Amigos fotógrafos

março 31st, 2010 § 6 Comentários

Meu programa noturno de hoje (quarta), a partir de 20h, é comparecer à abertura da coletiva de fotografia da Casa Benet Domingo (Av. São Sebastião, 135, Urca, Rio). Meu novo amigo Rob Curvello expõe fotos da série COMeSTRUiÇÃO, composições de imagens que fragmentam o real para reconstruí-lo sob nova perspectiva.

Foto: Rob Curvello

Uma das composições de Rob Curvello

Rob Curvello frequentou meu curso recente sobre documentários no SESC-Quitandinha. Em subidas e descidas semanais da serra de Petrópolis, ficamos amigos. Mais que isso, Rob me arrastou para mais perto da área da realização. Resultado: estamos fazendo juntos o roteiro de um doc cujo título de trabalho é Revelando Milan.

O homem do título é o fotógrafo Milan Alram, de 83 anos, francês radicado no Brasil desde 1939. Pioneiro na utilização do filme colorido na publicidade brasileira (fez as primeiras fotos em cores da Coca-Cola entre nós), Milan viveu seu auge profissional a partir da década de 1950. Fotografou grandes mudanças urbanas no Rio de Janeiro e a construção de Brasília, ao mesmo tempo em que prestava serviços para as principais agências de publicidade.

Foto: Milan Alram
A Rua Uruguaiana em 1957 por Milan Alram

Em 1967 iniciou uma carreira internacional que o levou para o circuito Paris–Milão, onde trabalhou para empresas como Air France e Philips. Voltou ao Brasil em 1974 e seguiu a carreira de fotógrafo até 1982, quando um câncer na garganta o fez perder o estímulo profissional e boa parte da potência da voz. Como já cuidava ele mesmo da revelação dos seus filmes – por  não haver no Rio de Janeiro laboratório que atendesse a suas exigências –, resolveu  criar o laboratório Kronokroma, que logo passou a ser referência de qualidade para os profissionais da cidade.

Hoje, após décadas de sucesso, ele vive a nova realidade da introdução das técnicas digitais na produção e pós-produção de fotografias profissionais e amadoras. O pequeno laboratório da Praça do Russel virou um ícone de resistência pessoal e um verdadeiro oásis artesanal para artistas e amantes do celulóide.

Se tudo der certo e algum edital nos abençoar, Revelando Milan vai ser um curta e um longa, ambos enfocando o dia-a-dia do Kronokroma e as visitas ilustres que recebe. Já gravamos participações de Miguel Rio Branco, um dos tradicionais clientes de Milan, e do pesquisador Joaquim Marçal, que prepara um livro sobre ele. Para as próximas semanas, estão previstas gravações com Rosângela Rennó e outros luminares da fotografia que confiam seus negativos à cuidadosa revelação do Kronokroma.

Foto: Hélio Melo

Rob Curvello e Milan Alram no Kronokroma

Para mim, tudo isso está valendo por um pequeno curso de fotografia. Já aprendi, por exemplo, que revelar e ampliar também são uma arte.   

Sylvio Back de volta às armas

março 29th, 2010 § 7 Comentários

Afastado dos documentários desde 1995, quando lançou Yndio do Brasil e Zweig: A Morte em Cena, Sylvio Back está de volta ao cinema do real com O Contestado – Restos Mortais, selecionado para o próximo Festival É Tudo Verdade. Back é um dos grandes do doc brasileiro, e sua proposta de publicar um ensaio sobre o filme no meu blog foi motivo de muita honra. Ele apresenta o texto como “uma espécie de making of jornalístico-opinativo do e sobre o filme”.

Foto: Claro Jansson

 O CONTESTADO, UMA GUERRA INSEPULTA

Sylvio Back*

Por ser um cineasta cuja obra é seduzida pela ânsia de reverter as falácias e o esquecimento da história oficial, a obsessão reside em  responder qual a diferença entre realidade bruta, memória e encenação (territórios minados por onde trafego impunemente), quando convertidos em celulóide e/ou  digital?

Desmobilizando essa ilusória noção, resta a única certeza de que entre elas a ficção tem que fazer sentido! Depois, é sabido, o passado como o presente, não permanece estático, está em permanente movimento e mutação. É “outro” toda vez que retornamos a ele. Foi o que me aconteceu ao revisitar a Guerra do Contestado quarenta anos depois (o filme anterior ,“A Guerra dos Pelados”, uma ficção, foi escrito e rodado entre 1969/1970, estreando no ano seguinte): ambos mudamos a ponto de não nos reconhecermos mais! Isso é o mais fascinante na formatação de uma narrativa moral que mexe com a história sem procurar atropelá-la nem lhe impor viseiras. Nessa hora sempre me ocorre, como se um chamamento à lucidez fora,  frase de um dos personagens de “O mensageiro” (1970), brilhante filme de Joseph Losey: o passado é um país estrangeiro, lá tudo é diferente. Ou seja, é preciso estar sempre com o passaporte em dia!  Continue lendo

Uns minutinhos da sua atenção

março 27th, 2010 § 1 Comentário

Uma das consequências do consumo cada vez maior de audiovisual online é a redução das durações. O mainstream do Youtube limita os vídeos a 10 minutos. Deu-se bem quem já lidava com o filme curtíssimo. O Festival do Minuto, por exemplo, tornou-se permanente e online a partir de 2007. Para outros, a restrição tornou-se uma estética. Veja o Cinelan, para onde grandes documentaristas internacionais produzem filmes de 3 minutos.

Para dar conta do recado em tão pouco tempo, a turma tem se valido da síntese, claro, mas também de recortes muito definidos e de uma linguagem que se estabeleça rapidamente e conquiste a atenção do espectonauta. A tentação de dar um back ou clicar em outra coisa é ainda maior que a de zapear no controle remoto da TV.      

O reino do filme online é um zapear constante. A satisfação deve vir sem delongas. Mas o modelo do microfilme também já se estende ao mundo offline. Estão abertas as inscrições brasileiras para o Festival Internacional de Filmes Curtíssimos – leia-se até 3 minutos. Imagino que os discursos de apresentação e agradecimento serão mais longos que as obras.

Na rede, já falei aqui dos belíssimos docs da Mediastorm. Agora descobri a série Miami-Havana, um co-produção internacional que a televisão europeia Arte vem veiculando desde 22 de fevereiro. A cada dia, durante três meses, dois vídeos estão sendo postados no site. Um de Havana, outro de Miami. Nos dois lados, separados por 90 milhas e uma espessa barreira ideológica, jovens cubanos que nasceram bem depois da revolução castrista falam de suas raízes, sonhos e dificuldades.

Adivinhe a duração de cada vídeo? Dois minutinhos, no más.        

Welcome back, Scorsese

março 25th, 2010 § 4 Comentários

Há um bom tempo eu não gostava tanto de um filme de Martin Scorsese. Coisas como Gangues de Nova York, Os Infiltrados e principalmente O Aviador me pareciam bolos de noiva confeitados por um cineasta que trocava o estilo pela produção, o carisma cinematográfico pela diluição em fórmulas grandiloquentes. Ilha do Medo me reconciliou com Scorsese porque põe o imenso talento do cineasta de novo a serviço de um roteiro denso e intrigante.

lha do Medo injeta loucura no filme noir ao mostrar um homem inserido numa trama que se divide entre a realidade objetiva e os delírios da imaginação. Vi o filme apenas uma vez e confesso-me ainda indeciso quanto à ambiguidade da história de Teddy Daniels/Andrew Laeddis. Embora tenha previsto relativamente cedo a chave do segredo, não fiquei inteiramente convencido do desdobramento final. Não que isso diminua meu interesse pelo filme, pelo contrário. Agrada-me o fato de poder recriar a história segundo outro ponto de vista, mesmo à revelia dos rumos que ela toma na tela.

Lembro-me do clássico expressionista O Gabinete do Dr. Caligari, em que os produtores impuseram um final divergente para salvar a reputação da psiquiatria. É claro que ninguém impôs nada a Scorsese, mas Ilha do Medo parece incorporar uma “correção” do desvio clínico. O universo da ilha é tão fechado que mesmo nós, espectadores, podemos estar sendo vítimas de um enredamento diabólico.

Mas Ilha do Medo é um filmaço não somente por ser complexo e por ser a melhor encarnação da parceria Scorsese-DiCaprio até agora. É um filmaço porque realça o apetite do diretor pela forma cinematográfica. Não me lembro de um plano do filme que não seja motivado por um desejo voluptuoso de expressão. Nada é puramente funcional. Cada movimento de câmera serve para dilatar ou comprimir o espaço, além de dramatizar as distâncias (físicas ou transcendentais) entre os personagens. Se alguém abre uma porta, um corte rápido faz da porta a protagonista do momento. Se soa uma campainha, alguém risca um fósforo ou coisa assim, a montagem potencializa o pequeno ato numa efeméride de ritmo, luz e som. Quando DiCaprio mergulha no mar, vemos até o reflexo do seu corpo passando sobre a água.

O conjunto de cenas espantosas – as aparições da mulher morta, o fuzilamento dos soldados nazistas, o cigarro de Chuck na crina do penhasco – fazem de Ilha do Medo um espetáculo nas melhores tradições do grande cinema americano. Esse é o terreno onde brota melhor a genialidade de Scorsese. Ao mesmo tempo, o recurso ao fantástico representa uma exceção em sua carreira.                

Flashblack

março 23rd, 2010 § Deixe um comentário

As passagens de Mandela (com Winnie), James Brown e Desmond Tutu pelo Brasil, uma apresentação de Mestre Aniceto no Circo Voador, um depoimento de Abdias Nascimento sobre a trajetória da luta negra no Brasil. Eis alguns dos muitos vídeos que já estão sendo disponibilizados no novo endereço Cultne – Acervo Digital de Cultura Negra. O site está sendo lançado hoje (terça) no Cine Odeon (Rio), às 19 horas. A movimentação vai se estender por mais quatro dias de exibições e debates no Cinema Nosso (Lapa), encerrando no sábado com a festa Usafricarib na Estrela da Lapa. 

O Cultne tem por trás o brasileiro Filó Filho e a inglesa Vik Birkbeck. Já no início da década de 80, apareceram produtores atentos à efervescência da cultura negra por aqui. Ras Adauto e Vik Birkbeck criaram a Enúgbarijo Comunicações, que levou o nome do exú mensageiro, a Boca Coletiva. Filó Filho e Carlos Alberto Medeiros fundaram a Cor da Pele Produções, além do conceito Griot, via Quilombo Eletrônico. Com o advento das primeiras câmeras de vídeo portáteis e independentes, percorreram toda a cidade do Rio de Janeiro, onde eram facilmente avistados pelas ruas, morros, avenidas, salões, além de passarem pelo Clube Palmares de Volta Redonda e filmarem os agitos nas cidades de Juiz de Fora, Belo Horizonte, Salvador e São Paulo. O resultado é um gigantesco acervo de material em vídeo.

A fim de facilitar o acesso do público, Filó e Vik digitalizaram todo o material e criaram o site. O patrocínio é da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do governo do estado. São cerca de mil horas de imagens, gravadas originalmente em VHS e disponíveis para visualização, download, reedições, mashups e tudo o mais que a imaginação possa produzir.

Filó e Vik convidam quem tiver material desse tipo em casa, seja analógico ou digital, a incorporá-lo no site. O Cultne quer virar referência.

Cinefilia à moda malaia

março 21st, 2010 § Deixe um comentário

Hoje (domingo) é dia de debate na Mostra Faça Você Mesmo – O Novo Cinema da Malásia. Às 17h, na Caixa Cultural Rio, os cineastas malaios Woo Ming Jin (ficção) e Amir Muhammad   (documentários) vão conversar com os brasileiros Anna Azevedo e Luís Carlos Nascimento, mediados por Patricia Rebello. O tema da mesa é o cinema como espaço de reflexão social, na Malásia e no Brasil.

O cinema malaio vem despertando o interesse internacional pela juventude da maioria de seus realizadores e pela forma independente e colaborativa como vêm produzindo, em tecnologia digital, filmes densos e ao mesmo tempo leves, com uma pesquisa estética razoavelmente sofisticada.

Mas a garotada malaia não parece ser vista no seu país como a próxima maravilha do cinema mundial. No clipe abaixo, alguns espectadores passam uma visão crítica e bem-humorada da sua “film industry”. Talvez você não compreenda o inglês deles o tempo todo, mas mesmo assim vale a pena conhecer um pouco das caras e da atitude corporal dos cinéfilos de Kuala Lumpur.

A favor

março 19th, 2010 § 3 Comentários

A passeata de 150.000 pessoas sob chuva anteontem no Rio e a divulgação da nova pesquisa do Ibope com popularidade recorde (75%) do presidente Lula são dados que convergem para uma leitura muito nova do momento político carioca e brasileiro.

Passeatas, para minha geração, eram sempre contra quem estava no palácio. Como traduzir agora uma manifestação convocada pelo governo e que consegue apoio ao mesmo tempo popular, das elites (cultural e econômica) e de um grande jornal conservador?

Da mesma forma, os altos índices de aprovação do governo Lula e o crescimento firme da candidatura Dilma expressam um contexto pouco usual: a avaliação positiva provém de um amplo espectro social que vai dos mais pobres à intelligentsia.

Não sou analista político, mas penso como um cidadão interessado na posição do país e na redução das desigualdades. Como tal, festejo esse momento virtuoso que vivemos. Não sinto a menor culpa ou contradição em estar a favor do governo – municipal, estadual e federal. É preciso acabar com aquele raciocínio automático de que si hay gobierno, soy contra. O que está acontecendo em nosso estado e no país é que, pela primeira vez em muito tempo, a maioria das posições dos governantes coincide com boa parte das aspirações dos cidadãos.

Até há pouco tempo a gente pensava que isso jamais poderia acontecer.      

Notas irresponsáveis

março 17th, 2010 § 3 Comentários

O acúmulo de trabalho não me tem permitido escrever com vagar sobre alguns filmes recentes. Mas aqui vão três notas irresponsáveis que não caberiam no envelopinho do Twitter:

O novo crepúsculo do macho

No ótimo e relativamente menosprezado Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos, Paulo Halm dá uma nova e divertida versão para o crepúsculo do macho, aquele conceito criado pelo Gabeira nos anos 1980, quando ainda era um progressista. O personagem vivido em minúcias deliciosas por Caio Blat é um escritor em bloqueio criativo que suspeita que sua mulher está tendo um caso com uma amiga. E o diabo é que ele se apaixona também pela amiga. Numa das cenas mais hilárias do cinema brasileiro recente, Zeca deixa-se sodomizar em circunstâncias surpreendentes. Do ponto de vista metafórico, o episódio ilustra o pânico e a inferioridade do macho diante de mulheres realizadas e bem resolvidas. Apesar do vexame de Zeca, a testosterona corre solta nessa comédia muito bem escrita, dirigida e montada. Com uma qualidade extra: a metalinguagem não serve de muleta para a ausência de dramaturgia. Ela é apenas esporádica, um toque de charme a mais.

Diagnóstico goela abaixo

O naturalismo não fez bem ao cinema de Sérgio Bianchi. Eu gostava de seus diagnósticos impiedosos da sociedade brasileira quando eles eram apresentados como tal: brutos, desmedidos, faca direta na carne. Em Os Inquilinos, Bianchi resolveu dar uma guaribada no estilo. Criou uma estrutura pretensamente menos teatral, um certo realismo de periferia com ares documentais, e até um personagem – o pai de família – em que o espectador pode se identificar, tanto nas reações como na paranoia diante de supostas ameaças. Aí é que, a meu ver, Bianchi fica inviável. No naturalismo, suas deficiências de diretor aparecem mais, os diálogos soam literários (uso do futuro do pretérito, por exemplo), a fluência das cenas fica atravancada por uma decupagem pobre. O resultado é que o diagnóstico, pela primeira vez, me pareceu enfiado pela goela em vez de injetado na pele. Para muita gente boa, inclusive o especialista João Luiz Vieira, Bianchi ficou melhor assim. Para mim, enfraqueceu.

Tudo pelo estilo

Tom Ford diz que não quis fazer um filme sobre homossexuais, nem sobre moda. A Single Man (Direito de Amar) seria um filme sobre a solidão de uma pessoa qualquer. Tudo bem, não vou discutir o sexo dos anjos num filme que lembra ora o brasileiro Do Começo ao Fim, ora o Querelle de Fassbinder. Mas o negócio da moda é mais sério. Socorro-me do campo semântico da palavra “estilista”, onde convivem estilo e moda. George (Colin Firth) é um homem obcecado pelo estilo, até mesmo para preparar o suicídio. Sua fixação na aparência das coisas (traço herdado do diretor) de certa forma esvazia sua substância, que se anula nos diversos encontros de um dos dias mais loooongos de um personagem do cinema. Comparado com Trinta Anos Essa Noite, de Louis Malle, em que um suicida iminente faz suas últimas visitas afetivas, A Single Man parece um desfile de poses artificialmente deprimidas. Pode não ser um filme sobre moda, mas é de alguém ligado mais à superfície que à humanidade que ela recobre.       

Esses meninos da Malásia

março 15th, 2010 § Deixe um comentário

Começa amanhã (terça), na Caixa Cultural, Rio, a Mostra Faça Você Mesmo – O Novo Cinema da Malásia (visite o site). Minha amiga Patricia Rebello vai mediar uma mesa de debate com os diretores Amir Muhammad, Woo Ming Ji,  Anna Azevedo e Luis Carlos Nascimento, no dia 21, às 17 horas. Muito gentilmente, ela escreveu esse post para o blog:   

Cena de "Sepet"

Em janeiro, a revista Cahiers du Cinéma soltou uma edição especial com os melhores filmes dos anos 2000. E, como sempre acontece nessas circunstâncias, não podia faltar uma lista dos “top ten” da década – os 10 filmes mais votados pelo time da redação daquela que, ainda que já tenha conhecido dias de maior prestígio, continua tendo um papel fundamental na crítica de cinema contemporânea. Em meio a eleitos conhecidos por estas bandas, como David Lynch, Cronenberg e Kiarostami, surgem três nomes não tão conhecidos, ou fáceis de pronunciar, por aqui: Apichatpong Weerasethakul (Tropical Malady, 2004), Bong Joon-ho (The Host, 2006) e Wang Bing (A Oeste dos Trilhos, 2002). Por mais que a cultura cinematográfica no Brasil venha conhecendo um saudável crescimento, a não ser que você seja frequentador de circuitos de arte, festivais ou mostras, dificilmente encontrou com estes filmes e autores nas salas do grande circuito.

Nessa mesma edição, o cinema asiático é saudado como um dos que mais desfrutaram visibilidade nos anos 2000, através de políticas de financiamento culturais, de festivais, de distribuição e de exibição. Em certo trecho, a publicação francesa destaca, além destes fatores, a importância trazida pelo aporte da tecnologia digital na região, transformando a maneira de se fazer cinema, driblando a censura e fugindo das receitas fáceis e das fórmulas carcomidas. O melhor exemplo disso, está lá escrito, é o cinema da Malásia e seus jovens realizadores em digital.

Boa parte dessa nova geração, que vem revitalizando o cinema malaio com trabalhos dialeticamente fortes e delicados, simples e complexos, leves e intensos, estará à disposição do publico na mostra Faça Você Mesmo – O Novo Cinema da Malásia, que acontece na Caixa Cultural, no Rio, entre os dias 16 e 28 de março. É uma oportunidade imperdível de conhecer um cinema feito por gente muito jovem, com muita disposição para colocar em jogo sua cultura e seus problemas, suas  tradições e suas formas de encarar, e encantar, a vida. São ficções e documentários que nos tornam tão próximos da Malásia quanto de uma forma quase artesanal de fazer cinema.

A Malásia é povoada por três grandes povos asiáticos (malaios, indianos e chineses); é um verdadeiro caldeirão de influências coloniais, de tradições árabes e européias, fervilhando de questões pouco conhecidas, ou mesmo discutidas, por aqui. Diferenças entre raças e entre religiões (muçulmanos, budistas e hindus vivem lado a lado), diferenças de comportamento e de atitude; choques, opressão, sexualidade, infância, crenças. Está tudo nestes filmes, em deliciosas narrativas, em personagens cativantes, que encantam e surpreendem pela forma como são bem sucedidos ao entrar em contato conosco, povo ocidental meio ressabiado e de pé atrás.

Os meninos da Malásia sabem fazer cinema “do bom” porque, além de uma vontade de falar sobre seu país e suas peculiaridades, eles amam o bom cinema. Isso está escrito em cada linha dos roteiros (repletos de citações, como a protagonista de Sepet, que adora os filmes de Wong Kar Wai e Jonhy To), na bonita fotografia com as cores e a liberdade das ruas (como na paisagem das aventuras dos dois meninos de Flores no Bolso), ou na poesia da montagem por atração (nas bonitas sequências de O Elefante e o Mar). Afora os ótimos títulos, os meninos da Malásia trazem para o Brasil bom humor, espontaneidade e uma grande alegria de viver, coisa cada vez mais rara de encontrar. E exatamente porque descobriram uma fórmula delicada para falar das densas questões que atravessam seus filmes, torna-se mais leve respirar durante as histórias. E com certeza, se sai de cada sessão com um sentimento renovado de generosidade pelo mundo, pelas pessoas e pelas coisas simples e belas da vida.

Patricia Rebello

P.S. No dia 25, a mostra começa também na Caixa Cultural de São Paulo

Cahiers de pesquisá

março 13th, 2010 § 4 Comentários

Na década de 1980, os pesquisadores do cinema brasileiro viviam uma era bem diferente da atual, quando ainda não existiam e-mails, Google e outras ferramentas que atualmente colocam o mundo ao alcance dos dedos. As pesquisas eram feitas no papel, nas viagens e na consulta empírica aos acervos. Foi quando surgiram os Cadernos de Pesquisa, editados pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB), primeiramente com o apoio da Embrafilme. Foram publicados quatro números dos Cadernos, que hoje constituem peças raras em coleções. Eles representaram um momento importante na divulgação da pesquisa cinematográfica brasileira, através da edição de trabalhos que foram fundamentais para o estudo da história do nosso cinema.  

Os tempos mudaram, mas o CPCB continua a agregar pesquisadores das várias regiões do país e a restaurar filmes brasileiros como Menino de Engenho, O País de São Saruê, Aviso aos Navegantes, O Homem que Virou Suco e A Hora da Estrela. Agora, com o patrocinio da Petrobras, o Centro está publicando uma quinta edição (especial) dos Cadernos de Pesquisa. O primeiro lançamento será neste sábado, no campus Gragoatá da UFF, por ocasião do encerramento do IV Congresso do Forcine – Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual.    

Professores de cinema de todo o país vão receber em primeira mão a publicação que reúne 10 artigos assinados por pesquisadores como João Luiz Vieira, Selda Vale da Costa, Solange Stecz e Vladimir Carvalho (veja sumário abaixo). Fui responsável pela edição, juntamente com Myrna Silveira Brandão, presidente do CPCB. Cuidamos para que estivessem representadas as diversas regiões onde existem núcelos do CPCB.

O número especial é dedicado à memória de José Tavares de Barros (1936-2009), um dos fundadores da entidade e idealizador dos Cadernos de Pesquisa. Dele está sendo publicado um texto original de 1978 sobre o filme mineiro Tormenta (1931).

Ah, a montagem fotográfica da capa (acima) é trampo aqui do bonitão.

Os argentinos e nós

março 10th, 2010 § 12 Comentários

Uma das boas notícias da noite do Oscar foi a vitória inesperada de O Segredo dos seus Olhos na categoria de melhor filme em língua estrangeira. Surpresa não pela qualidade do filme, que é inequívoca, mas pelo franco favoritismo de A Fita Branca e O Profeta. Só sei que alguma coisa me alertava para uma possível façanha argentina, pois o coloquei em segundo lugar na bolsa de palpites que faço com amigos.

 Nem os críticos argentinos que habitualmente torcem o nariz para os filmes de Juan José Campanella – los anticampanellistas – resistiram ao charme e à verve narrativa de O Segredo. A maneira envolvente como ele coloca vários gêneros para conversar e chega a níveis relativamente profundos nos aspectos humano e político, sem jamais perder o pulso da plateia, é realmente admirável. São duas histórias de amor paralelas, atravessadas por uma suspeita hitchcockiana, pelo humor (às vezes negro) e pela observação política que não emperra o fluxo do argumento central.

 Campanella pode não ser o “auteur” que certos críticos exigem, mas deixa suas marcas bem claras. Seja no personagem cômico, sempre presente em seus filmes; seja na engenhosa combinação do doce e do amargo, da nostalgia portenha com a teimosia em busca da felicidade; ou ainda na presença iluminada do sutilíssimo Ricardo Darín, sem o qual não dá para imaginar o que seria do cinema de Campanella. O Segredo é um primor de ritmo e traz uma das cenas mais virtuosísticas do cinema recente, que é o plano-sequência do estádio de futebol, arrebatador como resumo do tema da paixão.

Eu imaginava que a Academia poderia se emocionar com tudo isso – e fazer vista grossa para o que mais me incomoda no filme, que é o bloco final. Ali a narrativa de Campanella fica didática, com aqueles horríveis “ecos” de lembrança, e inverossímil no desfecho do viúvo apaixonado.          

De qualquer forma, é muito mais cinema do que tudo o que o Brasil colocou no páreo pelo Oscar este ano. A Folha de São Paulo fez uma matéria sobre isso na semana passada. Minhas declarações ali resumidas requerem um pouco mais de espaço.

De fato, acho que o cinema brasileiro de ficção está num impasse em relação ao mercado internacional. De um lado, temos filmes ambiciosos do ponto de vista autoral, chegados ao experimental, mas capazes de se comunicarem apenas com plateias mínimas, especialmente motivadas. De outro, estão os filmes ultracomerciais, pautados pelo gosto de um público acostumado com a televisão, e que não têm estatura para competir longe do front doméstico.

Não há muito entre esses dois extremos. Poucos são os realizadores que investem no caminho do meio, tentando conciliar invenção e comunicação, cor local e universalidade, ousadia e artesanato. Walter Salles, Fernando Meirelles, Karim Ainöuz, Murilo Salles e Walter Lima Jr. estão entre eles. Já Beto Brant é exemplo de um cineasta que trocou a via da universalidade (culminante em O Invasor) por exercícios mais radicais e de difícil circulação.

Não me venham falar de Tropa de Elite em Berlim. Aquele foi um evento misterioso, inexplicável, que não repercutiu muito além dos limites da própria Berlinale. O Oscar de Campanella, isso sim, tornou ainda mais evidente o fosso entre os cinemas de ficção brasileiro e argentino em matéria de alcance além-fronteiras. Nossa mania de autossuficiência talvez cochiche que não precisamos do mercado estrangeiro. Mas na hora de competir, sempre acabamos nos lamentando ou apontando “culpas”. A verdade é que nosso cinema participa apenas marginalmente da cena internacional. Talvez por uma simples razão: o que não é produzido para ser universal não pode ser vendido depois como tal.        

Alucinadas!

março 8th, 2010 § Deixe um comentário

Franka Potente em "Corra, Lola, Corra"

O que têm em comum Cléopatra, Salomé e a Lola Lola de O Anjo Azul? Ou Betty Blue, Barbarella e a Camila de Nome Próprio? São todas mulheres “intensas, passionais, tempestuosas e vulneráveis”, no entender de Julio Cesar de Miranda, da saudosa locadora Polytheama. Ele é o curador da mostra Mulheres Alucinadas, que ocupa o Cinema 2 do CCBB-Rio a partir desta terça-feira.

Por trás dessa seleção há o apelo da personagem feminina exaltada, desestabilizadora, epítome do desejo erótico e dos dilemas morais da plateia. Um apelo muito caro ao cinema desde sempre. Edison já sabia disso ao filmar suas bailarinas alvoroçadas que pré-lançaram o voyeurismo cinematográfico. Depois que Almodóvar se projetou internacionalmente, firmou-se até a expressão “mulheres à beira de um ataque de nervos” para caracterizar essas criaturas em estado alterado. O filme dele, é claro, está na programação.

Marlene Dietrich, Bette Davis, Louise Brooks e Isabelle Huppert estão no fantástico elenco da mostra, que também abre alas para filmes de Bergman (Persona), Alexander Kluge (Trabalhos Ocasionais de uma Escrava) e Lars Von Trier (Anticristo). As exibições em DVD vão incluir filmes mais raros como o húngaro O Amor, de Károly Makk, Lua de mel de Assassinos, de Leonard Kastle, e A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos, de Aki Kaurismäki.

Perdemos geral

março 7th, 2010 § 2 Comentários

Na última quarta-feira, a Folha Ilustrada publicou uma matéria de capa sobre a concorrência pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. O foco do artigo era a distância qualitativa entre os filmes brasileiros que disputaram uma indicação e os cinco afinal indicados. Eu fui um dos entrevistados pela repórter Ana Paula Sousa, devido à minha participação na comissão que escolheu Salve Geral para representar o Brasil. Para quem não leu e tiver interesse, aí vai o texto: 

Cinema café com leite

Qualidade dos concorrentes ao Oscar de filme estrangeiro evidencia o quanto o Brasil, com “Salve Geral”, mais uma vez passou longe de conseguir uma vaga na disputa

ANA PAULA SOUSA
DA REPORTAGEM LOCAL

A língua da festa será o inglês. Mas certos convidados notáveis estarão ali, justamente, porque falam um outro idioma. Nesta edição do Oscar, estão abrigados sob a categoria “filme em língua estrangeira” alguns dos melhores títulos que o mundo viu em 2009. Eles não figuram nas listas organizadas em ordem de cifrões, mas saíram com troféus de festivais como Cannes e Berlim.
Goste-se mais ou menos de cada um deles, é indiscutível a qualidade dos cinco finalistas dessa categoria que, em vários anos, chegou manca à festa. Esta seleção, ao contrário, evidencia a qualidade do cinema feito em diferentes países. E, no caso do Brasil, nos leva a uma constatação: são muitos os quilômetros que separam a produção nacional do Kodak Theatre, em Los Angeles, onde acontecerá, no domingo, o Oscar.
“Há uma grande diferença de estatura entre esses filmes e os nossos”, diz o crítico Carlos Alberto Mattos, integrante da comissão que escolheu “Salve Geral”, de Sérgio Rezende, para tentar uma vaga. Depois de ver “O Profeta” (França), “A Teta Assustada” (Peru), “O Segredo dos Seus Olhos” (Argentina) e “A Fita Branca (Alemanha) – o israelense “Ajami” não chegou ao Brasil – a resposta para a ausência brasileira torna-se, mais do que óbvia, ululante.
“Isso é reflexo do cinema brasileiro que, a não ser por uma ou outra exceção, não tem relevância internacional”, diz Luiz Gonzaga de Luca, também integrante da comissão e diretor do Grupo Severiano Ribeiro. “Alguns cineastas tentam negar a importância do Oscar. Mas, e Berlim, também não importa? Fazemos um cinema para o mercado nacional e ponto.”
Começa aí a diferença entre os filmes que o Brasil embarca em voos internacionais e aqueles que, efetivamente, têm condições de competir. “O Profeta” ganhou nove prêmios César, o mais importante da França; “O Segredo dos Seus Olhos” saiu com troféus do Goya, o prêmio espanhol; “A Fita Branca” venceu Cannes e “A Teta Assustada”, Berlim – para ficar nos eventos mais estrelados.
Apesar de ser uma festa do cinema hollywoodiano, o Oscar recebeu, neste ano, 65 inscrições de outros países. “Uma indicação muda a história de uma produção. Já tínhamos vendido o filme para 20 países, mas agora temos a garantia de que será bem lançado”, diz Mariela Besuievsky, produtora espanhola de “O Segredo de Seus Olhos”.
Cabe lembrar que, pela estreita porta da Academia, tampouco conseguiram passar concorrentes fortes como “Polícia, Adjetivo” (Romênia) e “Mother – a Busca da Verdade” (Coreia do Sul), filmes tornados cult.
Hengameh Panahi, da Celluloid Dreams, que produziu “O Profeta” e outros biscoitos finos do cinema autoral, diz que a seleção reflete, também, a mudança pela qual passa o mercado para os filmes não-hollywoodianos. Ela observa que, para conseguir existir na TV ou no DVD, um filme tem não só de ter passado pelos cinemas como ter causado algum burburinho. “Precisamos de histórias marcantes, bem dirigidas e atuadas. Precisamos de menos e melhores filmes”, diz.
Carlos Gerbase, cineasta brasileiro que estava na comissão, acha, por outro lado, que é da quantidade que esses países tiram suas pérolas.
“As TVs francesas estão cheias de filmes franceses. As salas também. Com quantidade e diversidade, mais uma política que consegue levar os filmes para o público, a qualidade é grande e aí as obras-primas aparecem”, defende.
Para Gonzaga, o problema do Brasil não é a falta de filmes, e sim a crise de identidade. “O Brasil, há 60 anos, vive uma polarização entre arte e indústria. Não temos o meio tom. No fim, vai para o Oscar o filme mais bem finalizado.” Matos, por sua vez, crê que a escolha de “Salve Geral” possa ser um divisor de águas. “As comissões tendem a achar que há temas propícios para serem indicados, que os votantes esperam alguns clichês sobre o Brasil. Talvez eles queiram ser surpreendidos.”

“Temos, de um lado, diretores que se apegam a modelos experimentais, pessoais, e que temem usar uma dramaturgia de mais fácil comunicação; de outro, aqueles que fazem filmes sem personalidade ou diferencial. Nesse sentido, o Brasil não tem filmes universais.”
CARLOS ALBERTO MATTOS
crítico de cinema, integrante da comissão que escolheu “Salve Geral”

O animal que escuta a si mesmo

março 6th, 2010 § 1 Comentário

Ainda não vi o doc Jards Macalé – Um Morcego na Porta Principal, mas trago de volta aqui o iluminado texto que Felipe Messina publicou no DocBlog durante o Festival do Rio de 2008. Curtam aí:  

Antes que acenda a luz do dia, o morcego corta o ar e desfere seus berros contra os obstáculos. A cada batida de asas, calcula as distâncias entre ele e o que o cerca. Seu próprio som o faz navegar em territórios nos quais nem os “Olhos de Lince” conseguem enxergar. Seja pedra, seja planta, seja bicho, seja humano.

O primeiro berro lança contra o diretor do filme. “Para que todas essas entrevistas? Sinceramente não estou entendendo! Eu não confio nisso! Tô falando sério!” A câmera?, deixa-a de lado e encara os arguidores em tom ameaçador. Óculos escuros, camisa de super-homem e zelo pela própria história. Mesmo para quem Vive do presente, diz em alto e bom som que teme por “uma catástrofe”, pela “desconstrução de sua vida”. O mito da infalibilidade e transcendência do cinema persiste. Mas o filme segue. Segue incompleto, como todos. Lacunas planejadas pelo personagem; lacunas geradas pelos criadores. 

Corte. Fumaça, cabeça, nuca, fonogramas… “Vou ficar aqui exposto à audição pública”, escuta-se mais uma vez enquanto o cenário prepara a entrada das imagens de super 8 impressas também por ele. Cores silvantes e versos antigos se unem às imagens do passado que se misturam aos dias recentes como se certos momentos vivessem para sempre. Se a pele muda, a cor da carne se mantém. Se os pelos agrisalham, a língua permanece a mesma. Dela sai a voz que canta o filme inteiro. Ouvi-lo em suas mais variadas fases é quase uma obsessão. Canta letras de sua autoria e interpreta a lírica de outros poetas. Se os versos não são seus, os sentimentos parecem vir de dentro. Assim um perfil é construído também através da música. Solidão, fervor, eletricidade, enfrentamento. Sobretudo solidão e enfrentamento.     

De repente, um pretexto é mote rápido para vê-lo no palco onde hoje é entrevistado por Jaguar. Não se acostume, os lances são velozes e o texto redigido é linha mestra na costura entre as canções, perguntas e anedotas. Os risos nunca cessam e o humor lhe transborda. Ri de si mesmo, ri do camburão, ri do saudoso companheiro e mestre Kid Morengueira (a amizade entre os dois está no curta Tira os Óculos e Recolhe o Homem, de André Sampaio). Nesta sequência extensa de entrevistas, as horas e horas de conversas ficam sugeridas. Vê-se o cantor, o compositor, o ator.  O destino do poeta é coisa dele e talvez por isso os amigos, colegas e admiradores lhe façam deferência. Capinam, Cafi, Chico Chaves, Zé Celso, Nelson Pereira…

Soberba, a mãe lhe sustenta o passo e, sentados num balanço de Penedo, relembram a “peleja” entre ele e Dori Caymmi. Afeito aos acordes dissonantes, com o violão na perna mostra à Dona Lygia a diminuta “inoportuna” que o amigo lhe impusera. Sente-se mais uma vez o cheiro da casa da mãe onde os amigos enfurnados tramavam o Tropicalismo. Saudades de Torquato. Rio e também posso chorar.

Wally não pede licença e, tão rápido como um raio, cruza o cenário com sua voz e sua poesia. Dele apenas as palavras e a imagem enquanto declama. Ah vale a pena ser poeta.

Pouco a pouco, define-se o rumo entre o palco constante, a repetição das imagens antigas e o rememorar dos tantos golpes, de sorte ou de azar. Caçavam bruxas nos telhados de Gotham City e ele próprio acabou marcado pelos inimigos com os quais se debateu. A ponto de ser rotulado como “maldito” juntamente com outras figuras como Luiz Melodia e Jorge Mautner. Foi o preço que pagou por dizer o que pensava, por atacar a indústria fonográfica e alçar outros tantos voos no escuro. Ah como é forte o gosto da farinha do desprezo. Quando a comeu, ao menos foi em boa companhia.

A vida sempre por um triz. No passo errante do risco, o morcego também pousa solitário. É certo que de ponta-cabeça. Apesar de tudo, escuta sempre a si mesmo. “Os próprios barulhinhos internos”. E aí nunca fica só.

Felipe Messina

Uma obstrução para Arthur Omar

março 4th, 2010 § Deixe um comentário

Acorde cedo ou programe seu gravador para o Canal Brasil às 10 horas da manhã de sexta-feira. A pororoca do documentário vai rolar durante o programa que Evaldo Mocarzel fez sobre Arthur Omar para a faixa Retratos Brasileiros.

Mocarzel é um artista cada vez mais inquieto. Seus programas sobre Ana Carolina e Jorge Bodanzky, para a mesma faixa do Canal Brasil, mostram como ele procura mergulhar o personagem nas suas próprias fixações para melhor retratá-lo. Com o imponderável Omar, ele meteu a mão num vespeiro produtivo.

Se a entrevista já é uma situação incômoda para o performático AO, Evaldo ainda cismou de amarrar o homem num quadro fechado, com a câmera postada de baixo para cima. Além de insatisfeito com o ângulo desfavorável a sua idade (embora favorável à vaidade), AO reclamava da opção imobilizadora. “Estou numa cadeira de dentista com a broca na boca”, comparava, pouco depois de se queixar: “Estou num documentário que é contra tudo o que penso como documentário”.

Assisti à versão longa-metragem, não sabendo exatamente o que ficou na edição de 26 minutos do programa. No que vi, boa parte do filme consistia numa altercação entre diretor (deitado no chão, fora de quadro) e personagem (na “cadeira de dentista”) sobre poder, autoritarismo, obstrução e estética. Através da discussão deliberadamente provocada, Evaldo aos poucos impunha seu modelo e conseguia o que almejava: um doc-processo, que falava de seu objeto ao mesmo tempo que de si mesmo.

No longa, Omar é visto também em afazeres domésticos, momentos de introspecção e caminhadas que Evaldo filma em busca de nexos audiovisuais. “Estou me retirando do universo da arte contemporânea (…) Agora sou um neurocientista da experiência cinematográfica.” Frases bochechudas como essas, ditas muitas vezes no limite entre a egolatria e a autoparódia, se mesclam às belas “ficções teóricas” com que AO costuma vestir seu trabalho. Mesmo com o distanciamento devido, é sempre muito bom ouvi-lo.      

Update

Depois de ler este post, Evaldo Mocarzel me enviou um e-mail e me autorizou a dividi-lo com vocês aqui no blog:  

“Meu amigo, gostaria de te dizer que o filme virou uma “obra em progresso” total! Só você e Jean-Claude Bernardet (e acho que também a Ivana) haviam gostado do filme. Todo o resto da humanidade a quem mostrei achou o documentário no limite do insuportável. Jean-Claude me disse que ficou muito impressionado com o embate no filme e que a discussão é “antológica”, e que precisava ser ampliada. Como já fiz a versão para o Canal Brasil com essa mesma estrutura do primeiro corte da versão longa, vou mudar tudo, dilatar o embate e vou voltar a filmar com Arthur Omar para que ele critique a montagem e também para fazer aquela sugestão sua: problematizar dentro do filme a negociação das imagens dele, que não pretendo usar, mas esse debate pode ser muito interessante, como você apontou. Levei Jean-Claude lá para casa, coloquei o filme numa televisão 50 polegadas e deixei Jean-Claude dissecar o filme, discutimos sobre alteridade e “euteridade” (neologismo jean-claudiano), o mestre me disse que Arthur Omar havia me “humilhado” dentro do filme (e eu me coloquei também numa posição desconfortável e submissa total, entrevistando-o deitado no chão), e que eu precisava reagir, as perguntas que não consegui fazer deveriam entrar no filme, assim como a minha troca de mensagens com Arthur Omar discutindo o filme. E ainda quero te entrevistar, você, Carlinhos querido, para problematizar ainda mais o processo do filme e me distanciar da versão do Canal Brasil. Moral da história: o documentário vai ser uma outra coisa, acho que também vou entrevistar a Ivana, e a nova estrutura será, como já disse, a dilatação do embate, do meu conflito com ele, ardilosamente encenado por nós dois, mas nem por isso menos inflamado do que seria se não fosse amigo do Arthur Omar. Acho que a amizade que me une a ele foi o que possibilitou todo esse processo de atritos de egos e de conceitos.”  

A periferia, com amor

março 3rd, 2010 § 3 Comentários

Marcus Vinícius Faustini e uma professora de Nova Iguaçu no lançamento do livro, no CCBB

Sentado no meio-fio de uma rua de Ipanema, esperando a van noturna para Santa Cruz, o garoto Marcus Vinícius imaginava a Ipanema solar dos filmes e dos livros. Essa ele não tinha coragem de frequentar, moleque de periferia que aprendeu a viver no trânsito entre as várias Zonas da cidade. Hoje Marcus Vinícius Faustini é cineasta, autor teatral, animador cultural e Secretário de Cultura de Nova Iguaçu. Acima de tudo, é um cara que transpira entusiasmo e boas ideias pelas quebradas do Rio.

MVF tem uma maneira única de ver o subúrbio e a Baixada: com humor, poesia e verve ficcional. Isso é o que encontramos no seu primeiro livro, Guia Afetivo da Periferia, da ótima Coleção Tramas Urbanas (Ed. Aeroplano/Petrobras). Autobiografia precoce, sem dúvida, mas imune à pretensão de ser “grande livro”. A informalidade das anotações dá o sabor do texto, que não se prende a cronologias ou métodos. É mais uma etnografia de ruelas, armazéns, menus humildes, remédios, TV aberta. São memórias de andanças, trabalhos, leituras, descobertas, amizades, sonhos de namorar “uma caixa da Mesbla que gostasse de cinema francês”. Um moço fazendo pontes entre a cultura e a vida simples, a realidade e a imaginação.

Também de infância muito pobre, gostei de encontrar onde minha história se cruzava com a de MVF. Entre os muitos empregos dele, por um tempo houve o de “menor auxiliar” (contínuo) do Banco do Brasil, ofício que eu havia desempenhado muitos anos antes em outro banco. Enquanto ele subia e descia as escadas do BB, eu lá trabalhava como redator de uma revista sobre comércio exterior. Mais tarde, ele passou a frequentar o cinema do CCBB, que eu programava. Estivemos durante muito tempo próximos, sem que eu o conhecesse.

No Guia Afetivo da Periferia há um pouco de todo mundo. Mas principalmente de gente como Marcus Vinicius, que retempera e eleva o seu meio pelas artes da observação e da invenção. O livro é bem escrito, bem-humorado e bem ilustrado. Entre as frequentes decolagens poéticas do autor, destaco esse trecho de epifania durante uma viagem de ônibus, quase uma síntese de todo o percurso de MVF:

Autoviação

Já rodei quase uma noite inteira dentro do 415 chorando. A dor era grande. A maior que senti até hoje. Era como não ter pulmão para respirar. Estava tudo ali, naquela dor. Parecia a última que eu sentiria. Não sei exatamente como, mas uma saudade contundente de meus avós me ocupou. Chorava no percurso e não conseguia sair do ônibus. Ao longo do repetido caminho, apesar das lágrimas e do buraco em meus pulmões darem a constatação física do tamanho de minha dor, eu desconfiava dela. Passando mais uma vez pelo Aterro, olhando entre as lágrimas, do alto dos prédios, as luzes dos outdoors do Passeio e da Avenida Beira-Mar ficaram mais belas naquele instante. Meus olhos se concentraram neles e comecei a imaginar como contaria o que estava sentindo. Imaginei uma frase que poderia escrever sobre aquele pequeno instante onde sentia aquela dor e ao mesmo tempo aquela beleza. Ensaiava como a falaria. Experimentei ali, pela primeira vez, um prazer em organizar a dor de existir. Com o ônibus já cruzando a Avenida Presidente Vargas, um autorretrato na janela se configurou. Não me perdoei. Sentir tamanha dor, chorar e ao mesmo tempo me descolar e ver beleza na cidade… A dor passou. O que se passa na cabeça das pessoas que cruzam a cidade pela madrugada dentro dos ônibus? Será que a cidade invade o lugar de seus pensamentos? Como cada um constrói sua Autoviação?    

Reencontrando Ely

março 1st, 2010 § Deixe um comentário

Em 1978, Ely Azeredo escreveu assim no Jornal do Brasil:

“Sem dúvida, A Lira do Delírio é uma celebração do gosto pelo cinema. Não estamos ante um filme-veículo, algo que serve para mera ilustração de uma história. Mais que em qualquer de seus fimes anteriores, Walter Lima Júnior demonstra ter absorvido em seus tempos de cinéfilo e crítico uma acervo de cultura cinematográfica muito ponderável, sem copiar ninguém – aquém ou além-fronteiras. Antes, talvez não lhe fosse possível driblar tanto as palavras de ordem sobre conteúdo, mensagem e formalidades desse tipo. Hoje, o chamado Brasil pragmático parece apto a aceitar, até nas esferas oficiais, um filme que se mostraria inútil ao exame dos criptólogos de qualquer ideologia”.

Eu era então um iniciante na crítica de cinema, e textos como esse reverberavam no meu aprendizado. Um filme era bem mais que um filme, mas algo que obrigatoriamente se relacionava com o mundo do cinema e o mundo ao seu redor. Na época eu tinha dois gurus à mão nas páginas do JB: José Carlos Avellar, com seus textos “para dentro”, construindo sentidos a partir da estrutura das cenas; e Ely Azeredo, com seus textos “para fora”, projetando os filmes no firmamento do cinema e do seu tempo. Não sei qual dos dois me impressionava mais.

Quando comecei, na Tribuna da Imprensa, orgulhava-me de ali ter começado também Ely sua carreira profissional, e em cujas páginas ele cunhou a expressão “Cinema Novo”. Amanhã, terça-feira, vou ao lançamento do livro Olhar Crítico – 50 Anos de Cinema Brasileiro, na condição de colega e amigo de Ely. Vai ser na livraria Travessa do Shopping Leblon, a partir das 19 horas.

O livro, editado pelo Instituto Moreira Salles, traz uma seleta de resenhas e artigos do autor entre 1953 (O Cangaceiro) e 2003 (Carandiru). De uma ponta à outra, são textos desabridos, francamente opinativos, construídos com a fluência e elegância que sempre admirei. Na introdução e no capítulo “Trajetória do autor”, fica patente a inserção de Ely para muito além do dia-a-dia jornalístico. A implantação do primeiro circuito de cinemas de arte, a criação da revista Filme Cultura – que ressurge agora com minha modesta participação – e a idealização do primeiro Concurso Nacional de Roteiros, em 1975, são apenas algumas das iniciativas pelas quais o crítico se estabeleceu como articulador e animador da cultura cinematográfica no Brasil.

Uma trajetória inspiradora, sem dúvida, que só realça a falta que Ely Azeredo faz hoje, limitado a esporádicas aparições nos limites do Bonequinho de O Globo. Esse livro restaura um mínimo de sua importância.                          

Onde estou?

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