Travessuras de Laurie
março 29th, 2011 § 1 Comentário
Com seu ar de garoto travesso, Laurie Anderson abriu ontem pessoalmente a sua exposição I in You / Eu em Tu no CCBB-RJ. A moça trouxe seus violinos performáticos, vídeos e duas instalações de encher os olhos (e ouvidos). Numa delas, poemas audiovisuais são projetados em quatro telas de formatos e tamanhos diferentes. Na outra, a mais bela de todas, a “tela” é uma paisagem construída com picotes de papel sugerindo campos e aldeias, sobre a qual são projetadas imagens e grafismos de diversas naturezas.
Vi tudo sem muita calma, em meio à pequena multidão que acorreu à abertura. Quero voltar. Na verdade, gostaria de me mudar para aquela sala da paisagem. Ficar ali uns três meses ouvindo as experimentações musicais de Laurie e apreciando a brisa das imagens passar sobre os vales de papel.
A exposição tem fotos da Laurie performer em distintas fases de sua vida. Quando jovem ela gostava de dormir em lugares públicos inusitados para ver se o local influenciava seus sonhos. As fotos dessas performances me lembram uma série de fotografias que faço de gente dormindo em lugares públicos (veja aqui). À esquerda, uma das fotos de Laurie.
Abaixo, um trecho da performance Duet on Ice, que gravei com meu celular na noite de ontem. Ela repete hoje às 18 horas no saguão do CCBB. E às 18h30 faz palestra. Na performance original, Laurie calçava os blocos de gelo para determinar o tempo de duração do ato. Quando o gelo derretia e ela começava a perder o equilíbrio, era hora de terminar.
El xamã de São Tomé das Letras
março 28th, 2011 § Deixe um comentário
Em agosto de 1981, uma troupe de loucos atores argentinos bagunçou o coreto da Praça da República, em São Paulo, com uma performance artaudiana em que simulavam estar morrendo envenenados. Parte do povo os agrediu, parte os socorreu, e foram todos parar na Santa Casa de Misericórdia… E depois na polícia. Eram integrantes do Taller de Investigación Teatral de Buenos Aires, e estavam no Brasil na cola do seu líder e fundador, Juan Carlos Uviedo, refugiado da prisão da ditadura argentina. Uviedo continua até hoje por aqui. E é a ele que se refere o título do doc argentino El Provocador.
Uviedo vive numa montanha que dizem ter “comprado” em São Tomé das Letras (MG), onde criou a ONG Viva Criança. Continua dando aulas de teatro-provocação e atua como xamã e líder de uma certa utopia que se expressa em portunhol. Através de seu perfil, traçado por ele próprio e por amigos e ex-colaboradores, o filme de Silvia Maturana, Marcel Gonnet Wainmayer e Pablo Navarro Espejo (este um ex-membro do TIT) evoca uma faceta curiosa da resistência na Argentina. O TIT afrontava a caretice do regime militar fazendo teatro-agitação e vivendo uma vida conforme os mesmos princípios – leia-se orgias, drogas e teatralização em tempo integral. Como método, muito Artaud e a proposta anedótica de unir Stalin a Stanislawski.
Há bons materiais de arquivo, como imagens do episódio da Praça da República e cenas de um filme experimental-psicodélico feito pelo grupo com o título de A Eucaristia Segundo Juan Uviedo. Já as poucas vinhetas encenadas não se encaixam bem na linguagem do filme. O roteiro também falha em não explicar como Uviedo foi parar em São Tomé das Letras e assumido sua faceta xamânica. O mais interessante em El Provocador é desvendar mais esse estranho vínculo entre Brasil e os hermanos argentinos. Num chiste que faz sentido, o doc se apresenta como o “primeiro filme en portuñol”. Pode não ser o primeiro, mas é um dos que melhor exprimem essas surpreendentes relações. E não só entre gentes dos dois países, mas também entre arte, política, esoterismo e modos de vida pouco convencionais. Juan Oviedo lembra um Zé Celso em tom menor que houvesse optado pelo exílio.
El Provocador foi selecionado para o Panorama do BAFICI – Festival de Cinema Independente de Buenos Aires. Foi inscrito também em festivais brasileiros e deve aparecer ao longo do ano em alguma sala perto de você.
Minha resposta a Filipe Furtado
março 26th, 2011 § 5 Comentários
A discussão sobre o jovem cinema brasileiro, deflagada pelos artigos de Felipe Bragança e meu em O Globo, foi retomada no blog Anotações de um Cinéfilo, do crítico Filipe Furtado. Para quem não andou por lá, segue abaixo minha resposta ao post do Filipe:
Parabéns, Filipe, pela pachorra em esmiuçar os subtextos dos dois textos. Não me importo de ser visto como crítico careta se isso significa de fato assumir uma atitude crítica perante filmes e textos correlatos. Apenas não gostaria de me ver reduzido a porta-voz deste ou daquele cinema que passa por “oficial”. Meu gosto e meus critérios são nutridos por cinefilia, honestidade comigo mesmo e amor pelas muitas acepções da beleza. Por isso é que, ao lado de alguns filmes do Salles e do Meirelles, também exalto “Serras da Desordem”, “Jogo de Cena”, “Santiago”, “Lavoura Arcaica”, “Sudoeste”, “Morro do Céu”, “Recife Frio”, “Os Famosos e os Duendes da Morte” (desculpe), “A Alma do Osso”, “Acidente”, “Nome Próprio”, “Árido Movie” e “Amarelo Manga” como alguns dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos, apenas para citar os que me lembro agora. São obras muito distintas entre si, de procedências as mais diversas, mas que têm em comum uma potência, uma integração de meios e propostas de diálogo com o espectador que me tocam e me interessam de maneira especial.
De resto, não tenho nenhum interesse em projetar uma imagem de mim mesmo através das minhas escolhas. Não pertenço a nenhum grupo, embora não tenha nada contra grupos, ao menos enquanto eles não se tornam “corpos” para comunhão de gostos e interesses.
Esse debate tem trazido à tona uma série de saudáveis revelações, além de necessárias afinações de discurso, de parte a parte. Bacana que o seu blog venha repercutir, prolongar e aprofundar essa conversa.
P.S. Muito curioso ver, entre os comentários ao post do Filipe, um de Felipe Bragança afirmando, seis dias depois, que não leu meu artigo em resposta ao dele. Que coisa, hein?!
Emoções nuas
março 25th, 2011 § 3 Comentários
É chato elogiar publicamente o trabalho de irmão. Mas quando se tem uma meia-irmã como Monique Gardenberg, às vezes não dá pra evitar. Monique é fera em tudo o que faz: produção de música e de festivais, direção de filmes, programas de TV, shows, peças de teatro. Ela sabe que não curto muito Ó Paí, Ó, mas respeito a sua inserção no imaginário da cultura de massa brasileira.
No teatro, especialmente, Monique tem dado mostras de um saudável desenraizamento nos textos que escolhe ou aceita dirigir. Os Sete Afluentes do Rio Ota foi um atrevimento que, a meu ver, valeu cada minuto – e eram muitos numa peça de 5 horas de duração – e marcou a chegada de uma encenadora potente. Agora, depois do ótimo Baque (texto de Neil Labute) e de Um Dia, no Verão (que não vi), Monique volta ao palco carioca com Inverno da Luz Vermelha, depois de seis semanas em São Paulo.
A peça do americano Adam Rapp põe em cena dois amigos e uma jovem prostituta num quarto de hotel em Amsterdã. Em torno da moça, uma nebulosa relação se estabelece entre os dois rapazes, de temperamentos muito diferentes. Os três voltarão a se reunir – não mais simultaneamente – um ano depois num pequeno apartamento de São Paulo, quando os ecos do encontro anterior vão assumir sentidos inesperados.
O espetáculo começa frágil, talvez um pouco convencional demais. Mas mesmo isso vai se justificar à medida que os personagens vão definindo seus contornos e as carências de cada um vão se manifestando, seja através da ternura ou da violência. A progressão dramática é impecável, com base nos desempenhos bastante viscerais de Rafael Primot, André Frateschi e Marjorie Estiano (os dois últimos têm oportunidade de se exibir como cantores que também são). Uma leve metalinguagem se insinua, apenas para realçar o caráter de “encenação” assumido pelos personagens.
Monique fez opções muito interessantes: pequenas adaptações a referências brasileiras, paredes apenas insinuadas, um falso intervalo belíssimo em que os contrarregras mudam o cenário ao som de Tom Waits. Tudo muito simples no aparato cênico, deixando toda a ênfase nos atores e no texto, um strip tease emocional que mexe tanto com a plateia como com o elenco.
Desculpem o merchandising familiar, mas vale a pena ir ao Glaucio Gill. A montagem fica em cartaz somente por mais três finais de semana.
A preparadora
março 23rd, 2011 § Deixe um comentário
Desde que Fátima Toledo preparou o elenco infantil de Pixote (1980), os paradigmas de interpretação no cinema basileiro não foram mais os mesmos. Depois vieram Central do Brasil, Boleiros, Eu Tu Eles, Cidade de Deus, O Céu de Suely, Mutum e os dois Tropa de Elite, para citar apenas os mais famosos. O item preparação de atores virou necessidade, luxo ou, para alguns, uma praga. Porque Fátima dispensa macetes técnicos e mesmo a palavra “interpretação”, preferindo escavar no corpo e nas emoções dos atores até encontrar a seiva humana que servirá aos personagens. Não atuar, mas sim participar de verdade daquele universo passageiro que se estabelece para a obra.
Nem todo mundo acha que isso substitui o talento e a técnica. Outros acham que a preparação soma a essas outras virtudes. Os resultados do cinema, a meu ver, dão razão a esses últimos.
Muito eu já tinha lido e ouvido falar do famoso método Fátima Toledo, mas ainda não a tinha visto em ação para além de fragmentos de making ofs. Saciei em parte a curiosidade com o novo documentário de Evaldo Mocarzel, em finalização. O Ego e a Alma – Fátima Toledo é um insight penetrante no trabalho de Fátima a partir de exercícios praticados em seu estúdio, em São Paulo, com jovens atores que participariam, logo depois, da filmagem do segundo curta dirigido por ela, Os Cantos de Ceci, com roteiro dela e de Evaldo. O título do doc se refere a um dos bordões de Fátima: “Quanto menor o ego, maior a alma”.
No doc, temos acesso às palavras e às feições de uma mulher forte, um tanto apocalíptica, comedida e ao mesmo tempo muito convicta de que sua intensidade pessoal pode acender centelhas nos atores. Assistimos a uma série de “cenas” em que os alunos se provocam, atritam, friccionam, humilham, digladiam, esbofeteiam, enquanto a preparadora ora os estimula, ora parece confortá-los. Ao contrário do que eu imaginava, Fátima não se mantém sempre alheia ao que incita, mas também pode mergulhar junto num pico de emoção.
Se esse recorte de um único trabalho, em condições quase caseiras, é capaz de dimensionar o alcance do método de Fátima, isso é coisa que não posso afirmar. Segundo Evaldo, ela reconheceu-se no filme e o tem exibido em sua escola. Da versão completa com pouco mais de uma hora de duração Evaldo vai retirar uma edição de 25 minutos para a faixa Retratos Brasileiros do Canal Brasil. De uma maneira ou de outra, em breve você vai conhecer Fátima Toledo como nunca viu antes.
Os faróis de José Joffily
março 22nd, 2011 § Deixe um comentário
“Um filme narrado por um morto sempre será interessante. E o oportunismo é um ótimo tema para se falar. Não pertence à categoria dos grandes temas, como inveja, ciúme ou ambição, mas todos nós temos um pouco de Joe Gillis e Norma Desmond. É o melhor filme que já vi sobre este singelo sentimento”.
Isto é José Joffily falando sobre Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder. Conheça os filmes-faróis do diretor de Olhos Azuis no blog Faróis do Cinema.
Sérgio Borges defende convicções estéticas
março 21st, 2011 § 2 Comentários
Ainda um comentário que vale destacar no debate deflagrado aqui em torno do jovem cinema brasileiro. Dessa vez, é o cineasta mineiro Sérgio Borges, que dirigiu O Céu sobre os Ombros, eleito melhor filme do último Festival de Brasília:
Carlos,
Acho a sua posição importante.
Realmente os jovens realizadores brasileiros, dito autorais, tem que ter a percepção de que, se existe um cenário por aqui que traz singularidades e até novidades, esse cenário é incipiente, heterogêneo e precisa ser desenvolvido sem oba-oba e sem a vaidade ser maior do que os resultados (os filmes).
Apesar de ter realizado meu primeiro curta em 1998 (não sou tão novato assim), nenhum deles teve um destaque que chegasse perto do que O Céu sobre os Ombros, meu primeiro longa conseguiu. Então, a minha relação com a crítica, com os olhares sobre o meu trabalho é bem recente.
Vejo com interesse e curiosidade as reações adversas que começaram a ocorrer, de questionamento ao “novíssimo cinema brasileiro” (termo associado às produções como as do meu filme) desde Brasília, quando parece que uma instituição mais “relevante” legitimou essa produção. Talvez os questionamentos fossem anteriores, e essa impressão só tenha me acontecido, porque foi a partir daí que eu me envolvi. Mas acho que só começaram a relativizar a importância desse grupo de filmes/geração/movimento quando a imprensa/mídia/crítica/público mais ampla, menos guetificada passou a levar em conta que esses filmes existiam. Então, pra começar, esses filmes, essa geração, já estava produzindo antes, e exibindo seus filmes antes. Foram vocês (te coloco no meio disso Carlos) que passaram a dar mais importância (no meu modo de ver, merecidamente) para essa produção. Foi algo natural, a acredito que assim o foi, pela relevância dos filmes. Foi uma conquista dos filmes, e não uma estratégia obscura de seus realizadores.
Daqui do meu lugar, Belo horizonte, fazendo parte de um coletivo de realizadores, a TEIA, que completa 10 anos de existência no fim do ano, vejo a repercussão positiva desse cinema (feito com equipes menores e com menos hierarquias, feito de forma mais barata, feito a partir da fricção entre real e ficção, feito sem seguir a lógica narrativa hegemônica, etc…) com muito entusiasmo. O meu desejo de fazer filmes ia além da impossibilidade que o sistema de produção brasileira me indicava. Fui favorecido pelo surgimento das ilhas de edição caseiras e das câmeras digitais. Fiquei realmente confortado quando me dei conta de que em outros estados brasileiros (Ceará, Pernambuco, Rio, São Paulo, Paraíba…) haviam outras pessoas e grupos produzindo como a gente aqui. E ainda mais pertencente a uma geração, quando me dei conta que esse fenômeno é mundial. Que nas Filipinas, na Coréia, Portugal, Argentina, México, Chile, Tailândia, Romênia, e por aí vai, surgiam esquemas de produção e formas narrativas diversas da hegemônica, que ganhavam legitimidade e melhor, chegavam até mim. Acho que mais do que tudo, uma nova voz surgiu na cena audiovisual brasileira. Não acho que essa voz queira ser considerada genial, mavericks inventivos, muito menos queira desmerecer outros realizadores e outras formas de narração. Essa voz quer contar que também está presente no cinema brasileiro, que é possível fazer filmes dentro de um outro sistema, com outra lógica. Essa voz quer dizer também que ela não é um grito solitário no deserto. Daí talvez venha a importância de se dizer de afetividade, vida, rede. Não sei se você se dá conta Carlos, de quão especial é termos pares nessa vida no pequeno mundo do cinema brasileiro. E o cinema? Talvez, em uma análise mais contundente, realmente não sejam muito os filmes que se sustentem para gregos e troianos. Mas me parece novo, o fato de termos algumas dezenas de jovens realizadores ao menos esboçando algo interessante. Ainda mais se levarmos em conta que a grande maioria está fazendo seu primeiro longa. Acho que esse é o ponto a ser valorizado. Inclusive porque essa produção é diversa.
Percebi que vc tem um questionamento sobre a forma narrativa dos filmes tb (sobre a homogeneidade desss forma nesse grupo – um questionamento muito justo, diga-se de passagem) Particularmente acredito que o potencial expressivo do audiovisual é muito maior do que a forma (cinema industrial americano/telenovela brasileira) que o cinema brasileiro em sua enorme maioria produziu pós cinema novo. Os filmes que mais me comovem, transformam, reformam passam por uma relação mais complexa filme/espectador, com mais lacunas, para espectadores mais ativos. Apesar, disso, sei dar o devido valor a filmes que “contam uma história” de forma mais convencional. É preciso acreditar no filme que se vê. o cinema tem como característica expressiva se confundir com a vida, para quem o assiste. Hoje em dia, é difícil para mim acreditar em certos filmes, em ter essa relação. Vejo muitas vezes pequenos teatros feitos a partir de textos de roteiristas querendo trazer uma mensagem (humanista, ou moral, ou revolucionária, não importa) e não acredito neles. Mas isso é o meu caso, o meu olhar. E acho que exibir esses filmes para públicos diversos faz parte de um trabalho de longo prazo para formar público para o cinema, visto que a formação audiovisual brasileira vem da TV e de sua lógica de consumo. Não subestimo o público e tenho visto ótimos resultados, ao menos com o meu filme. Daqui a um ano saberei ainda mais. Mas tenho que ter noção do potencial de público do meu filme, e sei que é segmentado. Mas é curioso, porque acredito muito que o potêncial de público do Céu sobre os Ombros é maior que o circuito de festivais. E acho que as salas de shoppings já tem um público viciado. Sonho com outros circuitos de exibição no Brasil (universitário, Cine Mais Cultura), mas ainda acho que se meu filme for visto por 10 mil pessoas no cinema, o custo benefício (já que ele custou 150 mil) será melhor que o de um filme de 4 milhões visto por 200 mil pessoas. Eu tenho feito um esforço político e me mobilizando para criar condições de filmes “menores” poderem ser realizados e exibidos no Brasil.
De forma nenhuma acredito em autocontentamento com filmes baratos e sem rumo. Acho o “sem rumo” maldade (ou falta de sensibilidade) de sua parte com vários filmes. Não quero pertencer ao gueto do barato e autoral, mas não vou abandonar minhas convicções estéticas pelo sucesso no mercado. Fico realmente feliz em ver você ou o Sílvio Da Rin em um debate de jovens realizadores domingo de tarde no Rio. Mas fico com a impressão que para vcs, ainda somos um bando de amadores que precisam dar um salto de qualidade (como o Sílvio disse). Acho que não é bem assim. Quanto a jovem crítica, a minha impressão é de que ela dispõe de mais subsídios para ver os filmes, e não está formando uma panelinha que legitima esses filmes. Fábio Andrade é persona não grata de muitos realizadores, por exemplo, por criticar os filmes. Eu inclusive acho que muitas vezes eles pegam pesado demais e são muito pouco generosos com os filmes. Não acho que paternalismo seja bom, mas acho legal incentivar os novos realizadores apontando possíveis virtudes.
O seu olhar sobre essa cena me faz perceber que, se queremos nos dizer partícipes da cena cinematográfica brasileira, temos que responder sim a todos, e não só a nossos pares. Acho realmente saudável a sua crítica. Acho que entre esses novos realizadores, existe algo que os une, mas também cada filme e cada realizador deve responder por seus filmes e suas palavras. Acho que não estamos mesmo com essa bola toda. Mas estamos participando do jogo sim. Com direito a opiniões, críticas, e com muita gente querendo nos assistir. Não vi evasão de sala no meu filme, e acho Pacific um filme incrível, mesmo com grande evasão de público. É bom entender se há um erro de modulação nessa nova voz. Sua crítica me faz pensar nisso. Grande abraço.
Sérgio Borges
Minha resposta:
Caro Sergio, obrigado por participar dessa conversa. Apesar de uma ou outra discordância em relação ao peso das palavras, acho que pensamos o mesmo. A exaustão da narrativa convencional leva a uma cada vez mais difícil originalidade, embora eu não veja em nenhum tipo de cinema algo em que se deva “acreditar”. Algo de muito importante está ocorrendo nessa nova cena do cinema brasileiro, o que não significa que viramos uma página na história. E mesmo esses filmes “pequenos”, “livres” e descompromissados com o Mercado precisam estabelecer certos níveis de diálogo para não caírem no autismo. Estamos de acordo em tudo isso.
Quando resolvi responder ao artigo do Felipe Bragança, foi justamente por incidir sobre o leitor médio da grande imprensa, que vem recebendo uma visão pouco apurada dessa cena cinematográfica. São informações soltas, rasas, que geram mais preconceito que um germe de aceitação. Brados de vitória e manifestações de desprezo pelo passado recente tampouco contribuem para o entendimento da riqueza impura do momento.
Espero em breve rever O Céu sobre os Ombros para rever a impressão bastante ambígua que tive numa primeira visão em Tiradentes.
Um abraço e volte sempre
Carlos
Fábio Andrade: “Não há silêncio”
março 21st, 2011 § Deixe um comentário
Entre os muitos comentários ao meu texto Menos silêncio, por favor, aqui está mais um que justifica um realce especial no blog. É do crítico Fábrio Andrade, da Revista Cinética:
“Carlinhos, antes de mais nada acho bacana te ver entrar nessa discussão. Compartilho essa impressão de que há um certo desespero por afirmação em parte dessa geração, algo até certo ponto natural, bastante rapidamente comprado pela imprensa (a necessidade de gerar pautas é prato cheio pros manifestos, pra exaltação dos coletivos, etc, etc), mas que muitas vezes atrapalha no contato com os filmes, que é o que realmente me interessa.
Só acho complicado quando você diz que há silêncio sobre esses filmes, porque cria a impressão de um consenso que eu nunca vi existir. Porque pra isso é preciso desconsiderar (e digo não como algo inválido, mas como algo que em tese não existe) as coberturas feitas pela Cinética, pela Filmes Polvo e por um cara como o Sérgio Alpendre, por exemplo, de vários festivais onde esses filmes são exibidos. Porque se você for olhar os textos que respondem e questionam esses filmes, verá que há enfrentamentos frontais e diretos, sem que a crítica se furte de aquiescer quando percebe que um caminho interessante surge nos filmes.
A Cinética, que eu conheço melhor por razões óbvias, têm críticas bastante duras aos dois últimos filmes do Felipe Bragança e da Marina Meliande, embora o Felipe já tenha participado da revista. E não é caso isolado: os dois filmes do Gabriel Mascaro, o “Casa de Sandro” do Gustavo Beck, “Estrada para Ythaca” e diversos curtas brasileiros já suscitaram posições bem firmes na revista, basicamente porque acredito que a firmeza é necessária em todo trabalho crítico, com filmes brasileiros ou não. E digo isso com bastante tranquilidade, porque fui eu mesmo quem escreveu essas críticas e não só sei que elas existem e estão disponíveis para serem lidas, como elas geraram respostas e debates entre as partes envolvidas. São críticas, inclusive, que usam abertamente palavras como “arte” e “autoria”, conceitos que estão muito longe de serem abandonados pela crítica em nome de outros conceitos, como você indica.
Acho que textos como o seu dependem mesmo de algumas generalizações pra que a pulsão inicial deles seja transmitida, mas para que a coisa não se perca nos manifestos – dos cineastas e dos críticos – e na simples tomada de posição (algo necessário, mas que eu julgo bastante infrutífero quando não sai de si), é preciso que algumas correções de foco e de argumentação sejam feitas para que a conversa não se esvazie na convivência de monólogos. É preciso, no fim das contas, pensar que o tal “novíssimo cinema” é composto de filmes específicos e que a tal “jovem crítica” traz um conjunto de textos e pensamentos. Sugiro alguns textos pra você ver que o silêncio, se é que já existiu (tenho minhas dúvidas), já foi quebrado há muito tempo:
http://www.revistacinetica.com.br/aberturasemana.htm
http://www.revistacinetica.com.br/aalegria.htm
http://www.revistacinetica.com.br/lugaraosol.htm
http://www.revistacinetica.com.br/brasiliaformosa.htm
http://revistacinetica.com.br/tiradentes11dia9.htm
http://www.revistacinetica.com.br/tiradentes10dia5.htm
http://www.revistacinetica.com.br/tiradentes09curtas.htm
Fábio Andrade
Minha resposta:
Obrigado, Fábio, por fazer essa importante ressalva no âmbito de atuação da Cinética. Tenho acompanhado com grande interesse os seus textos, sempre preocupados em encontrar a medida certa para lidar com as oscilações da produção contemporânea. Mas a minha denúncia do “silêncio” diz respeito não especificamente a este ou àquele veículo de crítica, mas a algo que está além dessa trincheira e se evidencia na imposição de um certo mito do filme barato/coletivo/não-narrativo que precisa ser tratado como instrumento de uma afirmação política em lugar de obra exposta aos riscos de algum nicho de mercado. Falo de uma visão crítica que esteja além dos textos críticos, operando seja no dia-a-dia das relações interpessoais, seja no espectro maior de uma atuação política. Falo de um “silêncio” talvez para aguçar os ouvidos para as vozes dissonantes que já existem.
Filmes são incontornáveis
março 21st, 2011 § Deixe um comentário
Faço aqui mais algumas considerações sobre o jovem cinema brasileiro em resposta à carta-comentário de Cezar Migliorin:
Caro amigo Cezar
Obrigado por tomar seu tempo com o comentário aqui no blog. Sua participação é um luxo. Por várias vezes já estivemos juntos em discussões sobre “esse cinema”. Posso até usá-lo como testemunha do meu apreço por muitos filmes dessa nova cena. Três dos quatro filmes sobre os quais você tem se debruçado são obras que admiro enormemente, tendo já me manifestado sobre elas em textos e debates (ainda preciso rever O Céu sobre os Ombros para firmar uma impressão).
Meu texto Menos silêncio, por favor tinha claramente uma função política, na medida em que a crítica é uma forma de política. Mas, nesse caso, foi ainda um pouquinho mais, já que se tratava de colocar alguma dúvida frente a um concerto de ações políticas que pretendem determinar uma certa maneira de produzir e consumir cinema como a única que importa e tem valor.
Longe de mim negar a importância das ações que se prestam a reivindicar e legimitar um lugar para os filmes pós-industriais. Estar contra isso seria como ficar contra a correnteza inevitável da cultura hoje. O que me indispõe é a intolerância e a arrogância que às vezes nutrem essas argumentações. Para fazer face a esse tsunami teórico, tive que saltar do bonde das considerações de conjunto para o chão mesmo das obras. Ao fim e ao cabo, é com elas que me relaciono. É com elas que se relaciona um público não necessariamente ligado nas mesmas “agendas”. Não vejo como contornar essa evidência, ainda que esse tipo de recepção cause desdém a alguns arautos da nova cena.
O que denunciei, de fato, foi o vácuo entre as tais considerações de conjunto e o específico das obras, ou pelo menos de grande parte delas. Mas meus alvos não são os filmes, e sim o oba-oba, o denuncismo e a mistificação. Já andaram me cobrando “dar nomes aos bois”, mas meu intuito não é negar este ou aquele filme, nem pôr em xeque este ou aquele realizador. Nas críticas de filmes, posso até chegar mais perto disso, mas não nessa discussão de caráter mais geral. Minhas restrições aos filmes visam aqui uma crítica a certas atitudes.
Quando falo em movimento, levo em consideração o fato de que o termo “movimento” também se modernizou, não significando mais as ações coesas e uníssonas de antes, mas sim esses “movimentos” acentrados, multiplataforma, mas que também resultam na formação de consensos e na substituição de valores. Nesse sentido, vejo, sim, um movimento na similitude de conceitos, referências e ações micropolíticas com que “esse cinema”, muito justificadamente, procura se legitimar. Mas não acho que uma visão crítica do momento se faça apenas com a escolha de filmes especiais para formação de uma agenda positiva.
Por fim, quanto a qualidade e autoria. Não creio que devamos ceder ao sequestro pela Globo da noção de qualidade. Nela não cabe apenas, como você bem sabe, os padrões médios de consumo, mas também a busca da ideia relevante, da forma compatível e da ruptura significativa. Já o questionamento da figura do autor, por mais problematizado e repartido que este seja no cinema, soa-me mais como uma tergiversação à la mode que como uma postura profundamente assumida, mesmo no âmbito dos jovens cineastas. Mas isso já é assunto para outra conversa.
Continuo atento a suas colocações e aprendendo criticamente com elas.
Um grande abraço
Carlinhos
Cezar Migliorin destaca as redes
março 20th, 2011 § Deixe um comentário
Pelo teor e extensão, destaco abaixo o comentário do cineasta, artista, crítico e professor Cezar Migliorin a respeito do meu artigo Menos silêncio, por favor.
Salve meu amigo,
Visto a carapuça. Tenho apontado para esse cinema como algo importante no Brasil hoje. Me dediquei mais longamente a apenas quatro filmes; Avenida Brasilia Formosa, Pacific, Sábado à Noite e O Céu Sobre os Ombros. Acho os três especialmente tocantes pelas formas que abordam as cidades, a pobreza, as disputas com a cultura de massa e a própria relação do cinema com as formas de vida. Mas, quando trabalhei com cada um desses filmes fiz o esforço de não fazer a passagem entre as obras e um “novo movimento”. Os diálogos dessas obras é complexo. Serras da desordem e Moscou estão próximos, mas também um corte eventualmente ligado ao melodrama, os filme-dispositivo, o documentário moderno e toda crise do lugar do realizador que nunca mais resolveremos – felizmente. Digo isso porque me parece extremamente complicado, diante do que temos visto – com os filmes que citas ou que estão implícitos no texto – que façamos um julgamento desse cinema baseado em uma análise das obras; o que não quer dizer que elas não interessem, pelo contrário.
Temo que tua leitura caia na mesma armadilha da do Felipe. Esses filmes, se desejarmos pensar o conjunto, não podem ser julgados sem que consideremos as redes para as quais eles apontam e mobilizam. Ou seja, metodologicamente meu esforço tem sido partir da obra e dela fazer as conexões necessárias para a reflexão ou partir da rede à qual os filmes fazem parte. Quando parto da obra, percebo que são filmes que fazem parte da história do cinema, com eventuais singularidades, é claro. A indistinção entre documentário e ficção, por exemplo, ganha novos traços. A performatividade, como você chamou atenção em Tiradentes, também, assim como uma relação com história do cinema que, nesses filmes que trabalhei mais a fundo, não é nada ingênua. Mas, quando parto da rede e das condições de possibilidade para que essa eventuais traços estéticos surjam, percebo que estamos diante de algo forte e singular.
Uma singularidade que tem nos forçado a pensar novas estratégia de mercado, novas formas de atuação do estado, novos tipos de licença para proteção da propriedade intelectual, novas formas de relação com a universidade, novas formas de fomento e incentivo ao acesso, etc. Perceba. Se não fossem os filmes, em suas heterogeneidades e qualidades diversas e não consensuais – nós mesmo em Tiradentes discordamos sobre determinados filmes – esse movimento que hoje mobiliza bem mais do que uma patota e festivais que não são tão irrelevantes assim, não estaria acontecendo.
A rede que tenciona a distribuição, as formas de acesso, os festivais, as políticas públicas, a universidade, a crítica e é recheada de inquietações estéticas, é mobilizada por algo que está nos filmes, não é pouca coisa.
Não se trata assim de um movimento, como se houvesse um conjunto relativamente fechado, como nos tantos movimentos que conhecemos na história do cinema, nesses caso, acho que essa noção não faz muito sentido. Trata-se de uma outra lógica, acentrada, dispersa, que hoje está focada em alguns diretores e no ano que vem em outros ou outras cidades. Sim, talvez seja uma geração, uma geração que soube inventar meios de fazer do cinema um modo de vida fora do eixo Rio-São Paulo – mas nele também, como v. chama atenção -, fora das amarras da indústria mas, mas encontrando seus espaços, fazendo uso e inventado redes econômicas, afetivas, criativas e, claro, de legitimação. Diria então: estamos diante de imagens que tem força suficiente para nos revelar a potência e a singularidade dessas redes que incluem os filmes e suas criações. Isso já é, em si, motivo de entusiasmo, mas também é pouco para uma leitura histórica, panorâmica. Nesse sentido, torna-se problemático deslocar para toda uma rede aquilo que se pode encontrar no específico; infantilismo, pretensão, etc.
Há um ponto no teu texto que é um desafio para nós. Quando falas do patrulhamento semântico que nega “arte”, “qualidade” e “autoria”, optando por termos menos palpáveis como “vida”, “afeto”, “fluxos” e “lugar”. Primeiramente, acho patrulhamento forte, entretanto, duas colocações me parecem fundamentais. O primeiro é referente às obras mesmo. O fato desses outros termos ocuparem a cena, alguns marcadamente pós-estruturalistas, não fala da necessidade de nos relacionarmos com outros campos do pensamento para falarmos dos filmes? É claro que essa utilização pode ser caricata, mas, novamente, faria o esforço de não ver no particular um retrato do todo. O outro ponto é ainda mais problemático. Estamos dispostos a lutar pela noção de qualidade no cinema com a Globo e um certo cinema em que a “qualidade” se auto-justifica? Estamos dispostos a lutar pela noção de autoria? Com que ganho? Novamente, nos filmes que citei acima, tal noção não se faz sem problema. Ainda, quando por todos os lados, a palavra de ordem é crie, eu entendo perfeitamente que falar em arte seja difícil, eu não desisti ainda, mas, sem deixar a polis de lado.
Meu abraço
Cezar Migliorin
Menos silêncio, por favor
março 19th, 2011 § 34 Comentários
(Artigo publicado hoje no caderno Prosa e Verso de O Globo)
Tentei calar-me, mas fui vencido pela necessidade de dizer duas ou três coisas a propósito e a partir do artigo de Felipe Bragança no Prosa e Verso (O Globo) de sábado passado (leia aqui). É um texto articulado e vibrante, que faz um histórico do surgimento de um novo cinema e uma nova crítica no Brasil nos últimos dez anos, concluindo com a proposta de uma agenda de realização que contemple o “erro” e o “prazer do vazio”. Filmes como “monstros maravilhosos”, para resumir.
O artigo pede para ser lido como peça política de um movimento que se auto-intitula de “reinvenção do cinema brasileiro”. Outras peças do gênero têm se posicionado em mostras, revistas eletrônicas e sessões cineclubísticas. Isso configura um movimento de fato, embora nem todos os citados se sintam como parte de um.
Que há muitas novidades por aí, não resta a menor dúvida, mas é necessário não confundir manifestos com panegíricos. Nem toda busca leva a um encontro. Existem buscas que são belas em si, outras que apenas se acomodam no pretexto da busca para não dizer nada. O texto de Felipe, como de praxe nesse microuniverso, é recheado de afirmações mais ou menos peremptórias sobre o cinema supostamente mais adequado a este ou àquele momento. Para elevar os chamados (não por Felipe) novíssimos, é necessário rebaixar os que os antecedem. Assim é que os filmes de Walter Salles aparecem reduzidos a “um cinema-de-arte bem composto” e os de Fernando Meirelles, a “explotation (sic) do imaginário urbano”.
Quando cita O Céu de Suely (do qual foi corroteirista) como um dos marcos de influência dessa nova onda, Felipe parece desconsiderar o caminho aberto por Terra Estrangeira, de Walter Salles, para o florescimento de coisas como o maravilhoso filme de Karim Aïnouz. Prefere citar nomes mais afeitos a um perfume “de invenção” para constituir uma genealogia do seu próprio êxtase.
Esse tipo de ação política tem que ser visto com desconfiança. Que mais não seja, pela distância gigantesca entre a qualidade dos textos e a qualidade de grande parte dos filmes em que eles almejam se concretizar. É preciso desmontar o pacto de silêncio e levantar a redoma das meias-palavras a respeito do que se tem visto nas telas. Este é um texto bem pessoal, mas estou levando em conta também uma percepção do que ouço ao redor, muitas vezes em tom de cochicho para não ferir os amigos e admiradores.
Reconheço uma potência de enunciação e um desejo real de comunicação em certos realizadores e filmes pernambucanos. Os recentes longas da turma da Alumbramento (Ceará) trazem uma simpatia e uma busca estética a suprir parte do enorme vazio que ocupa o seu centro. Alguns mineiros têm seu charme e propõem radicalidades embasadas em talento plástico e escolhas bem definidas. Mas, afora isso, são poucos os filmes aptos a ultrapassar o filó de uma certa patota e a curiosidade prospectiva de alguns festivais internacionais.
Na Mostra de Tiradentes, frequentemente citada como “prova” de sucesso, afora os convidados, ver filmes na tenda é um programa gratuito e atraente para o público que aflui à cidade, sobretudo nos fins de semana. Mas, sem contar as comuns debandadas em meio à projeção, muita gente sai rindo dos filmes e fazendo comentários bem distantes do que os seus diretores gostariam de ouvir. Em muitos casos, eu dou razão a quem abandona a tenda muito antes do filme terminar, avassalados pelo tédio ou a perplexidade.
Por mais que me interesse pelo que vem sendo feito pela geração “novíssima”, não posso compactuar com a rede de proteção estendida sobre ela e por ela mesma. Em boa medida, há uma síndrome de autocontentamento com o filme barato e sem rumo. Uma espécie de masturbação recíproca coletiva acompanha os intercâmbios de talentos entre grupos e estados da federação. Uma permuta de legitimações ocupa o lugar de uma real aproximação crítica dos filmes.
Os rebentos cariocas que conheço são particularmente ineptos – e não é à toa que os filmes mais interessantes a chegarem brevemente aos cinemas sejam de dois cineastas um pouco mais velhos e à margem dessa celebração: Eduardo Nunes com Sudoeste e Eryk Rocha com Transeunte – além de um ligado à órbita da produtora Cavídeo, frequentemente “esquecida” nesse tipo de balanço, que é Gustavo Pizzi com Riscado.
Por sua vez, as realizações dos críticos-cineastas, praticamente sem exceção, têm naufragado num misto de pretensão, infantilismo intelectual, umbiguismo cool e referencialismo blasé. Elas somam a um panorama de cinefilia e filosofia mal digeridas, transformadas em filmes abúlicos.
Há marcas insistentes de um ressentimento com relação a um cinema narrativo e humanista, assim como à crítica que o valoriza ou tolera. Um patrulhamento semântico bombardeia conceitos como “arte”, “qualidade” e “autoria”, trocando-o por termos menos palpáveis como “vida”, “afeto”, “fluxos” e “lugar”. No entanto, os filmes em si demonstram que uma real inovação não se faz apenas com mudança de vocabulário e elogios em circuito fechado.
Minha experiência pessoal e minhas observações ao redor, entre jovens cinéfilos e cultuados mavericks da invenção, é de que, resguardadas as exceções, as manifestações verbais têm soado mais vistosas e articuladas que as imagens e sons atirados, a custo baixo e em mão única, no retângulo da tela.
Este texto não pretende ser um contramanifesto, muito menos um ataque indiscriminado a certo jovem cinema brasileiro. Quer ser antes uma tentativa de jogar alguma dúvida e relativização num tipo de discurso que aspira à hegemonia.
Esqueça o original
março 17th, 2011 § 1 Comentário
Uma discussão bastante envelhecida ocupa o centro de Cópia Fiel. Até que ponto a aura das obras originais lhes garante um lugar de superioridade em relação a suas cópias, sobretudo às boas cópias? Qual o valor da originalidade quando ela não é percebida como tal ou quando é atribuída a uma mera cópia? O que mais importa, a proveniência da obra ou o prazer que ela proporciona? Livros e textos sobre isso dariam para encher uma biblioteca das grandes. Os pós-modernos tinham aí uma de suas razões de ser. A dramaturga brasileira Celina Sodré tem uma tese sobre o “segundo original”, em que defende a importância das recriações que relançam o potencial do primeiro original. Enfim, não é de hoje que esse debate vem se estendendo, sendo o cinema uma câmara de eco quando trabalha os limites entre autenticidade e simulação.
Abbas Kiarostami é um dos mais ricos expoentes desse momento do cinema, em filmes seminais como Close Up, Através das Oliveiras, Ten e Shirin. Em Cópia Fiel, ele traz a discussão para a boca dos personagens, o que, a meu ver, não produz um avanço em sua dramaturgia. Pelo contrário, as conversas entre Juliette Binoche e o barítono William Shimell trazem um ranço didático e reiterativo que parece insistir: “é sobre isso que o filme está falando”. Ademais, é preciso admitir que muitos dos tópicos discutidos, principalmente na primeira metade do filme, soam como se saídos de um livro de banalização do tema – o que deve ser mesmo o tal livro lançado pelo personagem. O problema é que essa banalização não é mostrada com viés irônico ou crítico, mas como a espinha intelectual do filme.
A partir do momento em que Juliette (a personagem feminina sem nome) dialoga com a mulher do café, a trama se volta para o casal e dispara um mecanismo a que estamos mais acostumados nos filmes de Kiarostami. A confusão entre realidade e encenação se projeta sobre a relação dos personagens num jogo de cena que pode lembrar os Resnais dos anos 1960, sobretudo O Ano Passado em Marienbad e Hiroshima Mon Amour. Juliette e o escritor introjetam um no outro memórias de um (suposto?) casamento dos dois, levando a coisa ao ponto de a aparente brincadeira despertar emoções (supostamente?) reais.
Toda a coisa se dá num périplo através de ruas e estradas da Toscana, pátria do Renascimento, que por sua vez deu origem ao pensamento moderno nas artes, na filosofia e na ciência. Cheio de referências à arte renascentista e a seus ecos, o filme parece fugir ao repertório habitual de Kiarostami. Mas, em termos de construção cênica, a identidade está patente nas longas discussões entre os personagens, no recurso ao deslocamento constante e, sobretudo, na maneira como o registro desliza da veracidade naturalista para uma representação meio brechtiana e vice-versa.
O título brasileiro traz uma vantagem sobre o original Copie Conforme por aludir à questão da fidelidade, central para o subtema do filme, que é o casal. A Toscana hoje é mais lembrada como cenário de comédias românticas do que como a terra de Giotto e dos Medici. Nos fins de semana, as praças de suas cidades ficam coalhadas de casais de noivos exibindo sua felicidade. Kiarostami lança um olhar de carinho e dúvida sobre essa ilusão romântica, contando até mesmo com Jean-Claude Carrière para ajudá-lo como ator numa sequência plena de artificialismo. A “originalidade” de um amor jovem pode se transformar em mera “cópia” com o passar dos anos, sem que com isso deixe de ser amor. À medida que o filme, literalmente, caminha de um debate conceitual óbvio para uma experiência lúdica de discussão da felicidade a dois, o interesse cresce e a sutileza habitual de Kiarostami se reinstala.
A registrar, ainda, como relativa novidade, a implicação direta do espectador nesse jogo. Em vários diálogos de Juliette e William, a câmera está situada frontalmente a cada personagem, fazendo com que eles se dirijam a nós. Em outros momentos, os personagens usam a câmera (e o nosso olhar) como espelho. De alguma forma, Kiarostami está nos agenciando deliberadamente para esse jogo de espelhos. Estamos ou não diante de um filme original? E que sentido tem essa pergunta, se de todo filme o que vemos é sempre uma cópia? (Agora quem soou velho fui eu).
10 questões
março 15th, 2011 § 1 Comentário
Com aspirações de constituir um balanço crítico da década, a Revista Cinética vai promover a Mostra Cinema Brasileiro Anos 2000, 10 Questões. Será nos CCBBs de SP (13 de abril a 1 de maio) e Rio (26 de abril a 8 de maio). A primeira mostra do gênero foi realizada em 2001, com 9 questões sobre o cinema brasileiro dos anos 1990. A curadoria de João Luiz Vieira, Eduardo Valente e Cléber Eduardo selecionou cerca de 60 filmes e compôs a pauta de debates que pretende discutir as linhas de força e as principais tendências do nosso cinema na década conclusa.
Desde já, as 10 questões levantadas configuram um certo depoimento (ainda que em forma de perguntas) dos curadores sobre o período. Achei interessante publicá-las aqui como um aperitivo para a mostra. São elas:
QUE PAÍS É ESSE?
Uma característica que acompanha o cinema nacional, desde as primeiras adaptações literárias afirmadoras de um caráter nacional, até o epicentro, o entorno e os desdobramentos do Cinema Novo, é a dos filmes empenhados em traçar a imagem do país em dado momento, do passado ou do presente, em busca de sintomas revelados por meio de indivíduos representativos ou grupos com sentido de panorama.
PARA ONDE VÃO NOSSOS HERÓIS?
A década foi pródiga em ficções e documentários centrados em personagens direta ou indiretamente conectados com a história brasileira, usando-os para refletir trajetórias e propor modelos de comportamento por meio de percursos (de superação ou de derrotas) com os quais se formam os “heróis brasileiros” do cinema atual.
O OUTRO: TEMER, TOLERAR OU CONHECER?
Reflexo talvez inevitável de um país com tantos contrastes internos, a produção brasileira do período nos trouxe uma enorme quantidade de filmes abertos a expor a relação entre opostos, seja pelas tentativas de aproximação, seja pelas tensões da convivência, construindo a sensação de uma alteridade quase inevitável e profundamente conflituosa.
QUAIS IMAGENS DO BRASIL LÁ FORA?
Ainda bastante frágil no contexto interno da cultura brasileira, o cinema nacional muitas vezes vai buscar fora elementos legitimadores, principalmente por meio dos maiores festivais de cinema do mundo. Aqui, tentamos pensar sobre quais imagens do cinema brasileiro foram mais circuladas, e definidoras de uma noção estrangeira do cinema produzido aqui.
QUE GÊNEROS SÃO NOSSOS?
Ao longo desses 10 anos, vimos nascer e/ou se confirmar três “gêneros” tipicamente nacionais como fonte de nossos principais sucessos de bilheteria: o filme que explora como ficção de ação (ou melodrama) a realidade violenta do país; as comédias calcadas em modelos/figuras eminentemente oriundas da TV; e, finalmente, os “filmes espíritas” (especialização da matriz do “filme religioso”). Por outro lado, outras tentativas confirmaram a pouca visibilidade com o público brasileiro de tentativas do nosso a partir de alguns outros modelos clássicos do chamado cinema de gênero.
SUBJETIVIDADE: MODO OU MODA?
O eu nunca esteve tão inflado no cinema brasileiro, em geral flagrado e construído em uma zona de conflitos, gerados por uma tensão com o mundo próximo. Essas manifestações subjetivas estão presentes na última década tanto em ficções como documentários, ora com personagens principais (invariavelmente na primeira pessoa) determinando a estética, ora com documentários nos quais o realizador se impõe como instância maior de relação com o material exibido.
DESLOCAMENTOS: PARA ONDE E POR QUE?
A década se voltou com freqüência para personagens em trânsito ou em conflito com seus lugares de existência, às vezes por conta de uma inadequação aos padrões do entorno, às vezes por uma insatisfação aparentemente intrínseca aos mesmos.
AÇÃO ENTRE AMIGOS: OPÇÃO, AFIRMAÇÃO OU NECESSIDADE?
Através da explosão e barateamento permitidos principalmente pelas várias revoluções digitais que o cinema passou na última década (como captação, mas também finalização e exibição), se fortalece a tendência de destaque de uma produção de características bastante “caseiras”, principalmente na maneira como os membros da equipe se relacionam entre si (um cinema da afetividade, de amigos). Neste contexto, as produções de três estados passaram a sobressair: Minas Gerais, Pernambuco e Ceará.
OBRA EM PROCESSO OU PROCESSO COMO OBRA?
Dispositivo e processo foram duas palavras constantemente trazidas à tona nos debates da década, seja no documentário seja na ficção – muitas vezes gerando inclusive uma produção que desafia de maneira evidente as fronteiras entre estas categorias. Em várias dessas obras a exposição de seu próprio processo de realização toma a frente na estrutura dos filmes.
O QUE PULSA ALÉM DOS LONGAS?
Se a história do cinema de um país nunca é contada apenas pelos longas que ele produz, essa realidade se tornou hiperpresente nos anos 2000, uma vez que a produção em outros formatos (principalmente os curtas) se multiplicou exponencialmente, ao mesmo tempo em que alguns autores buscaram na TV o local para realizar parte significativa de sua obra, seja em janelas tradicionais das grandes redes, seja a partir da criação de espaços na TV a cabo, se aproveitando de formatos criados dentro desta (como o DocTV ou os Retratos Brasileiros do Canal Brasil) para se manter filmando. E a internet, o que nos reserva?
Os Faróis de Carlos Adriano
março 14th, 2011 § Deixe um comentário
“Jean-Marie (Straub) e Danièle (Huillet) se conheceram em Paris em novembro de 1954 e militaram por um cinema radical e sem concessões por quase quarenta anos, numa rara combinação de modernidade estética e político engajamento. Cada filme era um manifesto civilizador para o nosso tempo. Método de ética, rigor e essência.”
Carlos Adriano fala do casal Straub-Huillet a propósito de um de seus “faróis”. Saiba mais sobre esse cineasta de invenção paulista e suas grandes admirações na área. No blog Faróis do Cinema.
Momentos culminantes
março 12th, 2011 § Deixe um comentário
Diversões para o fim de semana:
Mortes de Hitchcock
Germain Lussier, do site Ultraculture, deu-se ao trabalho de montar este mosaico com 36 cenas de morte em filmes de Hitchcock, de tal maneira que o clímax de cada uma aconteça em uníssono aos 2:05. Veja em tela grande:
Minutos de cinema
A ideia de conciliar cenas de filmes distintos foi levada a cabo de maneira aparentemente prodigiosa por Christian Marclay em The Clock. O filme dura 24 horas e se compõe de milhares de clipes que exibem relógios ou fazem menções a horas precisas, minuto a minuto. The Clock tem sido exibido em museus de Londres. Não consta que um único espectador tenha feito a façanha de assisti-lo de uma só tacada. Abaixo, uma reportagem da BBC (em inglês) sobre o trabalho:
Movimentos de maio
Este é um momento muito falado e pouco visto. Liderados por François Truffaut, realizadores da Nouvelle Vague forçam a interrupção do Festival de Cannes em maio de 1968, em solidariedade aos movimentos de estudantes e operários. O clipe tem legendas em inglês:
Perlov, entre Israel e o Brasil
março 10th, 2011 § Deixe um comentário
Se existe alguma relação entre o Brasil e o cinema israelense, ela atende por um nome e um sobrenome: David Perlov (1930-2003). O cineasta, nascido no Rio de Janeiro, crescido entre Belo Horizonte e São Paulo, estabelecido ainda jovem na Europa e depois em Tel-Aviv, foi um pioneiro desse tipo hoje comum de documentário que vê o mundo através de um prisma pessoal, familiar, intimista.
Seus famosos Diários 1973-1983, criadores de toda uma dramaturgia documental a partir das janelas de seu apartamento e da “janela” da TV, chegaram a ser exibidos no Festival do Rio de 2006 (leia aqui meu texto da época). Mas a partir de amanhã (sexta) o Instituto Moreira Salles (Rio) supre de vez uma lacuna grave na cinefilia brasileira: toda a obra de Perlov será exibida na Mostra David Perlov: Epifanias do Cotidiano. Veja aqui a programação completa.
Além dos Diários, retomados nos Diários Revisitados (1990-1999), a mostra traz pela primeira vez ao Brasil clássicos como Em Jerusalém, média de 1963 apontado como marco do moderno cinema israelense, e Biba, de 1977, retrato igualmente inovador de uma viúva da Guerra do Yom Kippur. Os docs de Perlov enfocam a vida nos kibutzin, questões do Holocausto e a política israelense, sempre a partir de uma perspectiva pessoal e independente, que se adensa especialmente nos Diários. Em seu filme-testamento, Minhas Imagens 1952-2002, ele prestou um tributo à fotografia, outra de suas grandes paixões além do cinema e da poesia. O vínculo com suas origens brasileiras foi frequentemente tematizado nos Diários.
A retrospectiva, promovida pelo Centro da Cultura Judaica, a Cinemateca Brasileira e o IMS, conta com a fina curadoria de Ilana Feldman, uma das mais inteligentes estudiosas do documentário no Brasil. Junto com Patrícia Mourão, Ilana também editou o belo catálogo da mostra. Seu texto desvenda tanto os pontos fortes da biografia de Perlov (aluno de Lasar Segall, assistente de Henri Langlois), como do seu cinema, “caracterizado pela tensão entre o público e o privado, o cotidiano e o sagrado, o poético e o político, a história coletiva do século 20 e sua fascinante jornada pessoal”.
O catálogo bilingue contém ainda textos de Alberto Dines, Paulo Emilio Salles Gomes e dos críticos, professores ou artistas Uri Klein, Dominique Bluher, Gregorio Martin Gutiérrez, Noa Steimatsky e Shuka Glotman, além de trechos de entrevistas e depoimentos do próprio cineasta. Outro destaque é uma seleção de desenhos de Perlov, sua primeira prática artística, aperfeiçoada em Paris na Escola de Belas Artes e no ateliê de Arpad Szenes e Vieira da Silva.
A programação da mostra contempla um encontro especialíssimo, no sábado, às 18h30, com Mira Perlov, viúva de David, personagem e produtora dos seus Diários, e que foi também modelo de Lasar Segall. No dia 15 (terça), às 19h30, haverá uma mesa-redonda sobre a obra de Perlov reunindo Ilana Feldman e Eduardo Escorel.
A guerra na intimidade
março 4th, 2011 § 3 Comentários
Entre os concorrentes ao Oscar de longa documental este ano, pode-se dizer que Trabalho Interno falava de perto com quem se interessa por economia e política; Lixo Extraordinário tinha apelo para os que colocam o humanismo em primeiro lugar; Exit Through the Gift Shop era o preferido dos conectados com as questões da arte contemporânea; Gasland se dirigia aos preocupados com o meio-ambiente; e Restrepo encantava quem aprecia os documentários, ponto.
O filme vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance de 2010 começa a ser exibido em pré-estreias no Rio e em São Paulo. Abaixo, o que escrevi por ocasião do último Festival do Rio:
Belisque-se de vez em quando durante a projeção de Restrepo. Belisque-se para lembrar que não está vendo um filme de ficção, desses que simulam o fragor dos combates e a tensão dos soldados. Os diretores (e cameramen) Tim Hetherington e Sebastian Junger estiveram “incorporados” (embedded) durante um ano com um jovem pelotão no Vale Korengal, o mais perigoso teatro de operações da guerra do Afeganistão, em 2007-2008. O que eles recolheram é, talvez, o retrato documental mais intimista de uma guerra jamais produzido pelo cinema.
Restrepo mostra de perto a matéria das guerras modernas. Estão lá os combates encarniçados, tiros zunindo rente aos microfones, a câmera dividida entre registrar os tiroteios e proteger-se das balas talibãs. Mas lá está também a rotina não menos desgastante da observação do inimigo, das miúdas investigações ao redor do posto avançado, das tentativas de persuasão, das difíceis relações com os afegãos num contexto de abismo cultural irremediável. As “shuras”, reuniões semanais dos soldados com os anciãos do Korengal, fornecem um insight inestimável desse lado menos espetacular do conflito, mas igualmente decisivo.
Lado a lado com os momentos de descontração e camaradagem dos jovens marines estão cenas de enorme dramaticidade, como o impacto imediato da morte de um sargento sobre o grupo. Ou a revelação do resultado de um bombardeio que deixou civis mortos em suas camas. Curtos depoimentos dos soldados durante e depois da ação comentam o dia-a-dia do pelotão e projetam uma reflexão isenta de proselitismos pacifistas ou discursos prontos sobre o Afeganistão. Restrepo recupera e examina a guerra como pura experiência moral e emocional vivida por garotos que poderiam ser nossos parentes e vizinhos.
P.S. Bom carnaval pra vocês e até depois das cinzas.
Faróis de Belmonte
março 3rd, 2011 § Deixe um comentário
“Personagens brigando contra sua própria natureza. O olhar para miudezas que revela o todo, a montagem que acelera e retarda desconstruindo o tempo e revelando os personagens. Preparação, tensão, resolução”.
Isto é José Eduardo Belmonte falando de Touro Indomável, de Martin Scorsese. Saiba mais sobre os Faróis de Belmonte no site Faróis do Cinema.







