela
fevereiro 11th, 2011 § Deixe um comentário
O pronome “mim” no título desse filme talvez seja mais importante que o substantivo “samba”. E não apenas porque Geórgia Guerra-Peixe usa a primeira pessoa na introdução, aludindo a sua condição de filha de um diretor cultural da Mangueira. Geórgia é alguém que se assume como forasteira, mas afetivamente ligada ao mundo do samba e curiosa em relação às histórias que existem por trás da famosa quadra. O “mim” é importante sobretudo porque Geórgia não sai de si para fornecer um retrato supostamente “autóctone” da mais poética favela carioca. A Mangueira que vemos em O Samba que Mora em Mim é filtrada pela sensibilidade e pela estética de alguém de fora, que vem de uma formação paulistana e do mundo da publicidade.
A boa notícia é que isso, longe de ser um demérito para o filme, é fonte de sua cativante personalidade. Não vemos aqui o apetite de realidade bruta que muitas vezes apresenta essas comunidades como núcleos do exótico e do pitoresco. Não há aquela ansiedade típica dos documentários que querem colar seu estilo a um suposto ritmo da favela, seja ele o samba, o funk ou o hip hop. Geórgia constrói um retrato verdadeiramente cinematográfico da Mangueira, em que as imagens e as palavras querem ser o tempo todo música. Uma musicalidade de cinema.
O júri da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que deu ao filme o seu prêmio especial no ano passado, talvez tenha se sentido como eu: passeando tranquilamente pelo morro, colhendo impressões selecionadas por um olhar carinhoso e mais atento às singularidades que aos clichês. A fotografia cuidadosa nos detalhes e a edição sem compromissos com o naturalismo criam um retrato original e bastante pessoal. Além de assumidamente artístico.
E no entanto a Mangueira está lá, com personagens irresistíveis como Cosminho, o homem que “mora no sapato”, ou a “vovó” que detesta carnaval por causa da “zoada”. Muitos são os flashes deliciosos que capturam gestos, afazeres e trocas cotidianas, assim como a verve única de gente que não se deixa vencer pelos “degraus de obstacularidade”. Humor e ternura convivem graciosamente enquanto a vida mangueirense se desdobra diante de nossos olhos. Assim se faz um doc que, enfim, se nivela ao perfil da Estação Primeira traçado por Thereza Jessouroun no também aprazível Samba (2001).
A preferência por driblar o óbvio fica mais clara do que nunca na sequência final, quando Geórgia Guerra-Peixe troca a apoteose do desfile das escolas pelo ângulo mais lírico e menos espetacular de quem ficou na favela diante da TV. Esse distanciamento, que paradoxalmente aproxima mais, é a chave de tudo em O Samba que Mora em Mim.
A arte, a rua, o lixo, o autor
fevereiro 8th, 2011 § 3 Comentários
Entre os cinco filmes que disputam o Oscar de longa documental no próximo dia 27, um dos favoritos é Exit Through the Gift Shop. O badalado dossiê sobre arte de rua é assinado pelo inglês Banksy, a maior e mais misteriosa celebridade da área. As histórias por trás e as dúvidas em torno da produção são quase tão saborosas quanto o próprio filme.
Enquanto organizava as ideias para escrever um texto sobre o assunto, encontrei esse post de Leandro Calbente, que disseca as questões de uma maneira tão inteligente e completa como eu não seria capaz.
Quero apenas destacar outros dois pontos que merecem nossa reflexão.
Um deles é a dúvida como valor estético na arte contemporânea. Há muito deixamos para trás o socorro das certezas e das formas clássicas e puras. Mas, nunca como antes, vivemos agora senão o império do fake, pelo menos o reino do duvidoso. Exit… nos deixa o tempo todo cara a cara com a desconfiança. Será mesmo aquele homem encapuzado, meio diretor, meio personagem, o Banksy de que tanto se fala? Se é mesmo, o que o teria levado a confiar de tal forma naquele francês com jeito de picareta? Terá Thierry filmado de fato tudo o que vemos da street art em ação na primeira e mais excitante metade do filme? E o que haverá de forjado na segunda metade, quando Thierry supostamente passa de tiete com câmera a estrela emergente da street art?
O que mais perguntamos hoje em dia (ou nem perguntamos mais) é onde está o limite entre obra de arte e mistificação, valor artístico e valor de mercado, imagem real e cena fabricada. Assim como o ramo das artes plásticas, o dos documentários está coalhado de obras que, com maior ou menor grau de explicitação, trabalham nessa fronteira. Kiarostami, Coutinho, as turmas dos mockumentaries e dos mashups – são muitos os praticantes da arte da dúvida, os questionadores da “cópia fiel” ou da aura da obra original. Em tempo de reprodutibilidade vertiginosa e expansão sem limites do espaço artístico, o conceito de grande arte tende a virar, literalmente, peça de museu.
O título do filme, livremente traduzido por “Saída pela Loja de Presentes”, refere-se àquela instância intermediária entre a rua e o museu. Ali onde pastamos na ilusão de ainda reter um pouco da aura do museu enquanto compramos bugigangas, cópias vulgarizadas, alusões de quinto grau. A Monalisa numa caneca. A um passo dali, estamos de volta às ruas, onde uma intervenção de Banksy, de Shepard Fairey ou de Os Gêmeos pode nos reconduzir à experiência da arte, já do outro lado, onde ela supostamente não caberia.
Outro ponto é o paralelo que se pode fazer entre Exit Through the Gift Shop e seu concorrente Lixo Extraordinário, que também disputa o Oscar. Ambos tratam da arte em locais “inadequados”. Ambos mostram personagens que se transformam através desse contato direto com o(s) artista(s). No entanto, poucos filmes poderiam ser tão diferentes. O doc de Banksy trata da arte como algo impuro, sujeito à dúvida e à mistificação. Sai do museu para a rua, passando pela loja de presentes. Lixo Extraordinário, contrariamente, vê a arte como instrumento de elevação. Leva a rua (ou seu paroxismo, o lixão) para o museu. A pulsão política de um é anárquica e transgressora, seja em relação à sociologia urbana, seja em relação às normas do mercado de arte. No outro, a política se faz pelo discurso da inclusão social/cultural, pela transformação do outro, pela validação institucional.
Em Exit…, o autor do filme e artista-tema se esconde no capuz e na voz distorcida, cedendo o lugar do personagem principal ao que seria o autor da maior parte do material. Uma confusão se estabelece em relação à autoria, o que é parte importante dessa paisagem contemporânea. Já em Lixo…, Vik Muniz é o centro absoluto de toda a operação, mostrado com clareza e insistência pelos realizadores. Ao mesmo tempo que afirma repartir a autoria dos quadros com seus personagens, Vik reafirma na verdade sua postura de maestro e mentor.
Nas tensões opostas em vigor nesses dois filmes, temos um belo instantâneo dos docs sobre arte. Um que aposta na dúvida sobre o estatuto da arte, o outro na certeza da arte como coisa nobre.
***
No Cinema Eye Honors, premiação anual de docs nos EUA, Exit Through the Gift Shop ganhou melhor filme e montagem. Leia abaixo um trecho da fala de Banksy, lida na cerimônia pelo produtor do filme:
“Quero agradecer ao Cinema Eye Awards. É ótimo ser reconhecido por pessoas tão obcecadas pelo gênero documentário. Em outras palavras, gente ainda mais retardada socialmente do que eu. Imagino que alguns de vocês estejam começando a achar isso aqui meio suspeito. Como ter certeza de que essa cerimônia é real? Mas eu gostaria de assegurar-lhes categoricamente que essa noite de premiação não está sendo encenada por atores para uma paródia que estou fazendo sobre o circuito dos prêmios. Eu quero dedicar esse prêmio a todos os que já olharam para o estado do mundo e pensaram ‘eu não posso ficar aqui numa boa vendo isso acontecer… eu tenho que botar isso em fitas’.”
Tio Boonmee ou Da corajosa atitude zen budista de sair no meio de um filme
fevereiro 6th, 2011 § 1 Comentário
Diversão de domingo:
Uma das pessoas mais bem-humoradas que conheço é meu amigo Ricardo Cota. Ótimo crítico de cinema, ele anda afastado dessa atividade por força de seus compromissos no poder público – é coordenador de comunicação do governo Sérgio Cabral. Essa situação o deixa à vontade para curtir com a cara dos colegas críticos. Sua correspondência é sempre divertida. Depois de ver Tio Boonmee, o vencedor da Palma de Ouro de Cannes, e discordar dos elogios dominantes, ele fez o seguinte relato de sua experiência no Unibanco Arteplex:
“O filme começa. Um boi, ou seria uma vaca?, rumina. Silêncio. Não. Sons. Cigarras e ou grilos. Bailam corujas e pirilampos entre sacis e as fadas. Até que lá no fundo azul da noite da floresta surge aquele que mais tarde saberemos ser o macaco-fantasma de luminosos olhos vermelhos.
Uma mesa de jantar. Tio Boonmee lamuria a iminência da morte. Aparece uma mulher fantasma e se revela que não é só Tio Boonmee que tem o poder de ver os antepassados. Os outros também.
Chega o macaco-fantasma.
Nesse momento, na sala de cinema, duas jovens se levantam e saem.
Não, não têm o perfil de jovens desenganadas que foram atrás de Desenrola e acabaram nos braços peludos do macaco-fantasma. Não.
Elas saem por um motivo que deduzo espiritual, zen budista: estão achando tudo um saco.
Como principiante na contemplativa prática do zen budismo, saio do meu zen sonambulismo e me vejo, como alguns personagens do filme, em dois lugares paralelos.
A cabeça seguiu com as moças; o corpo continua ali, inerte.
Enquanto isso, na tela, uma princesa de rosto deformado entra num riacho e faz sexo, suponho que oral, com um bagre que fala. O sexo oral, que supus, praticado pelo bagre, bem entendido.
Volto a pensar nas moças. Onde estarão? No café do Arteplex? Na livraria? Ou já descansadas em suas respectivas residências?
Tio Boonmee agora está numa caverna habitada pelos macacos-fantasmas agonizando, morrendo até morrer.
Sou covarde, não saio. Sou forte, não durmo.
Em off, um personagem reflete sobre olhos abertos que não vêem.
Me identifico.
Agora um jovem zen budista despe o manto e toma uma chuveirada. Depois convida a Tia Boonmee, que ainda não morreu, para jantar. Ela não quer. Quer ver tevê com a filha. Eis que num passe de mágica, o filme se divide em dois planos: o monge permanece frente à tevê e ao mesmo tempo está num bar jantando com a tia.
Só então percebi a genialidade de Tio Boonmee.
Trata-se de um filme sobre a possibilidade de se estar e não estar em dois lugares ao mesmo tempo. Da dialética entre perda total ou apenas parcial de tempo. A inevitável dinâmica entre a vida no hall do Arteplex e a morte nos braços do macaco-fantasma.
E aí entendo a atitude corajosa das meninas, essas sim!, zen budistas. Elas não estavam mais na sala; mas ao mesmo tempo estavam. Sacaram?
Devia tê-las seguido. Mas covardemente me mantive abraçado ao macaco-fantasma de radiantes olhos vermelhos.
Definitivamente, tenho muito que aprender com o zen budismo.
Ou, melhor ainda, com o bagre ensaboado”.
Ricardo Cota
O branco e o negro
fevereiro 4th, 2011 § 1 Comentário
Em termos de cinema, há um cisne branco e um cisne negro dentro de Black Swan. O cisne branco é a ideia básica de associar o desequilíbrio físico da bailarina, sinal de sua queda profissional, ao desequilíbrio mental que acomete a perfeccionista Nina Sayers. O filme de Darren Aronofsky trata principalmente de equilíbrio e dualidade – o que, em princípio, soa irresistível quando ligado ao tema da dança.
É cisne branco também a performance excepcional de Natalie Portman, que pode não ser a nova Moira Shearer (a bailarina de verdade que protagonizou Sapatinhos Vermelhos), mas está muito próxima de ser uma Audrey Hepburn para o século 21. É impossível não pensar numa piada cruel ao vê-la tomar, na trama, o lugar que era de Winona Ryder (Beth), outrora namoradinha da América.
A fotografia de Matthew Libatique, claustrofóbica fora do palco e ambivalente nas cenas de espetáculo, e a montagem precisa de Andrew Weisblum também são cisne branco. Colocam o espectador no centro das tensões e da atmosfera de pesadelo e respondem pelo que Black Swan tem de melhor: uma técnica admirável.
Mas essas qualidades são traídas por um emaranhado de péssimas ideias, assim como as virtudes da Princesa Odette em O Lago dos Cisnes são traídas pelo cisne negro representado por Odile. No filme, para viver ambos os papéis, Nina Sayers precisa trazer à tona o cisne negro que tem dentro de si. O uso da metáfora, nesse caso, é desastroso.
O Lago dos Cisnes já foi objeto de muitas adaptações irreverentes. Matthew Bourne já montou o balé só com homens. Graeme Murphy conectou a história dos cisnes com o triângulo amoroso Charles-Diana-Camila. John Neumeier usou a trama para falar de Ludwig da Baviera e sua paixão por cisnes. Mas duvido que algo tenha sido mais caricato do que essa proposta de transformar a magia da mulher-cisne numa historinha de terror ao gosto dos adolescentes que adoram ver mutações sanguinolentas e corpos dilacerados.
O lado cisne negro de Black Swan é um pequeno monstro engendrado por clichês de melodrama barato e lugares-comuns entre realidade e imaginação. Nina projeta sua culpa por ter assumido o papel de Beth no medo de perdê-lo para a novata Lily. A cena de sedução lésbica, que tanto hype tem gerado para o filme, é tão ousada quanto supérflua (muito embora Mila Kunis, cá entre nós, mereça consideração sexual mesmo da mulher mais hetero do planeta). Subjugada pela mãe, reprimida sexualmente, assombrada por fantasias persecutórias, Nina vive cenas que frequentemente rondam o ridículo, tamanha é a falta de sutileza de Aronofsky, aliás proverbial. Os exageros sonoros e visuais chegam às raias do grand-guignol, fazendo do filme uma mistura indigesta de traços de Sapatinhos Vermelhos, Repulsa ao Sexo, A Malvada e Carrie, a Estranha. Se não dá para imaginar, então veja o filme.
Não por acaso, Black Swan e O Concerto dividem os acordes altissonantes e populares de Tchaikovsky. Cisne negro é também aquela concepção kitsch da música e do balé clássicos como território das “grandes emoções”. Um universo onde as pessoas estão sempre a um passo da euforia ou da explosão de fúria. O coreógrafo vivido por Vincent Cassel personifica esse pastiche de suposta elegância cênica, autoritarismo bem intencionado e frases bombásticas a respeito de “impulsos selvagens” e “deixar-se levar pela paixão”. O nível é esse: vulgaridade e sapatilhas.
Sobre-naturalismo tailandês
fevereiro 2nd, 2011 § 1 Comentário
Não era minha intenção escrever sobre Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas, mas o pedido de alguns amigos queridos me trouxe até aqui. Não vou analisar o filme nem aprofundar questões, mas apenas deixar um registro rápido da impressão que o filme me causou.
Gosto de Apichatpong Weerasethakul desde 2003, quando assisti a Blissfully Yours no Festival de Cinema Independente de Buenos Aires e, como jurado da Fipresci, cerrei fileiras em torno dele para o prêmio da crítica internacional. Blissfully Yours era o cartão de visita de um cineasta cheio de frescor e mistérios. Lidando com três jovens entre a cidade e o campo, entre a melancolia e a sensualidade, o filme introduzia muitas características do cinema de AW: narrativa em duas metades não muito interligadas; um personagem sempre vitimado por uma doença; um fundo político tênue e, principalmente, uma visão panteísta do mundo, em que homens, animais e plantas pertencem a uma mesma ordem da natureza, podendo assim intercambiar os papéis sem muitas explicações.
O tom meio renoiriano de Blissfully Yours seria sucedido por cores mais densas e tramas mais intrincadas em Doença Tropical e Síndromes e um Século, os outros longas que pude conhecer. Em cada um deles, AW acrescentava ingredientes que iam formando sua cosmogonia: o amor gay, as mutações poéticas entre homens e animais, reencarnação, realidades paralelas, vínculos inesperados entre signos budistas e práticas de uma Tailândia moderna e laica.
Esse trajeto nos ajuda a compreender melhor os aparentes enigmas e a simplicidade assumida de Tio Boonmee. Um homem com uma doença renal está se tratando numa casa no interior do país, próximo à fronteira com o Laos. Com ele estão não apenas parentes vivos, mas também chega o fantasma da mulher, além do filho que desaparecera há tempos e agora retorna com aparência não humana. Tudo acontece com bastante naturalidade, como num conto de fadas. E é assim que os filmes de AW devem ser vistos: como contos fantásticos, mas em que o sobrenatural não assume um lugar especial, e sim convive com o natural no mesmo plano.
A belíssima sequência da princesa e do bagre funciona como um conto dentro do conto. Parece uma senha para abrir nossa percepção para as entradas múltiplas com que trabalha o diretor. AW faz convergirem as lendas tailandesas, os ecos da política sangrenta da região, a banalidade do cotidiano e as necessidades básicas do homem (amor, saúde, sobrevivência) em obras de enorme originalidade, que desafiam o convencionalismo do espectador. Não com uma experimentação estéril, mas com olhos abertos para a dualidade das coisas. O monge que se duplica na cena final apenas explicita a repartição que existe em tudo: o que somos e o que parecemos, o que fazemos e o que desejamos. Um monge e um fantasma são também seres com fome. Um homem é também um fruto da selva. Um filme é também uma maneira de falar sobre o que não se explica e, ainda assim, pode nos encantar sossegadamente.








