Favela dos meus amores

A pacificação das favelas já está constituindo um segmento de atualidade no cinema carioca. Depois dos quatro curtas patrocinados pelo governo do estado e produzidos por Cacá Diegues sob o título 4 x UPP, uma nova sociologia das comunidades tem dado as caras em filmes como o doc Morro dos Prazeres¸ a comédia Vendo ou Alugo e o doc inédito Em Busca de um Lugar Comum (sobre os favela tours). Dos outros filmes que vêm sendo feitos sobre o assunto, o primeiro que conheci foi Paisagem Carioca (Vista do Morro), de Marco Antonio Pereira, ainda inédito.

A polícia não aparece nesse doc que procura analisar as novas interações entre os moradores de oito comunidades da Zona Sul, seus visitantes da classe média do asfalto e os estrangeiros que chegam para fazer turismo ou se instalar por temporadas maiores. Baseado em entrevistas e conversas com artistas, estilistas, arquitetos, comerciantes, escritores, guias turísticos, estudantes, dançarinos de passinho e uma gama de pequenos empreendedores das favelas, o filme parte do maior atrativo que se exerce sobre quem vem de fora: a vista privlegiada da cidade. Mas não só isso. Há também a noção de que lugares como o Vidigal, Santa Marta, Cantagalo, Rocinha, Chapéu Mangueira, Pavão-Pavãozinho, Morro dos Prazeres e Tavares Bastos preservam uma certa aura de fantasia para os “gringos”. São quase sucursais atualizadas do complexo de Orfeu Negro (filme de Marcel Camus). E há ainda a vantagem do custo de vida mais barato que no asfalto ou nos seus países de origem.

Paisagem Carioca começa em matiz meio celebratório, sublinhando a queda de preconceitos e o desarme de espíritos que se seguiu à instalação das UPPs. A nova realidade promoveu o empreendedorismo voltado sobretudo para as áreas de lazer, arte e serviços. Bares, restaurantes, albergues, ateliês e festas fazem o florescimento da economia local. Um dos destaques são as cabanas coloridas erguidas com refugos de madeira e vendidas a gringas entusiasmadas no Vidigal.

Mais adiante, o filme assume um tom de discussão mesmo, quando começam a se dividir os que “compram” o modelo da nova comunidade e os que o questionam. O resultado mais evidente é a progressiva transformação da favela em núcleos de classe média, na medida em que a especulação imobiliária e a carestia obrigam os menos afortunados a partir para bairros mais distantes. O escritor, professor e gestor público Adair Rocha faz algumas observações cruciais para se entender e relativizar os efeitos da pacificação. Segundo ele, a retomada de território não deve ser entendida como uma reinvenção da favela pelo estado, a mídia e o mercado. Os moradores das comunidades não estão sendo pela primeira vez integrados ao corpo da cidade, uma vez que sempre o fizeram mover trabalhando nas casas, empresas e serviços públicos do asfalto.

O tanto de bom e de ruim desse processo precisa de fato ser considerado à margem das paixões de parte a parte. Para os gringos que encontram beleza, graça e amor na favela, tudo aquilo pode ser uma estada mais perto do céu. Para quem tem ferramentas para tirar proveito da situação, é uma grande oportunidade. Mas existe aí um novo capítulo de migração na cidade, assim como um novo tipo de seleção econômica e cultural que está mudando a cara das comunidades. Paisagem Carioca vem em boa hora para aditivar esse debate e tornar conhecidas algumas histórias pessoais muito interessantes.

Um comentário sobre “Favela dos meus amores

Deixe uma resposta para AntimidiaBlog Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s